CONTINUAÇÃO
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Ensejo ao bem
“Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste? – Então,
aproximando-se, lançaram mão de Jesus e o prenderam.” – (Mateus, 26:50.)
É significativo observar o otimismo do Mestre, prodigalizando
oportunidades ao bem, até ao fim de sua gloriosa missão de verdade e amor,
junto dos homens.
Cientificara-se o Cristo, com respeito ao desvio de Judas,
comentara amorosamente o assunto, na derradeira reunião mais íntima com os
discípulos, não guardava qualquer dúvida relativamente aos suplícios que o
esperavam; no entanto, em se aproximando, o cooperador transviado beija-o na
face, identificando-o perante os verdugos, e o Mestre, com sublime serenidade,
recebe-lhe a saudação carinhosamente e indaga: Amigo, a que vieste?
Seu coração misericordioso proporcionava ao discípulo
inquieto o ensejo ao bem, até ao derradeiro instante.
Embora notasse Judas em companhia dos guardas que lhe
efetuariam a prisão, dá-lhe o título de amigo. Não lhe retira a confiança do
minuto primeiro, não o maldiz, não se entrega a queixas inúteis, não o
recomenda à posteridade com acusações ou conceitos menos dignos.
Nesse gesto de inolvidável beleza espiritual, ensinou-nos Jesus
que é preciso oferecer portas ao bem, até à última hora das experiências
terrestres, ainda que, ao término da derradeira oportunidade, nada mais reste
além do caminho para o martírio ou para a cruz dos supremos testemunhos.
91
Campo de sangue
“Por isso foi chamado aquele campo, até ao dia de hoje,
Campo de Sangue.” – (Mateus, 27:8.)
Desorientado, em vista das terríveis conseqüências de sua
irreflexão, Judas procurou os sacerdotes e restituiu-lhes as trinta moedas,
atirando-as, a esmo, no recinto do Templo.
Os mentores do Judaísmo concluíram, então, que o dinheiro
constituía preço de sangue e, buscando desfazer-se rapidamente de sua posse,
adquiriram um campo destinado ao sepulcro dos estrangeiros, denominado, desde
então, Campo de Sangue.
Profunda a expressão simbólica dessa recordação e, com a sua
luz, cabe-nos reconhecer que a maioria dos homens continua a irrefletida ação
de Judas, permutando o Mestre, inconscientemente, por esperanças injustas, por
vantagens materiais, por privilégios passageiros. Quando podem examinar a
extensão dos enganos a que se acolheram, procuram, desesperados, os comparsas
de suas ilusões, tentando devolver-lhes quanto lhes coube nos criminosos
movimentos em que se comprometeram na luta humana; todavia, com esses frutos
amargos apenas conseguem adquirir o campo de sangue das expiações dolorosas e
ásperas, para sepulcro dos cadáveres de seus pesadelos delituosos, estranhos ao
ideal divino da perfeição em Jesus-Cristo.
Irmão em humanidade, que ainda não pudeste sair do campo
milenário das reencarnações, em luta por enterrar os pretéritos crimes que não
se coadunam com a Lei Eterna, não troques o Cristo Imperecível por um punhado
de cinzas misérrimas, porque, do contrário, continuarás circunscrito à região
escura da carne sangrenta.
92
Madalena
“Disse-lhe Jesus: Maria! – Ela, voltando-se, disse-lhe:
Mestre!” - (João, 20:16.)
Dos fatos mais significativos do Evangelho, a primeira visita
de Jesus, na ressurreição, é daqueles que convidam à meditação substanciosa e
acurada.
Por que razões profundas deixaria o Divino Mestre tantas figuras
mais próximas de sua vida para surgir aos olhos de Madalena, em primeiro lugar?
Somos naturalmente compelidos a indagar por que não teria
aparecido, antes, ao coração abnegado e amoroso que lhe servira de Mãe ou aos
discípulos amados...
Entretanto, o gesto de Jesus é profundamente simbólico em sua
essência divina.
Dentre os vultos da Boa Nova, ninguém fez tanta violência a
si mesmo, para seguir o Salvador, como a inesquecível obsidiada de Magdala. Nem
mesmo “morta” nas sensações que operam a paralisia da alma; entretanto, bastou
o encontro com o Cristo para abandonar tudo e seguir-lhe os passos, fiel até ao
fim, nos atos de negação de si própria e na firme resolução de tomar a cruz que
lhe competia no calvário redentor de sua existência angustiosa.
É compreensível que muitos estudantes investiguem a razão
pela qual não apareceu o Mestre, primeiramente, a Pedro ou a João, à sua Mãe ou
aos amigos. Todavia, é igualmente razoável reconhecermos que, com o seu gesto
inesquecível, Jesus ratificou a lição de que a sua doutrina será, para todos os
aprendizes e seguidores, o código de ouro das vidas transformadas para a glória
do bem. E ninguém, como Maria de Magdala, houvera transformado a sua, à luz do
Evangelho redentor.
CONTINÚA AMANHÃ
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