138
Pretensões
“Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento.”
– Paulo. - (1ª Epístola aos Coríntios, 3:6.)
A igreja de Corinto estava cheia de alegações dos discípulos
inquietos.
Certos componentes da instituição imprimiam maior valor aos
esforços de Paulo, enquanto outros conferiam privilégios de edificação a Apolo.
O advogado dos gentios foi divinamente inspirado, comentando
o assunto em sua carta.
Por que pretensões individuais numa obra da qual somos todos
beneficiários do mesmo Senhor?
Na atualidade, é louvável o exame da recomendação de Paulo
aos Coríntios, porquanto já não são os usufrutuários da organização cristã que
se rejubilam pela recepção das bênçãos do Evangelho através desse ou daquele
dos trabalhadores do Cristo, mas os operários da causa que, por vezes, chegam
ao campo de serviço exibindo-se por vultos destacados dessa ou daquela obra do
bem.
A certeza de que “toda boa dádiva vem de Deus” constitui
excelente exercício para os trabalhos comuns.
É interessante observar como está sempre disposto o homem a
se apropriar de circunstâncias que o elevem no alheio conceito com facilidade.
Sempre inclinado a destacar-se nos círculos do bem que ainda lhe não pertence
de modo substancial, raramente assume a paternidade dos erros que comete. Essa
é uma das singulares contradições da criatura.
Não te esqueças. O serviço é de todos. Uns plantam, outros
adubam. Vive contente no setor de trabalho confiado às tuas mãos ou à tua
inteligência e serve sem pretensões, porque o homem prepara a terra e organiza
a semeadura, por misericórdia da Providência, mas é Deus quem põe as flores nas
frondes e concede os frutos, segundo o merecimento.
139
Por amor
“Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, a fim
de que não vejam com os olhos e compreendam no coração e se convertam e eu os
cure.” – (João, 12:40.)
Os planos mais humildes da Natureza revelam a Providência
Divina, em soberana expressão de desvelo e amor.
Os lírios não tecem, as aves não guardam provisões e misteriosa
força fornece-lhes o necessário.
A observação sobre a vida dos animais demonstra os extremos
de ternura com que o Pai vela pela Criação desde o princípio: aqui, uma asa;
acolá, um dente a mais; ali, desconhecido poder de defesa.
Afirma-se a grande revelação de amor em tudo.
No entanto, quando o Pai convoca os filhos à cooperação nas
suas obras, eis que muita vez se salientam os ingratos, que convertem os
favores recebidos, não em deveres nobres e construtivos, mas em novas exigências;
então, faz-se preciso que o coração se lhes endureça cada vez mais, porque,
fora do equilíbrio, encontrarão o sofrimento na restauração indispensável das
leis externas desse mesmo amor divino. Quando nada enxergam além dos aspectos
materiais da paisagem transitória, sobrevém, inopinadamente, a luta depuradora.
É quando Jesus chega e opera a cura.
Só então torna o ingrato à compreensão da Magnanimidade
Divina.
O amor equilibra, a dor restaura. É por isso que ouvimos muitas
vezes: “Nunca teria acreditado em Deus se não houvesse sofrido.”
140
Para os montes
“Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os
montes.” - Jesus. (Mateus, 24:16.)
Referindo-se aos instantes dolorosos que assinalariam a
renovação planetária, aconselhou o Mestre aos que estivessem na Judéia procurar
os montes. A advertência é profunda, porque, pelo termo “Judéia”, devemos tomar
a “região espiritual” de quantos, pelas aspirações íntimas, se aproximem do
Mestre para a suprema iluminação.
E a atualidade da Terra é dos mais fortes quadros nesse
gênero. Em todos os recantos, estabelecem-se lutas e ruínas. Venenos mortíferos
são inoculados pela política inconsciente nas massas populares. A baixada está
repleta de nevoeiros tremendos. Os lugares santos permanecem cheios de trevas
abomináveis. Alguns homens caminham ao sinistro clarão de incêndios. Aduba-se o
chão com sangue e lágrimas, para a semeadura do porvir.
É chegado o instante de se retirarem os que permanecem na
Judéia para os “montes” das idéias superiores. É indispensável manter-se o
discípulo do bem nas alturas espirituais, sem abandonar a cooperação elevada
que o Senhor exemplificou na Terra; que aí consolide a sua posição de
colaborador fiel, invencível na paz e na esperança, convicto de que, após a
passagem dos homens da perturbação, portadores de destroços e lágrimas, são os
filhos do trabalho que semeiam a alegria, de novo, e reconstroem o edifício da
vida.
CONTINÚA AMANHÃ
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