terça-feira, 9 de outubro de 2012

SEXO E DESTINO - LIVRO DE CHICO XAVIER

CONTINUÇÃO

braços, por flor tenra desabotoada num tronco juvenil, transmitindo-lhe a impressão de pai legítimo.
Oh! a felicidade fugidia da infância!... 
As doces convicçõesdos dias primeiros!
Como suspirava pelo retrocesso do tempo para dormir na simplicidade!
Súbito, confrangeu-se-lhe a alma, como se implacável bisturi lhe retalhasse os nervos.
Vimo-la cair numa explosão de lágrimas.
Coloriu-se-lhe na mente a festa distante que lhe havia comemorado o término do primeiro curso escolar, nove anos antes.
Detinhase no instituto garrido, nos adeuses aos colegas, nas palavras de saudação e reconhecimento que proferira, feliz, diante dos mestres, e nos beijos que recebera sobre os cabelos a se lhe derramarem nos ombros. Depois... em casa, o olhar diferente de Dona Márcia, no aposento à porta fechada.
Iniciara-se-lhe, desde então, o conflito da vida inteira.
A revelação inesperada ferira-lhe o espírito, à maneira de pedra contundente.
Esvaecera-se-lhe, de improviso, a alegria infantil.
Sentirase criatura humana adulta, amadurecida e sofredora, de um momento para outro. Não era filha da casa.
Era órfã, adotada pelos corações queridos, aos quais amava tanto, julgando pertencerlhes.
Isso lhe arrebentara o coração.
Pela primeira vez, chorara com medo de enlaçar-se àquela a cujo peito se albergava, até ali, nas horas difíceis, como se se aninhasse no refúgio maternal.
Sentia-se machucada, sozinha.
Dona Márcia, diligenciando esclarecer com evidente bondade, explicava, explicava. Ela, até então menina estouvada e risonha, repentinamente torturada, ouvia, ouvia. Ansiava perguntar o porquê de tudo aquilo, mas a voz calara-se-lhe na garganta. Era preciso aceitar a verdade, conformar-se, sofrer. Esforçara-se a mãe adotiva por diluir a amargura da notificação no bálsamo do carinho, mas não se esquecera de lhe dizer em tom conselheiral: “você deve crescer sabendo tudo,
melhor saber hoje que amanhã; filhos adotivos, quando crescem ignorando a verdade, costumam trazer enormes complicações, principalmente quando ouvem esclarecimentos de outras pessoas”, e acrescentara, diante do silêncio em que ela afogava as
próprias lágrimas: “não chore, estou apenas explicando; você sabe que criamos você por filha, mas é necessário que conheça a realidade toda; adotamos você, lembrando Aracélia, tão amiga, tão boa.”
E os informes foram imediatamente complementados com a exibição de fotografias e relíquias da genitora suicida, arrancadas de pequena caixa de madeira que Dona Márcia trouxera.
Espantada, revirara nervosamente nas mãos aqueles retratos e adereços de moça pobre. Sensibilizara-se ao ver os colares de fantasia, os anéis de plaquê.
Era tudo quanto restava daquela mãe que desconhecia.
Contemplou a imagem dela nas fotos que o tempo amarelecera e experimentou profunda e indizível atração por aqueles olhos grandes e tristes que pareciam arrebatá-la do
quarto para um mundo diferente.
Não amadurecera, porém, o raciocínio para pensar nas angústias daquela mulher que o sofrimento abatera.
A reflexão, em torno da mãezinha desencarnada, durara um momento só.
Achavase melindrada em demasia para deslocar-se facilmente da sua dor.
Ouvira Dona Márcia, ao despedir-se, arrecadando aqueles ternos vestígios do passado, sem prestar-lhe maior atenção.
Aquelas palavras: “adotamos você, lembrando Aracélia tão amiga, tão
boa”, percutiam-lhe na cabeça.
Então, era assim que a despachavam para a estação da orfandade em que lhe competia viver? E os beijos do lar que admitia lhe pertencerem? E os mimos domésticos que julgava partilhar com Marina em partes e direitos iguais?
Figurara-se-lhe Dona Márcia decididamente empenhada em falar-lhe sem a menor manifestação do efusivo amor que lhe caracterizava os gestos de outras horas. Demonstrara-lhe carinho,sem dúvida, mas racionava os afagos, qual se quisesse traçar, dali em diante, severa fronteira entre ela e a família.
Imaginava-se, por isso, esbulhada, ferida. Fora simplesmente albergada, tolerada,
enganada.
Não era filha, era órfã.
A inteligência precoce compreendia toda a situação, conquanto não conseguisse inclinar-se, naquele dia, a qualquer agradecimento pela compaixão de que se reconhecia objeto, assaltada qual se achava pelo orgulho infantil.
Em seguida a pausa rápida no curso das comovedoras reminiscências, Marita desdobrou-nos à vista uma cena enternecedora e inesquecível.
De minha parte, nunca registrara uma dor de criança, assim,
tão funda.
Ah! sim, aquele fato nunca mais se lhe desvinculara da memória.
Quando a esposa de Cláudio a deixou em pranto desconsolado, viu a cadelinha da casa, magra e anônima, que Marina, semanas antes, recolhera na rua.
O animalzinho abeirara-se dela, como se lhe aderisse à mágoa, lambendo-lhe as mãos. Ela, por sua vez, retribuíra-lhe a carícia, qual se lhe transferisse toda a carga
de amor que acreditava lhe fora restituída naquele instante, por Dona Márcia, e, chorando, abraçou-se à cachorrinha afetuosa, gritando num desabafo: “ah! Jóia, não é só você que foi enjeitada! eu também...”
Desde esse dia, transfigurara-se-lhe a vida.
Perdera, de todo, a espontaneidade.
A partir da revelação que não mais se lhe desencravou do cérebro, conjeturava-se diminuída, lesada, dependente.
Semelhante suplício moral, que adquirira aos onze de idade, atenuava-se tão-somente pela dedicação incessante do pai adotivo que se lhe confirmava mais terno, à medida que Dona Márcia e a filha se lhe afastavam da comunhão espiritual.

CONTINUA AMANHÃ

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