CAPÍTULO 6
Valendo-nos da condução, seguíamos igualmente para o hospital, em objetivo de serviço.
Enquanto o automóvel chispava, a senhora Nogueira fitava Nemésio ao volante, apreciando-lhe a sisudez aparente e o porte desempenado. Inquietava-se consigo mesma, de vez que refletia naquilo em que não queria pensar. À vista daquele tipo galhardo, indagava-se por que razão Marina preferira o filho ao pai, se o genitor, cavalheiro dinheiroso e simpático, era, em tudo, a pessoa capaz de assegurar-lhe independência e posição.
De quando em quando, envolvia-lhe o perfil numa olhadela mais comprida e concluía, de si para consigo, que a juventude não tinha lógica.
Mais alguns minutos e penetramos no estabelecimento, onde o par foi recepcionado pelo facultativo com quem Dona Márcia se comunicara, momentos antes.
O médico, gentil, notificou ter avisado Cláudio quanto à possibilidade da surpresa, mas Dona Márcia desconversou, para não dar ao pai de Gilberto a impressão de que se dispusera a vir até ali pela primeira vez. Referiu-se à temperatura, comentou particularidades
do ambiente, qual se repetisse observações corriqueiras. E o clínico, longe de perceber-se a servir de instrumento, respondialhe às perguntas calculadas, atendendo-lhe, involuntariamente, aos fins em pauta.
Foi assim que, ao transpor a entrada do aposento indicado, Nemésio guardava a convicção de acompanhar um símbolo vivo de ternura materna.
Cláudio, abatido, acolheu, a seu turno, os recém-chegados, entre sóbrio e atento. A princípio, o desconforto íntimo... Depois, a conformação. Sofria demais para escolher discutir e aprendera o suficiente, naqueles dias de angústia, para inclinar-se a reclamações.
Aliás, ao facear com Nemésio, endereçou-lhe o olhar do homem atribulado que roga a outro homem comiseração e socorro.
Recebeu-lhe o amplexo franco, depois das apresentações promovidas pela mulher, e imaginou-se na condição de um aluno em exame.
Torres, que ele conhecia tão bem, conquanto a distância, figurou-se-lhe diferente. Sabia-o ostentando-lhe a filha em noitadas vadias e vezes diversas sopitara o ímpeto de esmurrá-lo, ao retirar-se humilhado de recintos alegres para não agüentar desacatos; entretanto, agora lhe contemplava o rosto, imbuído de sentimentos
novos. Identificava-se num teste de compreensão e de tolerância.
Num átimo, associou os ensinamentos espíritas-cristãos que lhe metamorfoseavam o íntimo com Marita em decúbito, fixou Nemésio e Márcia, e deduziu que não lhe competia julgar aquele homem que lhe explorava a família. Mecanicamente recordou Jesus e a lição da primeira pedra... Estabeleceu confronto rápido e catalogou-se em nível inferior. Torres entretinha-se com uma jovem que lhe dava liberdade, e filha de outro homem. Ele, porém, não vacilara em abusar da própria filha, depois de encantoála na sombra, através de embuste soez. Com que direito assumiria, ante a própria vítima tombada, o papel de censor?
Indubitavelmente – concluía em reflexões instantâneas –, amigos espirituais traziam-lhe o negociante detestado, experimentando-lhe a renovação. E a ele próprio, também – considerou, humilde – cabia o dever de sopesar as próprias reações, categorizar-se tal qual era, no fundo da consciência.
Naquela prova de segundos, volveu o olhar para a esposa e não mais encontrou em Dona Márcia a inimiga cordial de tantos anos. Aquele semblante embonecado por excessiva maquilagem, na presença das concepções novas que passara a nutrir, mascarava um coração insatisfeito, cujos desastres haviam sido provocados por ele mesmo. Exterminara-lhe os sonhos, logo após o casamento.
Recordou-se de como se enfadara, desapiedado, da esposa, então menina cândida e espontânea, tão-só por vê-la disforme, na gravidez de que Marina sobreviera, e de como transferira, na direção de Aracélia, os instintos de homem selvagem. Desde o choque em que se vira coagida a criar duas filhas, em vez de uma, a personalidade real de Márcia desaparecera. Desequilibrara-se. E ele, ao invés de regenerar-se, recuperando-a, jamais regressara da caça de aventuras. Como exigir contas da mulher, se devia acusarse?
Nada lhe impedia fugir do auto-exame, abraçando conversas triviais; entretanto, inferiu que não conseguiria ausentar-se da própria alma. Mais justo esquadrinhar-se, suportar-se... Percebeu que Nemésio e Márcia, expectantes, lhe estranhavam a atitude e, muito mais para não incomodá-los que por subtrair-se a qualquer crítica, dirigiu o olhar para a filha desfigurada, que somente as energias de Moreira conjugadas com a alimentação artificial retinham no corpo físico, e falou para o genitor de Gilberto, com inflexão de profundo sofrimento:
– Veja o senhor... Nossa filha está muito mal...
Os recém-chegados fitaram, atônitos, aquele cadáver que ainda respirava...
Sentiu-se Dona Márcia esmagada de assombro, mesclado de piedade, mas reprimiu-se.
Torres, por sua vez, apertou os dedos contra as palmas das mãos, num gesto peculiar de nervosismo. A moça descarnada devolvia-lhe a imagem de Beatriz. Recuou, automaticamente, procurando o pai de Marina a fim de exprimir-lhe amizade, mas deparou com Cláudio, de lenço ao rosto, tentando, debalde, sofrear o pranto que lhe escorria do queixo hirsuto.
A senhora Nogueira fez as honras.
Enquanto o automóvel chispava, a senhora Nogueira fitava Nemésio ao volante, apreciando-lhe a sisudez aparente e o porte desempenado. Inquietava-se consigo mesma, de vez que refletia naquilo em que não queria pensar. À vista daquele tipo galhardo, indagava-se por que razão Marina preferira o filho ao pai, se o genitor, cavalheiro dinheiroso e simpático, era, em tudo, a pessoa capaz de assegurar-lhe independência e posição.
De quando em quando, envolvia-lhe o perfil numa olhadela mais comprida e concluía, de si para consigo, que a juventude não tinha lógica.
Mais alguns minutos e penetramos no estabelecimento, onde o par foi recepcionado pelo facultativo com quem Dona Márcia se comunicara, momentos antes.
O médico, gentil, notificou ter avisado Cláudio quanto à possibilidade da surpresa, mas Dona Márcia desconversou, para não dar ao pai de Gilberto a impressão de que se dispusera a vir até ali pela primeira vez. Referiu-se à temperatura, comentou particularidades
do ambiente, qual se repetisse observações corriqueiras. E o clínico, longe de perceber-se a servir de instrumento, respondialhe às perguntas calculadas, atendendo-lhe, involuntariamente, aos fins em pauta.
Foi assim que, ao transpor a entrada do aposento indicado, Nemésio guardava a convicção de acompanhar um símbolo vivo de ternura materna.
Cláudio, abatido, acolheu, a seu turno, os recém-chegados, entre sóbrio e atento. A princípio, o desconforto íntimo... Depois, a conformação. Sofria demais para escolher discutir e aprendera o suficiente, naqueles dias de angústia, para inclinar-se a reclamações.
Aliás, ao facear com Nemésio, endereçou-lhe o olhar do homem atribulado que roga a outro homem comiseração e socorro.
Recebeu-lhe o amplexo franco, depois das apresentações promovidas pela mulher, e imaginou-se na condição de um aluno em exame.
Torres, que ele conhecia tão bem, conquanto a distância, figurou-se-lhe diferente. Sabia-o ostentando-lhe a filha em noitadas vadias e vezes diversas sopitara o ímpeto de esmurrá-lo, ao retirar-se humilhado de recintos alegres para não agüentar desacatos; entretanto, agora lhe contemplava o rosto, imbuído de sentimentos
novos. Identificava-se num teste de compreensão e de tolerância.
Num átimo, associou os ensinamentos espíritas-cristãos que lhe metamorfoseavam o íntimo com Marita em decúbito, fixou Nemésio e Márcia, e deduziu que não lhe competia julgar aquele homem que lhe explorava a família. Mecanicamente recordou Jesus e a lição da primeira pedra... Estabeleceu confronto rápido e catalogou-se em nível inferior. Torres entretinha-se com uma jovem que lhe dava liberdade, e filha de outro homem. Ele, porém, não vacilara em abusar da própria filha, depois de encantoála na sombra, através de embuste soez. Com que direito assumiria, ante a própria vítima tombada, o papel de censor?
Indubitavelmente – concluía em reflexões instantâneas –, amigos espirituais traziam-lhe o negociante detestado, experimentando-lhe a renovação. E a ele próprio, também – considerou, humilde – cabia o dever de sopesar as próprias reações, categorizar-se tal qual era, no fundo da consciência.
Naquela prova de segundos, volveu o olhar para a esposa e não mais encontrou em Dona Márcia a inimiga cordial de tantos anos. Aquele semblante embonecado por excessiva maquilagem, na presença das concepções novas que passara a nutrir, mascarava um coração insatisfeito, cujos desastres haviam sido provocados por ele mesmo. Exterminara-lhe os sonhos, logo após o casamento.
Recordou-se de como se enfadara, desapiedado, da esposa, então menina cândida e espontânea, tão-só por vê-la disforme, na gravidez de que Marina sobreviera, e de como transferira, na direção de Aracélia, os instintos de homem selvagem. Desde o choque em que se vira coagida a criar duas filhas, em vez de uma, a personalidade real de Márcia desaparecera. Desequilibrara-se. E ele, ao invés de regenerar-se, recuperando-a, jamais regressara da caça de aventuras. Como exigir contas da mulher, se devia acusarse?
Nada lhe impedia fugir do auto-exame, abraçando conversas triviais; entretanto, inferiu que não conseguiria ausentar-se da própria alma. Mais justo esquadrinhar-se, suportar-se... Percebeu que Nemésio e Márcia, expectantes, lhe estranhavam a atitude e, muito mais para não incomodá-los que por subtrair-se a qualquer crítica, dirigiu o olhar para a filha desfigurada, que somente as energias de Moreira conjugadas com a alimentação artificial retinham no corpo físico, e falou para o genitor de Gilberto, com inflexão de profundo sofrimento:
– Veja o senhor... Nossa filha está muito mal...
Os recém-chegados fitaram, atônitos, aquele cadáver que ainda respirava...
Sentiu-se Dona Márcia esmagada de assombro, mesclado de piedade, mas reprimiu-se.
Torres, por sua vez, apertou os dedos contra as palmas das mãos, num gesto peculiar de nervosismo. A moça descarnada devolvia-lhe a imagem de Beatriz. Recuou, automaticamente, procurando o pai de Marina a fim de exprimir-lhe amizade, mas deparou com Cláudio, de lenço ao rosto, tentando, debalde, sofrear o pranto que lhe escorria do queixo hirsuto.
A senhora Nogueira fez as honras.
CONTINUA AMANHÃ
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