terça-feira, 30 de outubro de 2012

SEXO E DESTINO - LIVRO DE CHICO XAVIER

CONTINUAÇÃO

Tudo calmo, os vampirizadores ausentes. Limpeza e ordem.
Em dado instante, a figura de Marita invadiu-me o cérebro.
Afeiçoara-me à pobre menina. Era uma filha espiritual que me tocava resguardar solicitamente.
Desassossegado, precipitei-me para a rua e, a breve trecho, vi-a na loja colorida e simpática, ensaiando sorrisos para as freguesas bem-postas.
Abracei-a, paternalmente, expressando-lhe em silêncio votos de paz e otimismo. Ela respondeu, de modo instintivo, acalentando vagas idéias de reequilíbrio e esperança.
Registrava-se-lhe a melhora inequívoca.
O amparo magnético assimilado funcionara, eficiente. Ignorando por que motivo, acusava-se tranqüila, mais forte. Repousara, reconstituíra-se. Retomara o gosto pelo trabalho, palestrava animadamente, selecionando algodões estampados.
Nossa presença passou a despertar-lhe reflexões. Não obstante opinasse nisso ou naquilo, entre as clientes amigas, começou a pensar, pensar...
Depois de alguns minutos, pressionada pelas lembranças, caminhou para o telefone e chamou Dona Márcia, perguntando se ela viria, na parte da tarde, a Copacabana, e, informada afirmativamente, rogou à mãezinha adotiva a procurasse, se possível, às quatro. Lanchariam juntas, tinha algo a dizer-lhe.
Concluí que significaria abuso incomodá-la no trabalho, em que se obrigava a retalhar atenções, através dos pensamentos descontínuos, e aguardamos a ocasião adequada, a fim de inteirarnos acerca de atividades ou problemas em que nos fosse possível desenvolver algum préstimo.
No horário previsto, acompanhamos mãe e filha até pequenino recanto de hospitaleira sorveteria, considerando a gravidade da tarefa de que fôramos investidos.
Postadas ambas em clima de segredo, Marita desafogou-se com dificuldade, começando a falar, discreta e humilde.
Que Dona Márcia lhe perdoasse os aborrecimentos daquela hora; entretanto, não tinha culpa. Não desconhecia a extensão da mágoa que lhe cortaria a alma, daria tudo para não feri-la, mas sentiria remorsos se não lhe contasse o sucedido. Hesitara muito, antes de resolver situá-la no assunto, adiantou, acanhada. Sentiase, porém, sua filha pelo coração, devia confiar-lhe tudo.
E, na ingenuidade de moça inexperiente, relatou a confissão que Cláudio lhe fizera, a descrever-lhe os modos, lance por lance.
Espantara-se, sofrera muitíssimo. Jamais esperava por semelhante ocorrência. Tivesse parentes e não vacilaria mudar-se para evitar escândalos. Era, contudo, dependente, sozinha. A única família que possuía eram eles mesmos, os Nogueiras, cujo nome usava, orgulhosa, desde a infância. Andava desorientada, receosa. Pedia conselhos.
A interlocutora, todavia, escutara sorrindo, nem mesmo interrompendo, de leve, a deglutição da taça de creme, que saboreava, com requintes de paladar.
Tamanha impassibilidade esfriou a disposição da jovem, que passou a resumir, quanto pôde, as confidências e alegações que se inclinava a expender; e, com indizível surpresa, não somente para Marita que lhe aguardava, ansiosa, a palavra, mas igualmente para nós, que não contávamos com o ardiloso expediente de Cláudio, defendendo-se previamente, Dona Márcia patenteou, no semblante sereno, absoluta incredulidade e participou que o marido, na véspera, a convidara para conversação, à parte, comunicando-lhe certas apreensões. Dissera-lhe que, à noite, no entendimento mantido, não tivera coragem de mencionar o assombro que o perseguia, porquanto julgara prudente refletir sobre o acontecimento que tanto o penalizava, antes de avançar em qualquer conclusão.
Entretanto, após meditar, aturadamente, deduzira que ela, Marita, necessitava da proteção de um psiquiatra. Dona Márcia perfilhou um tom de voz em que se conjugavam inquietação e advertência, e continuou informando, informando...
Dissera-lhe Cláudio haver experimentado imenso alívio, ao vê-la penetrando no quarto, na noite da antevéspera, porquanto, momentos antes, ao despertar a filha adotiva sonambulizada, fora assaltado por ela com muitos beijos, que lhe ouvira frases inconvenientes, que se forçara à reação, pelo que a esposa percebera as vozes com as quais tanto se assustara. Anunciara-lhe ter refletido suficientemente e acabara aceitando a hipótese de um desequilíbrio.
Rogara-lhe concurso para que um psiquiatra interferisse no problema. Assumiria ele a responsabilidade das despesas e, preocupado qual se achava, faria mais ainda... Envidaria esforços para que uma excursão à Argentina lhe restaurasse as energias, evidentemente alteradas.
Diante da estupefação que nos dominava, a senhora Nogueira tomou posição conselheiral.
Recomendou à menina procurasse esquecer, distrair-se. Explicou que não viera ao encontro, no intuito de abordar o caso.
Ante as alegações da filha, entretanto, não encontrava outra saída, além daquela em que lhe abria o coração. Esposa e mãe, defenderiaa paz de todos. Não concordava em que se tomasse partido.
Cláudio, efetivamente, contraíra contas com ela, Dona Márcia, nas ingratidões de marido. Isso sim. Mas, no tocante às filhas, sempre tivera a conduta de pai exemplar. Nada justo incriminá-lo.
Tudo não passava de imaginação enfermiça dela própria, Marita.
Fase de moça namoradeira.

CONTINUA AMANHÃ

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