Por muito raro que seja, o
verdadeiro amor não o é tanto como a verdadeira amizade.
A principal finalidade deste blog é a divulgação da Doutrina Espírita, codificada por ALLAN KARDEC, através de trechos do Evangelho Segundo o Espiritismo, preces, orações, crônicas e comentários.Queremos, também, transformar esse blog em uma CASA ESPÍRITA VIRTUAL.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
SEXO E DESTINO -LIVRO DE CHICO XAVIER
CONTINUAÇÃO
CAPÍTULO 6
CONTINUA AMANHÃ
CAPÍTULO 6
Valendo-nos da condução, seguíamos igualmente para o hospital, em objetivo de serviço.
Enquanto o automóvel chispava, a senhora Nogueira fitava Nemésio ao volante, apreciando-lhe a sisudez aparente e o porte desempenado. Inquietava-se consigo mesma, de vez que refletia naquilo em que não queria pensar. À vista daquele tipo galhardo, indagava-se por que razão Marina preferira o filho ao pai, se o genitor, cavalheiro dinheiroso e simpático, era, em tudo, a pessoa capaz de assegurar-lhe independência e posição.
De quando em quando, envolvia-lhe o perfil numa olhadela mais comprida e concluía, de si para consigo, que a juventude não tinha lógica.
Mais alguns minutos e penetramos no estabelecimento, onde o par foi recepcionado pelo facultativo com quem Dona Márcia se comunicara, momentos antes.
O médico, gentil, notificou ter avisado Cláudio quanto à possibilidade da surpresa, mas Dona Márcia desconversou, para não dar ao pai de Gilberto a impressão de que se dispusera a vir até ali pela primeira vez. Referiu-se à temperatura, comentou particularidades
do ambiente, qual se repetisse observações corriqueiras. E o clínico, longe de perceber-se a servir de instrumento, respondialhe às perguntas calculadas, atendendo-lhe, involuntariamente, aos fins em pauta.
Foi assim que, ao transpor a entrada do aposento indicado, Nemésio guardava a convicção de acompanhar um símbolo vivo de ternura materna.
Cláudio, abatido, acolheu, a seu turno, os recém-chegados, entre sóbrio e atento. A princípio, o desconforto íntimo... Depois, a conformação. Sofria demais para escolher discutir e aprendera o suficiente, naqueles dias de angústia, para inclinar-se a reclamações.
Aliás, ao facear com Nemésio, endereçou-lhe o olhar do homem atribulado que roga a outro homem comiseração e socorro.
Recebeu-lhe o amplexo franco, depois das apresentações promovidas pela mulher, e imaginou-se na condição de um aluno em exame.
Torres, que ele conhecia tão bem, conquanto a distância, figurou-se-lhe diferente. Sabia-o ostentando-lhe a filha em noitadas vadias e vezes diversas sopitara o ímpeto de esmurrá-lo, ao retirar-se humilhado de recintos alegres para não agüentar desacatos; entretanto, agora lhe contemplava o rosto, imbuído de sentimentos
novos. Identificava-se num teste de compreensão e de tolerância.
Num átimo, associou os ensinamentos espíritas-cristãos que lhe metamorfoseavam o íntimo com Marita em decúbito, fixou Nemésio e Márcia, e deduziu que não lhe competia julgar aquele homem que lhe explorava a família. Mecanicamente recordou Jesus e a lição da primeira pedra... Estabeleceu confronto rápido e catalogou-se em nível inferior. Torres entretinha-se com uma jovem que lhe dava liberdade, e filha de outro homem. Ele, porém, não vacilara em abusar da própria filha, depois de encantoála na sombra, através de embuste soez. Com que direito assumiria, ante a própria vítima tombada, o papel de censor?
Indubitavelmente – concluía em reflexões instantâneas –, amigos espirituais traziam-lhe o negociante detestado, experimentando-lhe a renovação. E a ele próprio, também – considerou, humilde – cabia o dever de sopesar as próprias reações, categorizar-se tal qual era, no fundo da consciência.
Naquela prova de segundos, volveu o olhar para a esposa e não mais encontrou em Dona Márcia a inimiga cordial de tantos anos. Aquele semblante embonecado por excessiva maquilagem, na presença das concepções novas que passara a nutrir, mascarava um coração insatisfeito, cujos desastres haviam sido provocados por ele mesmo. Exterminara-lhe os sonhos, logo após o casamento.
Recordou-se de como se enfadara, desapiedado, da esposa, então menina cândida e espontânea, tão-só por vê-la disforme, na gravidez de que Marina sobreviera, e de como transferira, na direção de Aracélia, os instintos de homem selvagem. Desde o choque em que se vira coagida a criar duas filhas, em vez de uma, a personalidade real de Márcia desaparecera. Desequilibrara-se. E ele, ao invés de regenerar-se, recuperando-a, jamais regressara da caça de aventuras. Como exigir contas da mulher, se devia acusarse?
Nada lhe impedia fugir do auto-exame, abraçando conversas triviais; entretanto, inferiu que não conseguiria ausentar-se da própria alma. Mais justo esquadrinhar-se, suportar-se... Percebeu que Nemésio e Márcia, expectantes, lhe estranhavam a atitude e, muito mais para não incomodá-los que por subtrair-se a qualquer crítica, dirigiu o olhar para a filha desfigurada, que somente as energias de Moreira conjugadas com a alimentação artificial retinham no corpo físico, e falou para o genitor de Gilberto, com inflexão de profundo sofrimento:
– Veja o senhor... Nossa filha está muito mal...
Os recém-chegados fitaram, atônitos, aquele cadáver que ainda respirava...
Sentiu-se Dona Márcia esmagada de assombro, mesclado de piedade, mas reprimiu-se.
Torres, por sua vez, apertou os dedos contra as palmas das mãos, num gesto peculiar de nervosismo. A moça descarnada devolvia-lhe a imagem de Beatriz. Recuou, automaticamente, procurando o pai de Marina a fim de exprimir-lhe amizade, mas deparou com Cláudio, de lenço ao rosto, tentando, debalde, sofrear o pranto que lhe escorria do queixo hirsuto.
A senhora Nogueira fez as honras.
Enquanto o automóvel chispava, a senhora Nogueira fitava Nemésio ao volante, apreciando-lhe a sisudez aparente e o porte desempenado. Inquietava-se consigo mesma, de vez que refletia naquilo em que não queria pensar. À vista daquele tipo galhardo, indagava-se por que razão Marina preferira o filho ao pai, se o genitor, cavalheiro dinheiroso e simpático, era, em tudo, a pessoa capaz de assegurar-lhe independência e posição.
De quando em quando, envolvia-lhe o perfil numa olhadela mais comprida e concluía, de si para consigo, que a juventude não tinha lógica.
Mais alguns minutos e penetramos no estabelecimento, onde o par foi recepcionado pelo facultativo com quem Dona Márcia se comunicara, momentos antes.
O médico, gentil, notificou ter avisado Cláudio quanto à possibilidade da surpresa, mas Dona Márcia desconversou, para não dar ao pai de Gilberto a impressão de que se dispusera a vir até ali pela primeira vez. Referiu-se à temperatura, comentou particularidades
do ambiente, qual se repetisse observações corriqueiras. E o clínico, longe de perceber-se a servir de instrumento, respondialhe às perguntas calculadas, atendendo-lhe, involuntariamente, aos fins em pauta.
Foi assim que, ao transpor a entrada do aposento indicado, Nemésio guardava a convicção de acompanhar um símbolo vivo de ternura materna.
Cláudio, abatido, acolheu, a seu turno, os recém-chegados, entre sóbrio e atento. A princípio, o desconforto íntimo... Depois, a conformação. Sofria demais para escolher discutir e aprendera o suficiente, naqueles dias de angústia, para inclinar-se a reclamações.
Aliás, ao facear com Nemésio, endereçou-lhe o olhar do homem atribulado que roga a outro homem comiseração e socorro.
Recebeu-lhe o amplexo franco, depois das apresentações promovidas pela mulher, e imaginou-se na condição de um aluno em exame.
Torres, que ele conhecia tão bem, conquanto a distância, figurou-se-lhe diferente. Sabia-o ostentando-lhe a filha em noitadas vadias e vezes diversas sopitara o ímpeto de esmurrá-lo, ao retirar-se humilhado de recintos alegres para não agüentar desacatos; entretanto, agora lhe contemplava o rosto, imbuído de sentimentos
novos. Identificava-se num teste de compreensão e de tolerância.
Num átimo, associou os ensinamentos espíritas-cristãos que lhe metamorfoseavam o íntimo com Marita em decúbito, fixou Nemésio e Márcia, e deduziu que não lhe competia julgar aquele homem que lhe explorava a família. Mecanicamente recordou Jesus e a lição da primeira pedra... Estabeleceu confronto rápido e catalogou-se em nível inferior. Torres entretinha-se com uma jovem que lhe dava liberdade, e filha de outro homem. Ele, porém, não vacilara em abusar da própria filha, depois de encantoála na sombra, através de embuste soez. Com que direito assumiria, ante a própria vítima tombada, o papel de censor?
Indubitavelmente – concluía em reflexões instantâneas –, amigos espirituais traziam-lhe o negociante detestado, experimentando-lhe a renovação. E a ele próprio, também – considerou, humilde – cabia o dever de sopesar as próprias reações, categorizar-se tal qual era, no fundo da consciência.
Naquela prova de segundos, volveu o olhar para a esposa e não mais encontrou em Dona Márcia a inimiga cordial de tantos anos. Aquele semblante embonecado por excessiva maquilagem, na presença das concepções novas que passara a nutrir, mascarava um coração insatisfeito, cujos desastres haviam sido provocados por ele mesmo. Exterminara-lhe os sonhos, logo após o casamento.
Recordou-se de como se enfadara, desapiedado, da esposa, então menina cândida e espontânea, tão-só por vê-la disforme, na gravidez de que Marina sobreviera, e de como transferira, na direção de Aracélia, os instintos de homem selvagem. Desde o choque em que se vira coagida a criar duas filhas, em vez de uma, a personalidade real de Márcia desaparecera. Desequilibrara-se. E ele, ao invés de regenerar-se, recuperando-a, jamais regressara da caça de aventuras. Como exigir contas da mulher, se devia acusarse?
Nada lhe impedia fugir do auto-exame, abraçando conversas triviais; entretanto, inferiu que não conseguiria ausentar-se da própria alma. Mais justo esquadrinhar-se, suportar-se... Percebeu que Nemésio e Márcia, expectantes, lhe estranhavam a atitude e, muito mais para não incomodá-los que por subtrair-se a qualquer crítica, dirigiu o olhar para a filha desfigurada, que somente as energias de Moreira conjugadas com a alimentação artificial retinham no corpo físico, e falou para o genitor de Gilberto, com inflexão de profundo sofrimento:
– Veja o senhor... Nossa filha está muito mal...
Os recém-chegados fitaram, atônitos, aquele cadáver que ainda respirava...
Sentiu-se Dona Márcia esmagada de assombro, mesclado de piedade, mas reprimiu-se.
Torres, por sua vez, apertou os dedos contra as palmas das mãos, num gesto peculiar de nervosismo. A moça descarnada devolvia-lhe a imagem de Beatriz. Recuou, automaticamente, procurando o pai de Marina a fim de exprimir-lhe amizade, mas deparou com Cláudio, de lenço ao rosto, tentando, debalde, sofrear o pranto que lhe escorria do queixo hirsuto.
A senhora Nogueira fez as honras.
CONTINUA AMANHÃ
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
CONSELHO DO DIA
Este é o conselho que a Imitação de Cristo lhe dá para hoje:
Jesus:
Filho não te deixes quebrantar pelos trabalhos empreendidos por
meu amor, nem desanimes nas tribulações; mas em tudo que te suceder, te
consolem e fortifiquem minhas promessas.
Sou assaz poderoso para te
recompensar além de todo limite e medida.
Não lidarás aqui muito tempo,
nem sempre estarás acabrunhado de dores.
Espera um pouco e verás em
breve o fim de teus males.
Hora virá em que cessará todo trabalho e
inquietação. É de pouco valor e duração o que passa com o tempo. ( Que
todas as coisas graves se devem suportar pela vida eterna )
Certamente estas palavras se referem a alguma necessidade sua.
Mas isso só você saberá entender.
Mas isso só você saberá entender.
MENSAGEM DIÁRIA
Quando adiamos a colheita,
os frutos apodrecem. Mas quando adiamos os problemas, eles não param de crescer.
SEXO E DESTINO - LIVRO DE CHICO XAVIER
CONTINUAÇÃO
matéria de ligações afetivas, receava agora... Quis falar, inventando uma saída brilhante, mas engasgava-se. Os olhos conquistadores, na elegância daquele Brummel amadurecido e circunspecto, perturbavam-na.
Tremeu, desconcertou-se.
Nemésio sorriu, atribuindo-lhe a emoção ao contentamento de mãe que se garante, quanto ao futuro da filha, e observou:
– A senhora não tem razões para afligir-se. Marina é credora de minha melhor consideração. Esteja convicta de que, nestes dois meses de trato diário, ela vem desfrutando a maior liberdade em minha casa. É hoje dona de nossa absoluta intimidade. Estou certo de que a senhora é dama de nossa época, sem clausura e sem preconceitos. Não se agastará, desse modo, ao saber que Marina em meu lar faz o que quer, gasta o que quer, dorme onde quer, sem que ninguém a incomode...
Dona Márcia escutou as alegações com deferência e inferiu que Nemésio lhe estimava a filha desinibida, liberta. Mesmo assim, ficou sem saber onde Torres, pai, diligenciava chegar, em se reportando à independência que Marina usufruía... Não lograva perceber em que situação o cavalheiro a desejava mais livre, se
junto dele ou se junto do filho... Hábil o suficiente para não se arriscar a qualquer apreciação capaz de arruinar-lhe vantagens futuras, recompôs as energias, esboçou um sorriso brejeiro e falou, afável:
– Bem, eu não tenho uma filha namorando, no tempo dos
mártires; no entanto, gostaria que o senhor fosse mais explícito...
E, deixando-a quase a estatelar-se de pasmo, Nemésio copiou a doçura de um menino e confessou-lhe o próprio romance. Amava-lhe a filha, aspirava ao matrimônio. Enlutara-se, mas, em breves semanas, o tributo social desapareceria. Que ela, Dona Márcia, conservasse o segredo perante o marido. Rendera-se-lhe ao entendimento afetuoso e extravasara o coração, solicitando-lhe auxílio.
Ante aqueles olhos dominados de assombro, que ele interpretava por júbilo materno, relacionou parte da fortuna que amontoara.
Enumerou seis dos melhores apartamentos que possuía, alugados em condições excelentes, salientou os negócios da imobiliária, cujos lucros eram satisfatoriamente compensativos, embora manejasse capitais alheios, a juros módicos, para os empreendimentos de maior vulto.
A senhora Nogueira sentia-se perplexa, esmagada. Não sabia em que pensar, se no inusitado da situação, se na sagacidade da filha. Reconhecia-se excedida em astúcia, atirada para trás.
Em fração de segundos, imaginou a posição de Gilberto. Como estaria o rapaz, arrebatado à outra?
Mulher experiente, conquanto, por vezes, chegasse a conclusões tardias quanto ao esposo e à filha, em matéria de inclinação e conduta, não se enganava sobre as ligações que Nemésio intentava esconder na conversação deleitosa. A inflexão apaixonada com que o viúvo esmaltava cada frase, no momento em que as flores no sepulcro da morta não haviam emurchecido, dispensava para ela quaisquer circunlóquios. Aquele homem lhe mencionava a filha, não na expectativa do admirador ingênuo, mas sim com a certeza do amante consolidado.
A que estouvamentos se entregara Marina, no lar dos Torres?
– conjeturava, inquieta. Se empolgara o próprio chefe, enredandolhe o espírito nas teias de lamentável alucinação, que procedimento adotara perante o jovem, alterando-lhe os rumos? Inferindo, porém, que as qualidades de Nemésio, com os cabedais financeiros de que se seguiam, não eram, em seu conceito, um partido para desprezar, ouvia tudo, imobilizando um sorriso complacente no rosto.
Quando se dispunha, no entanto, a mergulhar no assunto, o telefone chamou.
A campainhada valeu-lhe por desafogo. Intervalo providencial que lhe modificava o pensamento, conferindo-lhe tréguas para analisar os episódios em curso.
Era o médico amigo, em aviso confidencial.
Satisfazendo-lhe a solicitação, formulada dias antes, participava-lhe a piora de Marita. Se desejasse vê-la com vida, não atrasasse a visita. Cláudio não compreendia a gravidade do problema e ainda sonhava com o reerguimento da moça; entretanto, nele, cínico amadurecido, já não havia lugar à esperança. Reportou-se à peritonite, ao processo renal, à caquexia, às feridas que haviam surgido das contusões...
Dona Márcia agradeceu e fez-se pálida, a tal ponto, que Nemésio se viu forçado a correr de um lado para outro, a fim de ampará-la. Inteirando-se do que ocorria, ofereceu-se para conduzi-la até o leito da filha. Explicou que usufruiria não somente a satisfação de acompanhá-la, como também aproveitaria o ensejo para cumprimentar a jovem acidentada e levar um abraço pessoal ao pai de Marina, que considerava, antecipadamente, um amigo e familiar.
Assustada, aflita, a senhora Nogueira aceitou e, a breves instantes, os dois se punham de automóvel, a caminho do hospital, com as aparências de um casal elegante e feliz, rolando sobre o asfalto para uma visita de cerimônia.
Tremeu, desconcertou-se.
Nemésio sorriu, atribuindo-lhe a emoção ao contentamento de mãe que se garante, quanto ao futuro da filha, e observou:
– A senhora não tem razões para afligir-se. Marina é credora de minha melhor consideração. Esteja convicta de que, nestes dois meses de trato diário, ela vem desfrutando a maior liberdade em minha casa. É hoje dona de nossa absoluta intimidade. Estou certo de que a senhora é dama de nossa época, sem clausura e sem preconceitos. Não se agastará, desse modo, ao saber que Marina em meu lar faz o que quer, gasta o que quer, dorme onde quer, sem que ninguém a incomode...
Dona Márcia escutou as alegações com deferência e inferiu que Nemésio lhe estimava a filha desinibida, liberta. Mesmo assim, ficou sem saber onde Torres, pai, diligenciava chegar, em se reportando à independência que Marina usufruía... Não lograva perceber em que situação o cavalheiro a desejava mais livre, se
junto dele ou se junto do filho... Hábil o suficiente para não se arriscar a qualquer apreciação capaz de arruinar-lhe vantagens futuras, recompôs as energias, esboçou um sorriso brejeiro e falou, afável:
– Bem, eu não tenho uma filha namorando, no tempo dos
mártires; no entanto, gostaria que o senhor fosse mais explícito...
E, deixando-a quase a estatelar-se de pasmo, Nemésio copiou a doçura de um menino e confessou-lhe o próprio romance. Amava-lhe a filha, aspirava ao matrimônio. Enlutara-se, mas, em breves semanas, o tributo social desapareceria. Que ela, Dona Márcia, conservasse o segredo perante o marido. Rendera-se-lhe ao entendimento afetuoso e extravasara o coração, solicitando-lhe auxílio.
Ante aqueles olhos dominados de assombro, que ele interpretava por júbilo materno, relacionou parte da fortuna que amontoara.
Enumerou seis dos melhores apartamentos que possuía, alugados em condições excelentes, salientou os negócios da imobiliária, cujos lucros eram satisfatoriamente compensativos, embora manejasse capitais alheios, a juros módicos, para os empreendimentos de maior vulto.
A senhora Nogueira sentia-se perplexa, esmagada. Não sabia em que pensar, se no inusitado da situação, se na sagacidade da filha. Reconhecia-se excedida em astúcia, atirada para trás.
Em fração de segundos, imaginou a posição de Gilberto. Como estaria o rapaz, arrebatado à outra?
Mulher experiente, conquanto, por vezes, chegasse a conclusões tardias quanto ao esposo e à filha, em matéria de inclinação e conduta, não se enganava sobre as ligações que Nemésio intentava esconder na conversação deleitosa. A inflexão apaixonada com que o viúvo esmaltava cada frase, no momento em que as flores no sepulcro da morta não haviam emurchecido, dispensava para ela quaisquer circunlóquios. Aquele homem lhe mencionava a filha, não na expectativa do admirador ingênuo, mas sim com a certeza do amante consolidado.
A que estouvamentos se entregara Marina, no lar dos Torres?
– conjeturava, inquieta. Se empolgara o próprio chefe, enredandolhe o espírito nas teias de lamentável alucinação, que procedimento adotara perante o jovem, alterando-lhe os rumos? Inferindo, porém, que as qualidades de Nemésio, com os cabedais financeiros de que se seguiam, não eram, em seu conceito, um partido para desprezar, ouvia tudo, imobilizando um sorriso complacente no rosto.
Quando se dispunha, no entanto, a mergulhar no assunto, o telefone chamou.
A campainhada valeu-lhe por desafogo. Intervalo providencial que lhe modificava o pensamento, conferindo-lhe tréguas para analisar os episódios em curso.
Era o médico amigo, em aviso confidencial.
Satisfazendo-lhe a solicitação, formulada dias antes, participava-lhe a piora de Marita. Se desejasse vê-la com vida, não atrasasse a visita. Cláudio não compreendia a gravidade do problema e ainda sonhava com o reerguimento da moça; entretanto, nele, cínico amadurecido, já não havia lugar à esperança. Reportou-se à peritonite, ao processo renal, à caquexia, às feridas que haviam surgido das contusões...
Dona Márcia agradeceu e fez-se pálida, a tal ponto, que Nemésio se viu forçado a correr de um lado para outro, a fim de ampará-la. Inteirando-se do que ocorria, ofereceu-se para conduzi-la até o leito da filha. Explicou que usufruiria não somente a satisfação de acompanhá-la, como também aproveitaria o ensejo para cumprimentar a jovem acidentada e levar um abraço pessoal ao pai de Marina, que considerava, antecipadamente, um amigo e familiar.
Assustada, aflita, a senhora Nogueira aceitou e, a breves instantes, os dois se punham de automóvel, a caminho do hospital, com as aparências de um casal elegante e feliz, rolando sobre o asfalto para uma visita de cerimônia.
CONTINUA AMANHÃ
terça-feira, 27 de novembro de 2012
CONSELHO DO DIA
Este é o conselho que a Imitação de Cristo lhe dá para hoje:
Assim como não te bastariam todas as coisas sem mim, assim me não pode
agradar o que sem ti me ofereces.
Oferece-te a mim, dá-te todo a Deus, e
será aceita a tua oblação.
Olha como me ofereci todo ao Pai por ti, e
dei-te todo o meu corpo e sangue em alimento, para ser todo teu e para
que tu te tornasses meu.
Se, porém, te apegares a ti mesmo, e não te
ofereceres espontaneamente à minha vontade, não será completa tua
oblação, nem perfeita a união entre nós.
Portanto, a todas as tuas obras
deve preceder o voluntário oferecimento de ti mesmo nas mãos de Deus,
se desejas alcançar a liberdade e a graça.
O motivo de haver tão poucos
interiormente esclarecidos e livres é que muitos não sabem abnegar-se de
todo a si mesmos.
É imutável minha sentença: Quem não renunciar a tudo
não poderá ser meu discípulo (Lc 14,33). Se desejas, pois, ser meu
discípulo oferece-te a mim com todos os teus afetos. ( Da oblação de
Cristo na cruz e da própria resignação)
Certamente estas palavras se referem a alguma necessidade sua.
Mas isso só você saberá entender.
Mas isso só você saberá entender.
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