terça-feira, 2 de outubro de 2012

SEXO E DESTINO - LIVRO DE CHICO XAVIER

CONTINUAÇÃO

– Calma, Neves. Sempre surge para todos nós o dia de provar aquilo que somos naquilo que ensinamos. Além disso, Nemésio deve ser entendido...
– Entendido? – entaramelou-se o interlocutor – não chegará ter visto?
E acrescentou, quase irônico: – Sabe o senhor qual é o rapaz que vem ocupando o pensamento
dessa moça?
– Sei, mas deixa-me explicar – clareou Félix com brandura. – Principiemos por aceitar Nemésio na posição em que se encontra.
Como exigir da criança experiência da madureza ou pedir raciocínio certo ao alienado mental? 
Sabemos que crescimento do corpo não expressa altura de espírito. 
Nemésio é aluno da vida, qual nós mesmos, sem o benefício da lição em que estamos sendo instruídos.
Que seria de nós, na situação dele, sem a visão que atualmente nos favorece? 
Provavelmente, cairíamos em condições piores...
– Quer dizer que devo aprová-lo?
– Ninguém aplaude a enfermidade, nem louva o desequilíbrio; no entanto, seria crueldade recusar simpatia e medicação ao doente. 
Consideremos que Nemésio não é um companheiro desprezível.
Emaranhou-se em sugestões perigosas, mas não fugiu da esposa a quem presta assistência; mostra-se engodado por extravagâncias emotivas de caráter deprimente que lhe dilapidam as forças; contudo, não esqueceu a solidariedade, resolvendo oferecer casa própria e gratuita à senhora que lhe presta serviços remunerados; acredita-se dono de juvenilidade física absolutamente irrisória, quando, na realidade, carrega um corpo em prematuro desgaste; dedica-se apaixonadamente a uma jovem que o menoscaba, conquanto lhe consagre apreço respeitoso... 
Não bastariam estas razões para merecer benevolência e carinho? 
Quem de nós com a possibilidade de auxiliar? Ele que anda cego ou nós que discernimos? Não posso enaltecer-lhe as manobras lamentáveis, na esfera do sentimento; entretanto, sou obrigado a confessar que ele, na ficha de analfabeto das verdades da alma, ainda não tombou de todo...
Com significativo tom de voz, o instrutor acentuou: – Neves, Neves! A sublimação progressiva do sexo, em cada um de nós, é fornalha candente de sacrifícios continuados. Não nos cabe condenar alguém por faltas em que talvez possamos incidir ou nas quais tenhamos sido passíveis de culpa em outras ocasiões. Compreendamos para que sejamos compreendidos. 
Neves silenciou, decerto controlado pela influência do amigo venerável, e, quando consegui fitá-lo, depois de alguns momentos de expectativa, percebi que se pusera, humildemente, em oração.

CONTINUA AMANHÃ

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