A principal finalidade deste blog é a divulgação da Doutrina Espírita, codificada por ALLAN KARDEC, através de trechos do Evangelho Segundo o Espiritismo, preces, orações, crônicas e comentários.Queremos, também, transformar esse blog em uma CASA ESPÍRITA VIRTUAL.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
CONSELHO DO DIA
Este é o conselho que a Imitação de Cristo lhe dá para hoje:
Para que buscas repouso se nascestes para o trabalho?
Dispõe-te mais à
paciência que à consolação, mais para levar a cruz que para ter
alegria.
Quem dentre os mundanos não aceitaria de bom gosto a consolação
e a alegria espiritual, se a pudesse ter sempre ao seu dispor?
As
consolações espirituais excedem todas as delícias do mundo e todos os
deleites da carne.
Pois todas as delícias do mundo ou são vãs ou torpes,
e só as do espírito são suaves e honestas, nascidas que são das
virtudes e infundidas por Deus nas almas puras.
Mas ninguém pode lograr
estas divinas consolações à medida de seu desejo, porque não cessa por
muito tempo a guerra da tentação. ( Do agradecimento pela graça de Deus)
Certamente estas palavras se referem a alguma necessidade sua.
Mas isso só você saberá entender.
Mas isso só você saberá entender.
MENSAGEM DIÁRIA
Ao nascer de mais um dia,
tudo é lindo e maravilhoso. O caminho que se prossegue, a verdade que se faz
presente e a vida que se expressa são os dons da plenitude Divina.
SEXO E DESTINO - LIVRO DE CHICO XAVIER
CONTINUAÇÃO
Docilmente, retomou as elucidações interrompidas, relacionando os primeiros dias de atividade na profissão de comerciária aque se afizera.
As rememorações externaram-se em jorro.
Entremostrou-nos o movimentado estabelecimento comercial em que Cláudio lhe obtivera a função de balconista.
Pequeno leves, roupas feitas.
No dia imediato àquele em que o pai adotivo lhe trouxera da rua um bolo enfeitado com dezessete rosas pequenas, para comemorar-lhe o aniversário, entrara em serviço.
De começo, tudo hesitação e novidade.
Vira-se, depois, atirada aos embates do sentimento.
Ligaçõesnovas, idéias renovadas.
Aliciara relações confortadoras, expandiram-se-lhe os interesses, permutava confidências, conquistava simpatias.
A imaginação agora se lhe excitava em descontrole, sugerindo-lhe adornar-se com esmero, de modo a se destacar diante do herói que lhe viria, decerto, governar o império emotivo, oferecendo-lhe um lar, pedaço de paraíso em que pudesse anestesiar o
coração, desoprimir-se e achar a felicidade.
Menina bisonha, circunscrevia, até então, todos os conhecimentos, em matéria de amor, aos romances em que cinderelas anônimas acabavam em deslumbramento, nos braços de príncipes que as arrancavam da obscuridade para a glória.
Entusiasmava-se com novelas e filmes que terminassem pelo altruísmo coroado ou
pelas supremas aspirações humanas, convenientemente atendidas.
O destino, entretanto, escarnecera-lhe da inocência.
Comparava o contacto da vida prática a podão implacável que lhe talara todas as flores do jardim de sonhos juvenis.
A princípio, a desilusão conturbara-lhe o ânimo, através de um colega que a obsequiava, repetidamente, com entradas de cinema.
Conhecia-lhe a noiva, professora jovem e distinta que se lhe afeiçoara ao convívio.
Que mal em se verem juntos para uma fita simpática, de vez em vez?
Iniciaram-se os momentinhos de encontro fraterno.
Intimidade dos minutos propícios.
Copacabana, aqui e ali.
Um cafezinho de bar, nas horas de vento frio, um sorvete na praia, quando o calor vinha forte. Mera camaradagem. Amiguinho, fazendo o papel do irmão que não tivera.
Veio, porém, a noite em que ele se apresentou, transtornado.
Chegara sem a noiva, que se dirigira a Petrópolis.
Acontecimento natural, conquanto raro. Nada prenunciava sucessos desagradáveis,
nenhum motivo de inquietação.
Conversaram, pacificamente, nas areias do Leme.
A Lua nascera, plena, inspirando-lhes pensamentos mansos e alegres, enquanto
se expunham ao sopro refrigerante do mar.
O trabalho na loja fora banho de suor copioso, no dia cálido.
Falavam acerca de freguesas apressadas, mencionando clientes ásperos.
Riam-se, despreocupados, ao jeito de colegiais, no intervalo das lições.
Ele, no entanto, começou o inesperado, reportando-se a medidas.
A fita métrica, a seu parecer, não satisfazia, de todo, em casos determinados de atendimento. Necessária a adoção de recursos psicológicos para tranqüilizar compradores inquietos, quando se interessassem simplesmente por fragmentos de rendas
ou passamanes.
Nisso, pediu-lhe a mão pequena para confrontá-la com a dele e, respondendo, espalmara a destra sem qualquer prevenção.
Assustou-se, ao sentir-lhe a mão hirsuta e máscula, comprimindo-lhe os dedos.
Intentou desvencilhar-se. O rapaz, contudo, fez-se claro nos propósitos infelizes. Puxou-a, num gesto brusco, de encontro ao peito, gaguejando declarações.
Na vertigem da pessoa atingida pelos efeitos de um raio, em momento de céu aparentemente azul, quis gritar, reclamar socorro, mas o sangue turbilhonava-lhe na cabeça.
Impetuosamente submetida àqueles lábios que se colavam aos dela, desfaleceu por segundos.
O hálito sedutor do primeiro homem que a retinha, submissa, destilava o magnetismo da serpente, quando hipnotiza o pássaro confiante.
O desmaio, no entanto, durara um instante só.
A profunda e invencível reação da feminilidade unida à consciência surdiu, rápida.
A noção de responsabilidade relampagueou-lhe no raciocínio.
Bastou isso e o impulso sexual esmoreceu, neutralizado.
Ideou a imagem da amiga ausente, compreendeu todo o perigo a
que se expunha.
Aspirava, sim, a ser mulher de um homem, companheira de alguém que lhe fosse companheiro.
Compenetrava-se, com humildade, da sua condição de criatura humana, moça sequiosa de
afeto, prelibando emoções da maternidade, mas não concordaria com o próprio aviltamento em deslealdade ou devassidão.
Apelou para todas as energias de que se reconhecia capaz e, tocada de súbita resistência, arrojou longe o perseguidor que lhe pressionava o busto tremente.
Desembaraçada, o pranto explodiu-lhe quente e doloroso.
Interpelações da alma sincera estouraram, contundentes e francas.
Onde os compromissos do noivado? que fazia da jovem correta
que lhe empenhara o destino? trazia, assim, o coração rolando
CONTINUA AMANHÃ
Docilmente, retomou as elucidações interrompidas, relacionando os primeiros dias de atividade na profissão de comerciária aque se afizera.
As rememorações externaram-se em jorro.
Entremostrou-nos o movimentado estabelecimento comercial em que Cláudio lhe obtivera a função de balconista.
Pequeno leves, roupas feitas.
No dia imediato àquele em que o pai adotivo lhe trouxera da rua um bolo enfeitado com dezessete rosas pequenas, para comemorar-lhe o aniversário, entrara em serviço.
De começo, tudo hesitação e novidade.
Vira-se, depois, atirada aos embates do sentimento.
Ligaçõesnovas, idéias renovadas.
Aliciara relações confortadoras, expandiram-se-lhe os interesses, permutava confidências, conquistava simpatias.
A imaginação agora se lhe excitava em descontrole, sugerindo-lhe adornar-se com esmero, de modo a se destacar diante do herói que lhe viria, decerto, governar o império emotivo, oferecendo-lhe um lar, pedaço de paraíso em que pudesse anestesiar o
coração, desoprimir-se e achar a felicidade.
Menina bisonha, circunscrevia, até então, todos os conhecimentos, em matéria de amor, aos romances em que cinderelas anônimas acabavam em deslumbramento, nos braços de príncipes que as arrancavam da obscuridade para a glória.
Entusiasmava-se com novelas e filmes que terminassem pelo altruísmo coroado ou
pelas supremas aspirações humanas, convenientemente atendidas.
O destino, entretanto, escarnecera-lhe da inocência.
Comparava o contacto da vida prática a podão implacável que lhe talara todas as flores do jardim de sonhos juvenis.
A princípio, a desilusão conturbara-lhe o ânimo, através de um colega que a obsequiava, repetidamente, com entradas de cinema.
Conhecia-lhe a noiva, professora jovem e distinta que se lhe afeiçoara ao convívio.
Que mal em se verem juntos para uma fita simpática, de vez em vez?
Iniciaram-se os momentinhos de encontro fraterno.
Intimidade dos minutos propícios.
Copacabana, aqui e ali.
Um cafezinho de bar, nas horas de vento frio, um sorvete na praia, quando o calor vinha forte. Mera camaradagem. Amiguinho, fazendo o papel do irmão que não tivera.
Veio, porém, a noite em que ele se apresentou, transtornado.
Chegara sem a noiva, que se dirigira a Petrópolis.
Acontecimento natural, conquanto raro. Nada prenunciava sucessos desagradáveis,
nenhum motivo de inquietação.
Conversaram, pacificamente, nas areias do Leme.
A Lua nascera, plena, inspirando-lhes pensamentos mansos e alegres, enquanto
se expunham ao sopro refrigerante do mar.
O trabalho na loja fora banho de suor copioso, no dia cálido.
Falavam acerca de freguesas apressadas, mencionando clientes ásperos.
Riam-se, despreocupados, ao jeito de colegiais, no intervalo das lições.
Ele, no entanto, começou o inesperado, reportando-se a medidas.
A fita métrica, a seu parecer, não satisfazia, de todo, em casos determinados de atendimento. Necessária a adoção de recursos psicológicos para tranqüilizar compradores inquietos, quando se interessassem simplesmente por fragmentos de rendas
ou passamanes.
Nisso, pediu-lhe a mão pequena para confrontá-la com a dele e, respondendo, espalmara a destra sem qualquer prevenção.
Assustou-se, ao sentir-lhe a mão hirsuta e máscula, comprimindo-lhe os dedos.
Intentou desvencilhar-se. O rapaz, contudo, fez-se claro nos propósitos infelizes. Puxou-a, num gesto brusco, de encontro ao peito, gaguejando declarações.
Na vertigem da pessoa atingida pelos efeitos de um raio, em momento de céu aparentemente azul, quis gritar, reclamar socorro, mas o sangue turbilhonava-lhe na cabeça.
Impetuosamente submetida àqueles lábios que se colavam aos dela, desfaleceu por segundos.
O hálito sedutor do primeiro homem que a retinha, submissa, destilava o magnetismo da serpente, quando hipnotiza o pássaro confiante.
O desmaio, no entanto, durara um instante só.
A profunda e invencível reação da feminilidade unida à consciência surdiu, rápida.
A noção de responsabilidade relampagueou-lhe no raciocínio.
Bastou isso e o impulso sexual esmoreceu, neutralizado.
Ideou a imagem da amiga ausente, compreendeu todo o perigo a
que se expunha.
Aspirava, sim, a ser mulher de um homem, companheira de alguém que lhe fosse companheiro.
Compenetrava-se, com humildade, da sua condição de criatura humana, moça sequiosa de
afeto, prelibando emoções da maternidade, mas não concordaria com o próprio aviltamento em deslealdade ou devassidão.
Apelou para todas as energias de que se reconhecia capaz e, tocada de súbita resistência, arrojou longe o perseguidor que lhe pressionava o busto tremente.
Desembaraçada, o pranto explodiu-lhe quente e doloroso.
Interpelações da alma sincera estouraram, contundentes e francas.
Onde os compromissos do noivado? que fazia da jovem correta
que lhe empenhara o destino? trazia, assim, o coração rolando
CONTINUA AMANHÃ
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
CONSELHO DO DIA
Este é o conselho que a Imitação de Cristo lhe dá para hoje:
O comer, o beber, o vestir e outras coisas necessárias ao corpo são um
peso para a alma fervorosa.
Concedei-me usar com moderação de tais
lenitivos, sem me prender a eles com demasiado afeto.
Não é lícito
rejeitar tudo, pois devemos sustentar a natureza; mas buscar as coisas
supérfluas e o que mais delicia, proíbe-o vossa santa lei, porque de
outro modo a carne se rebelará contra o espírito.
Entre estes dois
extremos, Senhor, peço-vos que me dirijas e governes na vossa mão, para
que não pratique algum excesso. ( Excelência da liberdade espiritual, à
qual se chega antes pela oração humilde que pela leitura)
Certamente estas palavras se referem a alguma necessidade sua.
Mas isso só você saberá entender.
Mas isso só você saberá entender.
MENSAGEM DIÁRIA
O importante não é estar
aqui ou ali, mas ser. E ser é uma ciência delicada feita de pequenas-grandes
observações do cotidiano dentro e fora de nós. Se não executamos essas
observações, não chegamos a ser, apenas existimos e desaparecemos.
SEXO E DESTINO - LIVRO DE CHICO XAVIER
CONTINUAÇÃO
Era sozinha em assuntos de seu sexo.
Mãe e filha empenhavam-se, deliberadamente, na abstenção de qualquer parecer, quando se tratasse das incertezas dela na escolha de figurinos.
Deixavam-na à revelia de qualquer assistência nos cuidados que uma jovem deve a si mesma, embora Dona Márcia, de quando em quando, a escutasse com ternura maternal,
em tudo o que se referia às suas indagações de menina e mulher, necessitada de instrução para a vida íntima.
Quando sobrevinha a possibilidade do intercâmbio afetuoso, certificava-se de que a esposa de Cláudio possuía vasto patrimônio de compreensão e carinho, abafado sob o peso de conveniências e convenções, semelhando tesouro enterrado nas raízes de
sólido espinheiro.
Aproveitava-se dessas horas de efusão entre ambas, exibindolhe todas as dúvidas e perplexidades que se lhe estacavam na imaginação, aguardando a brecha propícia.
Dona Márcia afigurava-se largar distâncias e respondia-lhe entre beijos, demonstrando vivamente que o lume da dedicação e da confiança de outros tempos não se lhe arrefecera no coração.
Sorria, encantava-se.
Expandia-se-lhe a meiguice maternal, em apontamentos sábios e doces.
Suprimia-lhe a insipiência no trato com os problemas começantes da vida feminina, dando-lhe a impressão de haver reencontrado a mãezinha, que acreditara possuir ao pé do berço, quando aquelas mãos belas e finas, agora distanciadas, lhe afagavam a cabeleira.
Entretanto, o momento luminoso escoava-se, rápido.
Marina chegava e turvava-se o ambiente.
Assistia, espantada, à transformação que se operava de improviso.
A interlocutora comprazia-se num espetáculo de personalidade dúplice.
Ocultava-se a mãezinha espiritual, afável e acolhedora, e aparecia Dona Márcia, avalentoada e cortês, na atmosfera psíquica.
Inventava, de repente, alguma atividade em aposento vizinho, dava-lhe incumbências a distância, a fim de apartá-la.
Assumia ares diferentes. Queixava-se subitamente de dores que, até então, jaziam ignoradas.
Ante a reviravolta, analisava o reverso do quadro.
Ambas, unidas, completavam-se em pequeninas torpezas para deprimi-la, humilhá-la. Diminuta mancha no vestuário constituía razão para sarcasmo; ligeira indisposição orgânica atraía-lhe complicada série de admoestações jocosas e indiscretas. Concediam-lhe, raramente, a honra da companhia para compras no centro.
E se as casas comerciais visitadas não dispunham, eventualmente, de recursos mobilizáveis na entrega de encomendas, não se pejavam, mãe e filha, de carregá-la com pacotes diversos, exercitando crueldade risonha nos pejorativos com que lhe agravavam o constrangimento e a subalternidade.
Dona Márcia e Marina, juntas, à frente dela, significavam provação inqualificável que lhe competia agüentar em silêncio.
Nesses instantes, sentia o coração descompassado, em desconforto indizível, como se estivesse encantoada num teste de tolerância e paciência, perante examinadores que lhe avaliavam as reações, entre o chiste e a impiedade.
Cedo percebeu que a irmã, filha única, não abriria mão de ínfima parcela dos mimos caseiros, de que se supunha senhora.
Dominado o segredo de sua origem, modificara a conduta para com ela.
Tramava motivos para biografá-la, nas conversações com as amigas, suprimindo, previamente, quaisquer dúvidas, suscetíveis de ocorrer, com relação às duas, no meio social. Criticava-
lhe os gostos, as atitudes. E a genitora não fazia mistério na tomada de posição.
Em separado, não vacilava ceder-lhe a ternura que vinha do passado, enriquecida talvez pela compaixão que ela, moça pobre, inspirava no presente.
Isso, porém, exacerbava-lhe a secura.
Ansiava repouso em dedicações estáveis.
Pesava-lhe a solidão, sem qualquer parente consangüíneo que lhe disputasse os vínculos da amizade.
Mensagens aos familiares de Aracélia nunca mereceram resposta.
Informações procedentes da remota cidade em que sua mãe nascera inteiraram-na, por fim, de que todos eles haviam demandado outras regiões do país, apetecendo melhor sorte.
Retinha suficiente autocrítica e discernia a situação.
Estava só.
Marita, que conjeturava reaver lembranças por impulso deliberado, franqueou o propósito de recrear-se para dar conta de si, como quem se propõe alijar, por momentos, a carga que transporta, a fim de interrogar-se, quanto aos empeços do caminho.
Afrouxamos, com naturalidade, a observação aguda com que lhe acompanhávamos a exposição silenciosa.
Aliviada, indagou de si mesma se não fora o insulamento a causa de exagerar tão cedo a necessidade de companhias diferentes das que lhe traçavam no lar o estreito círculo de provas.
Encerrada nos pensamentos que lhe armavam as fantasias e
receando exteriorizá-los, pelo temor do ridículo, recorrera à evasão.
Ave cansada pelo exercício prematuro das próprias asas, inquiria
por que se lhe recusara alimento afetivo no ninho, onde
conseguira distendê-las.
Antes, porém, que se acomodasse em algum esconderijo da mente, para fixar-se em contristações inúteis, solicitamo-la a que viesse, por gentileza, em apoio da análise que empreendíamos, no intuito de auxiliá-la e protegê-la.
CONTINUA AMANHÃ
Era sozinha em assuntos de seu sexo.
Mãe e filha empenhavam-se, deliberadamente, na abstenção de qualquer parecer, quando se tratasse das incertezas dela na escolha de figurinos.
Deixavam-na à revelia de qualquer assistência nos cuidados que uma jovem deve a si mesma, embora Dona Márcia, de quando em quando, a escutasse com ternura maternal,
em tudo o que se referia às suas indagações de menina e mulher, necessitada de instrução para a vida íntima.
Quando sobrevinha a possibilidade do intercâmbio afetuoso, certificava-se de que a esposa de Cláudio possuía vasto patrimônio de compreensão e carinho, abafado sob o peso de conveniências e convenções, semelhando tesouro enterrado nas raízes de
sólido espinheiro.
Aproveitava-se dessas horas de efusão entre ambas, exibindolhe todas as dúvidas e perplexidades que se lhe estacavam na imaginação, aguardando a brecha propícia.
Dona Márcia afigurava-se largar distâncias e respondia-lhe entre beijos, demonstrando vivamente que o lume da dedicação e da confiança de outros tempos não se lhe arrefecera no coração.
Sorria, encantava-se.
Expandia-se-lhe a meiguice maternal, em apontamentos sábios e doces.
Suprimia-lhe a insipiência no trato com os problemas começantes da vida feminina, dando-lhe a impressão de haver reencontrado a mãezinha, que acreditara possuir ao pé do berço, quando aquelas mãos belas e finas, agora distanciadas, lhe afagavam a cabeleira.
Entretanto, o momento luminoso escoava-se, rápido.
Marina chegava e turvava-se o ambiente.
Assistia, espantada, à transformação que se operava de improviso.
A interlocutora comprazia-se num espetáculo de personalidade dúplice.
Ocultava-se a mãezinha espiritual, afável e acolhedora, e aparecia Dona Márcia, avalentoada e cortês, na atmosfera psíquica.
Inventava, de repente, alguma atividade em aposento vizinho, dava-lhe incumbências a distância, a fim de apartá-la.
Assumia ares diferentes. Queixava-se subitamente de dores que, até então, jaziam ignoradas.
Ante a reviravolta, analisava o reverso do quadro.
Ambas, unidas, completavam-se em pequeninas torpezas para deprimi-la, humilhá-la. Diminuta mancha no vestuário constituía razão para sarcasmo; ligeira indisposição orgânica atraía-lhe complicada série de admoestações jocosas e indiscretas. Concediam-lhe, raramente, a honra da companhia para compras no centro.
E se as casas comerciais visitadas não dispunham, eventualmente, de recursos mobilizáveis na entrega de encomendas, não se pejavam, mãe e filha, de carregá-la com pacotes diversos, exercitando crueldade risonha nos pejorativos com que lhe agravavam o constrangimento e a subalternidade.
Dona Márcia e Marina, juntas, à frente dela, significavam provação inqualificável que lhe competia agüentar em silêncio.
Nesses instantes, sentia o coração descompassado, em desconforto indizível, como se estivesse encantoada num teste de tolerância e paciência, perante examinadores que lhe avaliavam as reações, entre o chiste e a impiedade.
Cedo percebeu que a irmã, filha única, não abriria mão de ínfima parcela dos mimos caseiros, de que se supunha senhora.
Dominado o segredo de sua origem, modificara a conduta para com ela.
Tramava motivos para biografá-la, nas conversações com as amigas, suprimindo, previamente, quaisquer dúvidas, suscetíveis de ocorrer, com relação às duas, no meio social. Criticava-
lhe os gostos, as atitudes. E a genitora não fazia mistério na tomada de posição.
Em separado, não vacilava ceder-lhe a ternura que vinha do passado, enriquecida talvez pela compaixão que ela, moça pobre, inspirava no presente.
Isso, porém, exacerbava-lhe a secura.
Ansiava repouso em dedicações estáveis.
Pesava-lhe a solidão, sem qualquer parente consangüíneo que lhe disputasse os vínculos da amizade.
Mensagens aos familiares de Aracélia nunca mereceram resposta.
Informações procedentes da remota cidade em que sua mãe nascera inteiraram-na, por fim, de que todos eles haviam demandado outras regiões do país, apetecendo melhor sorte.
Retinha suficiente autocrítica e discernia a situação.
Estava só.
Marita, que conjeturava reaver lembranças por impulso deliberado, franqueou o propósito de recrear-se para dar conta de si, como quem se propõe alijar, por momentos, a carga que transporta, a fim de interrogar-se, quanto aos empeços do caminho.
Afrouxamos, com naturalidade, a observação aguda com que lhe acompanhávamos a exposição silenciosa.
Aliviada, indagou de si mesma se não fora o insulamento a causa de exagerar tão cedo a necessidade de companhias diferentes das que lhe traçavam no lar o estreito círculo de provas.
Encerrada nos pensamentos que lhe armavam as fantasias e
receando exteriorizá-los, pelo temor do ridículo, recorrera à evasão.
Ave cansada pelo exercício prematuro das próprias asas, inquiria
por que se lhe recusara alimento afetivo no ninho, onde
conseguira distendê-las.
Antes, porém, que se acomodasse em algum esconderijo da mente, para fixar-se em contristações inúteis, solicitamo-la a que viesse, por gentileza, em apoio da análise que empreendíamos, no intuito de auxiliá-la e protegê-la.
CONTINUA AMANHÃ
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