A principal finalidade deste blog é a divulgação da Doutrina Espírita, codificada por ALLAN KARDEC, através de trechos do Evangelho Segundo o Espiritismo, preces, orações, crônicas e comentários.Queremos, também, transformar esse blog em uma CASA ESPÍRITA VIRTUAL.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
PENSAMENTO DO DIA
Terça feira, 17 de maio de 2011.
Um dia você vai entender, como eu já entendi, que existe uma diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho
Autor: Desconhecido
MENSAGEM DIÁRIA
Terça feira, 17 de maio de 2011.
Cuidado com as pessoas: elas nem sempre falam o que pensam e nem sempre pensam o que falam
Autor: Desconhecido
AS VIDAS DE CHICO XAVIER - O APRENDIZ DE CURANDEIRO - 2ª PARTE
CONTINUAÇÃO
Esse Chico é formidável, mas, puxa, como come...
O aprendizado foi indigesto.
Chico engoliria muito sapo até aprender a dize "não ".
Chico trabalhava como um obcecado e queria mais. Além dos poemas e crônicas, sonhava escrever romances do outro mundo como a médium Zilda Gama. Ele se colocou à disposição de Emmanuel, mas foi desestimulado por ele. O trabalho exigia serenidade e Chico estava longe da tranqüilidade, sempre às voltas com os catorze irmãos. O pai desaparecia por algum tempo e a casa ficava por sua conta.
Só dois anos mais tarde, no final de 1938, após assumir com Emmanuel o compromisso de se acalmar, ele começou a preencher as páginas em branco com "lembranças " de 2 mil anos atrás. A primeira cena o pegou de surpresa: dois romanos envoltos em suas túnicas trocavam idéias no jardim, refestelados em longos sofás, quando um temporal desabou. As imagens e sons eram nítidos demais. Chico se sentiu como se estivesse no cinema, ao mesmo tempo como espectador e ator de um filme, dentro e fora da tela. Parou de escrever. E ouviu a explicação de Emmanuel, o autor do romance:
- Você está sob certa hipnose. Você está vendo o que eu estou pensando. Mas não sabe o que eu estou escrevendo.
Chico acompanhou a história como um telespectador diante de novelas. Chegou a torcer por certos personagens. Um deles era o próprio Emmanuel numa de suas vidas pregressas. Na encarnação nada evangélica. Na época de Cristo, ele teria sido não um apóstolo, mas um senador romano orgulhoso chamado Publius Lentulus.
Em 1939, o crítico literário mais rigoroso da época, Agripino Grieco, católico convicto, decidiu conhecer de perto o fenômeno de Pedro Leopoldo. O autor do livro Francisco de Assis e a Poesia Cristã fez o sinal da cruz e foi até um centro kardecista em Belo Horizonte, onde o moço exibiria seus dotes. Chico tinha acabado de lançar um livro com textos de Humberto de Campos (espírito), Crônicas de Além Túmulo - o quarto da série de trinta títu-los, e Agripino, ex colega do jornalista e escritor, queria checar a honestidade do mineiro que tinha a petulância de se apresentar como representante do morto.
O salão estava lotado. Os auxiliares de Chico, avisados da presença de crítico tão ilustre, providenciaram uma cadeira para ele ao lado do matuto. O recém chegado enterrou os olhos no rapaz e registrou, em silêncio, as primeiras impressões: "Um mestiço magro, meão de altura, com os cabelos bastante crespos e uma ligeira mancha esbranquiçada num dos olhos " Em seguida, rubricou, a pedido do orientador da sessão, vinte folhas de papel em branco, destinadas aos garranchos de Chico Xavier.
As rubricas afastariam a suspeita de substituição do texto.
Segundos depois, o rapaz fechou os olhos e o lápis disparou sobre a papelada em velocidade impressionante. Primeiro, apareceu um soneto assinado por Augusto dos Anjos. Depois, foi a vez de uma crônica assinada por Humberto de Campos.
O crítico ficou perplexo. Em entrevista ao jornal Diário da Tarde, em 31 de julho, confessou: "Tendo lido as paródias de Paul Reboux e Charles Muller, julgo ser difícil levar tão longe a técnica do pastiche. De qualquer modo, o assunto exige estudos mais detalhados, a que não me posso dar agora..."
Cinco dias depois, falou ao Diário Mercantil sobre a "profunda emoção " de reencontrar as idéias e estilos do amigo Humberto de Campos. Ainda estava confuso:
- "Pastiche? Mistificação? Imitação? Não nos reportemos somente a isso. O que não me deixou dúvidas, sob o ponto de vista literário, foi à constatação fácil da linguagem inconfundível de Humberto na página que li..."
No dia 21 de setembro, Agripino dava sinais de perplexidade crônica em entrevista ao Diário da Noite:
- Francisco Cândido Xavier compôs o texto com uma agilidade que não teria o mais desenvolto dos escreventes de cartório. Fiquei naturalmente aturdido. Depois disso, já muitos dias decorreram e não sei como elucidar o caso. Fenômeno nervoso? Intervenção extra humana? Faltam-me estudos especializados para concluir.
No fim do ano, cientistas russos se candidataram a estudar o fenômeno mineiro.
Fizeram uma proposta a Chico: ele se submeteria a seis meses de testes em Moscou e receberia em troca trezentos contos de réis, O jovem ficou tentado. O dinheiro era suficiente para construir cinqüenta casas populares. Uma fortuna para quem ainda estava às voltas com a primeira das oito prestações de um novo chapéu.
Emmanuel entrou em cena e quebrou as ilusões do candidato a cobaia:
- Se quiser, pode ir. Eu fico.
Chico precisava ter cuidado. A tal "harpa melodiosa " citada por sua mãe poderia enferrujar se ele cedesse à ambição ou ao orgulho. Para evitar o perigo, começou a castigar o próprio ego com golpes diários e contundentes. A autoflagelação partia de um pressuposto simples: ele não era nada, os benfeitores espirituais eram tudo e um pouco mais.
O segredo do sucesso: abrir mão de si mesmo. "Aquele que quiser ser o maior que se faça o servidor de todo "", lia no Evangelho. E acatava.
Em sua campanha antivaidade, Chico criou, ao longo da vida, alguns slogans para se defender dos elogios. "Sou apenas Cisco Xavier " era um deles. Ele fazia questão de proclamar a própria "absoluta insignificância ". Afinal de contas, era um "servidor quase inútil da doutrina espírit , "o mais pequenino de todos ", O aprendiz de curandeiro "um na ", "mais imperfeito que os outros ". A lista de metáforas auto depreciativas cresceria a cada ano. Chico se apresentaria como um graveto que se confunde com o pó, um animal em serviço, uma besta encarregada de transportar documentos dos espíritos, uma tomada entre dois mundos. Nenhuma das frases de efeito afastava os devotos e os bajuladores.
Um dia, diante de uma mulher quase de joelhos a seus pés, ele apelou:
- Não me elogie assim. É desconcertante. Não passo de um verme no mundo.
No mesmo instante, ouviu a voz de Emmanuel:
- Não insulte o verme. Ele funciona, ativo, na transmutação dos detritos da terra, com extrema fidelidade ao papel de humilde e valioso servidor da natureza. Ainda nos falta muito para sermos fiéis a Deus em nossa missão.
Daí em diante, Chico preferiu se definir, de vez em quando, como subverme.
Para os admiradores, tanta humildade era mais uma prova de santidade. Para os adversários, era pura demagogia, vaidade.
Chico lutava para ser "o servidor de todo "", ou seja, "o maior ".
Um dia, o rapaz se empolgou e apostou nos elogios feitos a ele. Uma carta enviada de um centro espírita de Belo Horizonte definia sua presença numa sessão como "indispensável ".
Chico pediu a Rômulo Joviano dois dias de licença na Fazenda Modelo e embarcou no trem rumo à capital mineira. No vagão, foi surpreendido pela aparição de Emmanuel:
Então, você se julga indispensável e, por isso, rompeu todos os obstáculos para viajar como quem realiza uma tarefa fundamental? Já refletiu que o serviço do ganha pão é indispensável a você?
Chico desceu do trem e tomou outro de volta. Até se aposentar, não faltaria a um dia de trabalho.
Os problemas se sucediam em Pedro Leopoldo. O número de pessoas à procura de Chico Xavier aumentava e muitas delas já iam até a Fazenda Modelo pedir socorro. Rômulo Joviano começou a se irritar. Era preciso encerrar aquela romaria no horário do expediente. Numa tarde, uma mulher desesperada chegou ao escritório e foi barrada pelo patrão de Chico no meio do caminho. Para despachar a visita, ele garantiu que seu empregado estava em casa. A mulher foi até lá e recebeu a informação verdadeira: Chico estava no emprego. Irritada, ela voltou a Fazenda e ouviu outra mentira: o datilógrafo tinha saído a serviço. Após resmungar um palavrão, desapareceu batendo os saltos no chão.
À noite, foi a primeira a entrar no Centro Luiz Gonzaga.
Nem pensou duas vezes. Avançou contra Chico Xavier e encheu seu rosto de bofetões. Com a voz e as mãos trêmulas, berrou:
- Está pensando que tenho tempo para andar atrás de você para cima e para baixo? Vá já para aquela sala. Você vai me dar um passe agora, cachorro.
Chico ficou paralisado. Não conseguiria ajudar ninguém.
Precisava estar calmo para transmitir energia positiva. Emmanuel apareceu com mais um conselho:
- Converse com ela, mostre compreensão.
Ainda com o rosto ardendo, ele tomou fôlego e começou a se desculpar:
- A senhora me perdoe por ser uma pessoa tão ocupada. Não pude atendê-la em meu emprego porque meu chefe não permite. A senhora compreende. Estou ali para servir à empresa que me paga. Não posso ser demitido porque tenho irmãos para ajudar.
A mulher começou a chorar, Chico voltou ao normal e obedeceu a ordem. Quando ela virou as costas, ele perguntou ao seu companheiro invisível se não teve razão de ficar irritado.
Você está com a razão, mas ela está com a necessidade.
Para se acalmar, se lembrou de um dos mandamentos ouvidos de Emmanuel:
- Sua missão é formar livros e leitores. Formar leitores é suportar suas exigências, sem censuras. Formar livros é se esquecer de você.
No dia seguinte, quando chegou à Fazenda Modelo, Chico foi recebido pelos olhares inquisidores de Rômulo Joviano. Que inchaço era aquele no rosto do funcionário? Chico disfarçou:
- Bati na porta.
E preferiu o silêncio quando o patrão retrucou:
- Dos dois lados?
Para evitar cenas como essa, José Xavier decidiu ajudar o irmão. Os visitantes poderiam ser encaminhados à sapataria onde ele trabalhava. Conversaria com todos até a hora em que Chico saísse do serviço para atendê-los. Alguns doentes chegavam amarrados, arrastados pela família, para serem submetidos às sessões de desobsessão promovidas por Chico. José atendia aos desesperados com educação e paciência.
CONTINUA AMANHÃ
segunda-feira, 16 de maio de 2011
PENSAMENTO DO DIA
Segunda feira, 16 de maio de 2011.
Às vezes à distância e a ausência tornam a amizade e o amor mais doces e mais profundos
Autor: James Howell
MENSAGEM DIÁRIA
Segunda feira, 16 de maio de 2011.
Há três coisas na vida que não voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida
Autor: Provérbio Chinês
AS VIDAS DE CHICO XAVIER - O APRENDIZ DE CURANDEIRO - 1ª PARTE
O APRENDIZ DE CURANDEIRO
A maioria dos visitantes saía do Rio de Janeiro e de São Paulo atraída pelo porta-voz dos poetas mortos e voltava para casa impressionada com as consultas médicas do Dr. Bezerra. Bastava escrever o nome e o endereço numa ficha para receber, no fim da noite, receitas sempre homeopáticas assinadas pelo espírito do médico.
Ninguém precisava revelar a doença para ter acesso ao diagnóstico escrito por Chico Xavier.
Muitos, impressionados com os poderes do protegido de Emmanuel, chegavam a oferecer dinheiro ao rapaz pobre como prova de gratidão. Ele recusava:
- Ajude o primeiro necessitado que encontrar.
Outros lhe entregavam presentes. Chico se livrava deles com pressa e discrição.
Numa noite, ganhou um relógio de ouro suíço. Na tarde seguinte, visitou uma doente, Glória Macedo. Pobre, ela costumava perder a hora de tomar os remédios receitados pelo Dr. Bezerra por falta de relógio. Chico deixou o presente da véspera sobre a mesa da "paciente ".
Mas nem todos saíam satisfeitos do Centro Luiz Gonzaga. Alguns ficavam decepcionados com recados médicos vagos como "buscaremos cooperar espiritualmente em seu favor " ou "confiemos na bênção de Jesus ". Chico esclarecia, com educação: não fazia milagres. Sua prioridade era o livro e não a cura.
Às vezes Chico decepcionava como "doutor " e repetia sempre:
- Todo médium é falível.
Vulnerável a enganos, ele tratava de tomar precauções: nunca receitava antibióticos e, diante de casos mais graves, aconselhava tratamento médico. Ninguém poderia acusá-lo do exercício ilegal da medicina.
Algumas das próprias falas clínico espirituais ele justificava como decisões estratégicas dos "benfeitores espirituais ". Os equívocos serviriam para combater sua vaidade e mostrar seus limites.
Bem ou mal, Chico Xavier atiçava a curiosidade e colocava Pedro Leopoldo no mapa. João Cândido Xavier começou a gostar daquela confusão. Com ares de empresário, sugeriu ao filho:
- Se você construir aí na porta um galinheiro e cada visitante deixar uma galinha, ficaremos ricos...
Chico sacudiu a cabeça e riu. O pai se irritou.
- Ora, Chico, os espíritos que te orientam são tão atrasados, mas tão atrasados que, em vez de escreverem Manuel, escrevem Emmanuel.
O rapaz repetiu a velha história: nunca poderia ganhar dinheiro com sua mediunidade. E ouviu o desabafo paterno:
- Eles mandam você não cobrar nada de ninguém porque não pagam o leite e não têm que comer carne. Pode ficar certo, meu filho, quando eu morrer, vou ser seu guia.
João Cândido só faltava bocejar quando o filho abria O Evangelho Segundo o Espiritismo e lia a recomendação de Jesus:
- "Dai de graça o que de graça recebestes " . A bênção da mediunidade parecia maldição. O pai ficava impressionado: Chico trabalhava tanto para os outros a troco de quê? A recompensa não vinha.
Nessa época, o rapaz enfrentava dificuldades sérias no armazém de José Felizardo. O patrão tinha sofrido uma trombose cerebral e o salário estava a cada dia mais minguado. Chico teve que recorrer a um bico na Inspetoria Regional do Serviço de Fomento da Produção Animal, na Fazenda Modelo. Nas horas vagas, trabalhava de graça para o doente e fazia companhia a ele.
Em 1935, Felizardo não teve dinheiro para pagar os impostos do segundo semestre, o armazém faliu e o ex caixeiro entrou para o quadro de funcionários da Inspetoria como escrevente datilógrafo. Em vez de servir cachaça, ele escreveria relatórios sobre os bois, cavalos e jumentos puro sangue criados na fazenda do governo e emprestados, para reprodução, a fazendeiros cadastrados no Ministério da Agricultura. Em pouco tempo, seria um especialista em gado zebu.
No escritório, ele encontrou outro "guia" , este de carne e osso, disposto a domar com boas chibatadas seus instintos de "besta espírita " . O administrador da fazenda, o engenheiro agrônomo Rômulo Joviano, mantinha o rapaz no cabresto. Espírita de carteirinha, ele não só acompanhava de perto os relatórios do empregado como também supervisionava seus "textos do além " e acompanhava as sessões do Centro Luiz Gonzaga, do qual se tornaria presidente. Só era distraído mesmo para promoções, aumentos e folgas.
Chico já estava às voltas com memorandos bovinos quando chegou às livrarias a segunda edição do Parnaso de Além-Túmulo, em 1935. O volume, quase três vezes maior do que o da primeira edição, era festejado no prefácio pelo vice-presidente da Federação Espírita Brasileira, Manuel Quintão. Responsável pela primeira versão do livro, o filólogo espírita festejava as novas aquisições (Olavo Bilac, por exemplo) e transformava em estandarte o texto escrito por Humberto de Campos (espírito).
No artigo, intitulado "De Pé, os Mortos " , o escritor reafirmava a autenticidade dos poemas ditados pelos espíritos ao matuto de Pedro Leopoldo.
Quintão estava entusiasmado: O crítico João Ribeiro disse que o médium não traiu nenhum dos poetas. Ora, esta concisa sentença de J. Ribeiro vale por todos os estultilóquios e paparrotadas que andas, que a crítica de papo amarelo improvisou a propósito de quanto se afaste do seu clássico palmo de nariz.
O texto era um panfleto.
A nova edição saiu com um único, e discreto, reparo.
O perfil de Guerra Junqueiro, escrito pelo indignado Quintão em 1932, em introdução aos versos atribuídos ao poeta, mudou de tom, O "bardo " português, definido como "notável por sua hostilidade à Igreja de Roma na versão original, passou a ser admirável por sua "veia combativa e satírica " . Era início da censura na literatura espírita. Era também uma alteração adequada a quem, como Chico, passaria a vida repetindo:
- Não vim para brigar com ninguém. Não vim para dividir.
Mas dividia. O romancista mineiro João Domas Filho, por exemplo, se irritaria com os poemas assinados por Olavo Bilac na nova edição do Parnaso: "Ele, que nunca escreveu um verso imperfeito, nem em sua pior fase, depois de morto ditou ao médium sonetos inteiros abaixo do medíocre " .
O ferino Osório Borba, autor de A Comédia Literária, decidiu assistir a uma sessão no Centro Luiz Gonzaga. Sem se identificar, viu Chico espalhar versos pelas páginas em branco em velocidade surpreendente, mas não se convenceu. Após o "espetáculo ", ele conversou com o autor do Parnaso e foi honesto: duvidava da possibilidade de os espíritos se manifestarem com sua ajuda, mas acreditava na sua honestidade.
Chico seria apenas uma vítima inconsciente de fenômenos ainda pouco estudados.
Os poemas e poetas recém chegados à nova edição do Parnaso geraram boatos mirabolantes. Os católicos mais empedernidos chegaram a acusar a Federação Espírita Brasileira de manter uma comissão de escritores encarregada de inventar todos aqueles versos em sigilo absoluto. A causa era nobre: convencer os incrédulos da existência de espíritos. Chico Xavier desempenharia o papel do ignorante sem tempo nem cultura para escrever os poemas, mas capaz de ser porta voz dos mortos, em troca de dinheiro e em nome da divulgação do espiritismo.
Os rumores eram tão fortes que Chico tratou de arquivar, com cuidado, os originais de todos os textos vindos do "outro mund ". Quando lhe sugeriram transferir a papelada de Pedro Leopoldo para a sede da Federação Espírita, no Rio, ele recusou. Precisava ter seus garranchos sempre à mão para mostrar aos céticos.
Fez bem.
Mais tarde, ele mostraria suas "provas " a dois padres e três protestantes interessados em desmistificar a "fraude mineira ".
Em meio à polêmica, o rapaz de Pedro Leopoldo ficava famoso e virava atração princi-pal em sessões espíritas de outras cidades. Em 1936, enquanto Boris Karloff provocava calafrios no filme O Morto Ambulante, ele roubava a cena na Sociedade Metapsíquica de São Paulo. Na noite de 29 de março, colocou no papel uma mensagem assinada por Emmanuel, em inglês, e escrita de trás para a frente, em papel timbrado da entidade, previamente rubricado com duas assinaturas. A platéia só faltou aplaudir de pé e pedir bis. Após a exibição, foi convidado para um jantar na casa de uma socialite espírita.
A dona da casa tinha ímpetos de colocar o "embaixador " dos mortos numa de suas baixelas de prata. Diante dos talheres reluzentes e dos figurinos de gala, o rapaz enrubescia, engasgava. Nunca tinha visto tanta comida junta. Nem sabia por onde começar. Estava paralisado.
De repente, saltou em direção à porta da cozinha e arrancou das mãos de uma jovem uma travessa repleta de arroz. A anfitriã chegou a tempo de evitar o pior. O rapaz estava contrariado.
A coitadinha é tão frágil. E nós aqui, à toa, vendo-a fazer tudo sozinha.
Foi difícil convencer o matuto de que a coitada era empregada da casa e recebia um salário por aquele serviço. Só após certa disputa pela posse da bandeja, Chico se conformou e foi à mesa se servir.
A dona da casa fez questão de acompanhar o tour do pobrezinho em torno do bufê.
Isto é gostoso, meu filho. Coma, coma, coma um pouco mais.
Com medo de fazer desfeita, o coitado engolia a miscelânea de carnes, massas e saladas. Sempre que levava à boca os últimos vestígios de comida, escutava a voz estridente ao seu lado:
- Coma um pouco mais. O que é isso? Tão pouco...
O prato se esvaziava e logo se enchia de novo. Chico sorria, agradecia, afrouxava o cinto, desabotoava o colarinho, respirava fundo. Quando chegou a sobremesa, sentiu vontade de chorar. A anfitriã cobriu seu prato de doces. Ele comeu. Ao sair, amparado por amigos, escutou o comentário sussurrado pela dona da casa a uma amiga:
CONTINUA AMANHÃ
domingo, 15 de maio de 2011
PENSAMENTO DO DIA
Domingo, 15 de maio de 2011.
Devemos prosperar por merecimento, e não por proteção
Autor: Plauto
MENSAGEM DIÁRIA
Domingo, 15 de maio de 2011.
Se você vibrar só com pensamentos positivos, suas ações conseqüentemente também serão positivas.
Autor: Desconhecido
AS VIDAS DE CHICO XAVIER - A PELE DO RINOCERANTE - 2ª PARTE
CONTINUAÇÃO
Em maio, Clementino de Alencar, um correspondente do jornal O Globo, desembarcou em Pedro Leopoldo. O carioca estava disposto a desmascarar a "fraude mineira e teve a primeira oportunidade em sessão espírita no Centro Luiz Gonzaga. Naquela noite, ele se sentou ao lado de Chico na mesa tosca de madeira e acompanhou, de perto, os movimentos vertiginosos de sua mão sobre o papel. O lápis percorria a folha na contramão - da direita para a esquerda e rabiscava frases incompreensíveis. Um dos espectadores arriscou: É árabe. Era inglês, escrito de trás para frente. A mensagem invertida, que só poderia ser lida no espelho ou contra a luz, foi publicada em letras garrafais no jornal carioca:
My dear spiritualist friends, Men s learning is nothing over against of the death: letyou support your cross with patience and courage. The pain and faith are the greater earthly trea-sure and the work is thegold of the lífe. Butfor ali you, believing either not, here is the our-great message: God is our Father. We are brothers. Let us love one another. Emmanuel.
(Meus caros amigos espiritualistas, o conhecimento dos homens não é nada contra a morte; suportem as suas cruzes com paciência e coragem. A dor e a fé são os maiores tesouros terrenos e o trabalho é o ouro da vida. Para todos, entretanto, crentes ou não, aqui está a nossa grande mensagem: Deus é nosso Pai. Nós somos irmãos. Amemo-nos uns aos outros.)
O repórter apontou o erro crasso de gramática inglesa o uso do the antes do possessivo ou na quinta linha e divulgou a desculpa do tal Emmanuel para o deslize: ele ainda estava estudando inglês num curso no além.
A noite de boas-vindas ao jornalista foi movimentada. Após a exibição bilíngüe, Chico colocou no papel, em minutos, de olhos fechados, dois poemas de um certo Olavo Bilac "Aos Descrentes e Ideal.
Clementino de Alencar avançou sobre o primeiro:
Vós que seguis a turba desvairada
As hostes dos descrentes e dos loucos
Que de olhos fechados e ouvidos moucos
Estão longe da senda iluminada
Retrocedei dos vossos mundos ocos
A noitada só terminou depois de Chico Xavier rabiscar um poema de Augusto dos Anjos - sobre o fim das forças do "plasma agonizante' e outro de João de Deus.
No quarto de hotel, Clementino passava os olhos pelos poemas do outro mundo e registrava as próprias sensações nas páginas de O Globo:
- Nossos olhos correm, a um tempo curiosos e ansiosos, sobre aquelas páginas incríveis, que o caixeiro bisonho e humilde afirma ter recebido, em transe, do mundo das sombras invisíveis, que ficam para lá das nossas percepções normais. Devemos crer nesse parnaso do além? Esqueçam por hora as dúvidas. Fique para mais tarde a análise.
Nem tudo era poesia na série de reportagens. Clementino também divulgou um texto atribuído a Emmanuel, a quem sempre se referia como o "guia " de Chico. O artigo, sobre o "corpo espiritual ", soava como grego escrito de trás para frente.
A vida, em suas causalidades profundas, escapa aos vossos escalpelos, e apenas o embriogenista observa, na penumbra e no silêncio, a infinitésima fração do fenômeno assimilatório das criações orgânicas.
O repórter se empolgou e decidiu, então, submeter o matuto de Pedro Leopoldo a uma série de testes. Chico aceitou o desafio. Questionários elaborados por especialistas foram entregues a ele.
As primeiras perguntas, sobre economia, vieram do gerente do Banco Agrícola de Sete Lagoas, Francisco Teixeira da Costa. Chico levou a prova para casa iria submetê-la aos espíritos - e apresentou as respostas na manhã seguinte.
A primeira questão era muito difícil: Dado o aumento da população mundial e a escassez de ouro necessário à circulação, a socialização do sistema monetário, tendo por base certa percentagem de exportação de cada país, conseguiria, pela emissão naquela base, regular o fenômeno da troca?
A resposta veio em economês à altura, se arrastou por parágrafos e mais parágrafos, repletos de referências ao lastro regulador e às emissões fiduciárias, e terminou com a assinatura do português Joaquim Pedro d'Oliveira Martins, ex-deputado, ex-ministro da Fazenda e ex-membro da Academia de Ciências de Lisboa, morto em 1894.
Na reportagem publicada no dia 31, Clementino estava quase convertido ao espiritismo:
- Sente-se o repórter no dever de anotar, já agora, aqui, esta impressão: torna-se cada vez mais remota a idéia de fraude grosseira que tenha porventura surgido com as primeiras notícias relativas ao jovem médium de Pedro Leopoldo.
O jornalista fez questão de esclarecer que não era o único ex-cético da cidade.
Muitos curiosos desembarcavam desconfiados em Pedro Leopoldo e saíam de lá assombrados.
Um dos observadores atentos entrevistados por Clementino foi o professor de Psiquiatria da Universidade de Belo Horizonte, Melo Teixeira. Ele se sentou próximo ao rapaz e cravou nele seus olhos clínicos. Quando Chico Xavier largou o lápis sobre o papel repleto de frases do além, o médico perguntou quais as sensações do transe.
O matuto falou sobre o torpor e a impressão vaga de uma tênue irradiação.
O psiquiatra deu o diagnóstico:
- Não se pode negar: estamos diante de um fenômeno lídimo, visto, presenciado.
Haverá, naturalmente, os que acusam este rapaz de fabricar pastiches. É uma hipótese para observador distante e superficial. Sentimo-nos diante de uma força ultranormal.
Clementino precisava de mais evidências. Decidiu fazer perguntas em inglês. Uma das questões:
Have you, spirits, any power upon thefuture of our living friends?
(Vocês, os espíritos, têm algum poder sobre o futuro de nossos amigos vivos?).
A resposta, assinada por Emmanuel, começava com uma censura à referência aos amigos vivos.
"Todos nós estamos vivendo " garantiu em bom português.
O repórter de O Globo leu os parágrafos escritos pelo rapaz, mas não se convenceu. Queria respostas em inglês. Em vez de fazer o pedido ao entrevistado, ele resolveu experimentar uma técnica espírita: a de enviar uma "espécie de prece insistente ao rapaz " "Inglês, inglês " mentalizou. O texto veio em português. Quando Clementino já estava prestes a voltar ao ceticismo habitual, apareceram, sob a resposta, dezoito linhas em inglês. Do you have more questions?
Clementino de Alencar mudou. Emmanuel, citado como "guia " de Chico Xavier nas primeiras reportagens, virou o Amigo Invisível (com letras maiúsculas e sem aspas).
O repórter voltou para o Rio, um mês depois, convencido da honestidade do autor de Parnaso de Além-Túmulo. E suas reportagens atraíram caravanas de curiosos a Pedro Leopoldo.
CONTINUA AMANHÃ
sábado, 14 de maio de 2011
PENSAMENTO DO DIA
Sábado, 14 de maio de 2011.
O mal de todos nós é que preferimos ser arruinados por um elogio a ser salvos pela crítica
Autor: Desconhecido
MENSAGEM DO DIA
Sábado, 14 de maio de 2011.
A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida, mas não desista. Lute para atingir o seu encontro e seja feliz
Autor: Desconhecido
AS VIDAS DE CHICO XAVIER - A PELE DO RINOCERANTE - 1ª PARTE
A PELE DO RINOCERONTE
Nas noites de segunda e sexta-feira, ele colocava o Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, embaixo do braço e ia para o Centro Luiz Gonzaga.
Seguia à risca uma instrução ditada por Emmanuel: fidelidade irrestrita a Jesus Cristo e a Kardec, o codificador da doutrina espírita. O guia do outro mundo levava tão a sério este mandamento que um dia chegou a determinar a Chico:
- Se alguma vez eu lhe der algum conselho que não esteja de acordo com Jesus e Kardec, fique do lado deles e procure me esquecer.
Chico demorava na cartilha espírita, praticava as lições de caridade, promovia sessões de desobsessão às quartas feiras, mas o centro ficava cada dia mais vazio.
José Hermínio Perácio e a mulher, Carmem, se mudaram para Belo Horizonte.
Precisavam ficar mais perto da família.
José Xavier teve que trabalhar à noite numa oficina de arreios para pagar uma dívida. De repente, o rapaz se viu sozinho no barracão.
Quando pensou em sair de fininho, ouviu a voz de Emmanuel.
- Você não pode se afastar.
- Como? Não temos freqüentadores.
- E nós? Nós também precisamos ouvir o Evangelho. Além disso, temos aqui vários "desencarnados" que precisam de ajuda.
Abra a reunião na hora marcada e não encerre a sessão antes de duas horas de trabalho.
Chico seguiu as instruções. Às 8h em ponto iniciava a reza de abertura da sessão.
Em seguida, abria O Evangelho Segundo o Espiritismo ao acaso e comentava o capítulo em voz alta. Nessa época, começou a ver mortos e a ouvir vozes com maior freqüência e nitidez. Os seres invisíveis ocupavam os bancos vazios.
Do lado de fora, vizinhos e parentes acompanhavam aquele espetáculo absurdo: o rapaz falava sozinho, gesticulava, rezava, duas horas seguidas. Uma das irmãs, uma noite, se pendurou na janela para ouvir o monólogo.
- Tenhamos fé em Jesus, minha irmã.
- Com paciência alcançaremos a paz.
- Sem calma, tudo piora.
A espectadora interrompeu a cena insólita:
- Com quem você está conversando?
- Com dona Chiquinha de Paula.
- Ela já morreu, Chico.
- Você é que pensa. Ela está bem viva.
A família ainda pensava em levar o rapaz a um bom hospício.
O padre Júlio Maria, da cidade mineira de Manhumirim, estava disposto a providenciar uma camisa de força para o espírita de Pedro Leopoldo. Todo mês, ele escrevia artigos no jornal local, O Lutador, e fazia o favor de enviar suas opiniões pelo correio ao autor do Parnaso de Além-Túmulo. Em nome de Jesus Cristo, os textos excomungavam o espiritismo, reduziam a pó a reencarnação e à piada o porta voz dos poetas mortos no Brasil.
"Francisco Cândido Xavier deve ter pele de rinoceronte para suportar tantos espíritos", escreveu num de seus manifestos.
Chico ficou engasgado e precisou da ajuda de Emmanuel para engolir o comentário.
Se você não tem pele de rinoceronte, precisa ter, porque, se cultivar uma pele muito frágil, cairá sempre com qualquer alfinetada.
O padre Júlio Maria espetou Chico Xavier durante treze anos. Só parou quando morreu. E, nesse dia, Chico ouviu o vozeirão de seu guia:
- Vamos orar pelo nosso irmão Júlio Maria.
Com ele sempre tivemos um cooperador maravilhoso. Dava-nos coragem na luta e concitava-nos a trabalhar.
A cada ataque dos céticos, Chico escutava Emmanuel bater na mesma tecla:
- Não te aflijas com os que te atacam. O martelo que atormenta o prego com pancadas o faz mais seguro e mais firme.
O conselheiro invisível esquecia que martelos também entortam pregos.
Chico sentia os golpes e andava pela cidade arqueado, sob o peso da desconfiança alheia.
Em dezembro de 1934, o rapaz fechou os olhos e fincou o lápis no papel. As frases apareceram velozes e nada evangélicas.
Eram endereçadas a ele mesmo.
“Meu amigo,
Há mais de um decênio que não me preocupo com as parvoíces da Terra. Nem presumia a possibilidade de enviar novamente para aí a minha futilíssima correspondência, quando alguém me insinuou a idéia de vir ditar-te as minhas sandices.
Acometeu-me o desejo incoercível de atirar um dos meus petardos de troça ao gênero bípede e estalar uma boa gargalhada, sonora e sã.
Foi o que fiz. Tentei a prova.
Focalizei no meu pensamento a idéia de vir ter contigo e bastou isso para que as minhas raras faculdades de fantasma me conduzissem a esse maravilhoso recanto sertanejo em que vives, esplendor de canto agreste, quase selvagem... Busquei aproximar-me de tua individua-lidade.
Vi-te finalmente. Lá surgias ao fim de uma rua bem cuidada, onde se alinhavam casas brancas e arejadas, brasileiríssimas, abarrotadas de ar, de saúde, de sol; vinhas com o passo cansado, pele suarenta a derreter-se dentro de roupas quase ensebadas, com os pés metidos em legítimos socos do Porto, obrigando-me a evocar o cais de Lisboa...
Sem que pudesses observar-me, submeti-te a demorado exame. Procurei a tua bagagem de pensamento, encontrando na tua mocidade tudo quanto a tristeza criou de mais sombrio; em tua alma amargurada, vi apenas porções de sofrimentos, pedaços de angústia esterilizador-a, recordações tristonhas, lágrimas cristalizadas... Vi-te e ri-me. Não de ti. Ri-me da estultice do cérebro desequilibrado do asno humano, com o seu volumoso e pesado arquivo de baboseiras.”
Cansado das lamúrias de Chico Xavier, o remetente da carta recomendava o bom humor como arma:
“Convence-te de que se comete um ato desarrazoado, uma inqualificável imprudência, em chorar tolamente, em derreter-se inutilmente. Abandona essa exótica preocupação aos mais parvos do que tu. Ri-se o mundo de nós? Riamo-nos dele.
Achincalhemos os seus arremedos aos gorilas, ridicularizemos as suas intuições, onde predominam a bandalheira, os seus pulos de cabra cega; traduzamos a admiração que tudo isso nos desperta com o riso bom, que sempre apavorou os tímidos e insuficientes.”
O recado tinha a assinatura de Eça de Queiroz. O escritor português, autor de "pecados" como O Crime do Padre Amaro, dava mostras não só de sarcasmo como também de boas doses de informação sobre a polêmica em torno do Parnaso de Além-Túmulo.
Após listar a série de teorias usadas pelos críticos para decifrar o enigma Chico Xavier consciência, mediunidade, psicopatia, loucura, simulação, anormalidade, fenômeno, estupidez, espiritomania, o autor invisível não resistiu e voltou à boa e velha ironia: "Vai continuando até que te receitem a enxovia ou o manicômio. No cárcere ou no sanatório, alcançarás um período de repouso. Não te apavores".
Semanas depois, o rapaz colocou no papel um alerta sobre os riscos da vaidade e da ambição. Desta vez, quem assinava o texto era Maria João de Deus, sua mãe.
Chico Xavier decorou cada palavra. Muitas delas eram golpes secos contra sua auto estima.
Para começo de conversa, ele não deveria encarar a própria mediunidade como uma dádiva, porque, imperfeito como era, não merecia favores de Deus. Uma metáfora barroca marcou sua história:
"Seja tua mediunidade como harpa melodiosa; porém, no dia em que receberes os favores do mundo como se estivesses vendendo os seus acordes, ela se enferrujará para sempre".
Chico ficou atento às lições e passou a exercitar tanto o bom humor como a humildade ao longo dos anos.
No dia 5 de dezembro de 1934, Humberto de Campos morreu. Três meses depois, Chico teve um sonho. As cenas eram nítidas demais. Ele deparou com um grupo de desconhecidos, embaixo de uma árvore enorme e transparente como cristal, sob um céu muito azul e brilhante. Não havia casas em volta. Um dos estranhos se destacou da multidão, caminhou em sua direção, estendeu a mão e disse: "Você é o menino do Parnaso? Eu sou Humberto de Campos".
As lembranças terminaram aí, mas deixaram o rapaz cismado. Qual o sentido daquele sonho? Três meses depois, ele saberia. Textos assinados por Humberto de Campos cairiam do céu um após o outro.
Em março de 1935, a mão de Chico colocou no papel as primeiras linhas assinadas pelo ex imortal. Sob o título "A Palavra dos Mortos", o escritor se apresentava como uma testemunha do "trabalho intenso das coletividades invisíveis pelo progresso humano". Nem parecia aquele acadêmico capaz de desafiar os poetas mortos a competir com os vivos de igual para igual, "reencarnados". Do outro lado, ele tratava de defender as mensagens dos espíritos como "um consolo aos tristes e uma esperança aos desafortunados".
Os materialistas que se cuidassem. O texto saía a jato da mão de Chico Xavier. A fé viria mais cedo ou mais tarde, pelo bem ou pelo mal: "Os homens aprenderão à custa das suas dores, com todo o fardo de suas misérias e de suas fraquezas, e as palavras do infinito cairão sobre eles como a chuva de favores do Alto".
O artigo virou introdução do livro Palavras do Infinito, de Chico Xavier, uma coletânea de ensaios assinados por Humberto de Campos e por outros mortos ilustres.
Cinco dias depois, Chico Xavier cobriria uma página em branco com novas frases assinadas pelo jornalista invisível. Era uma carta de despedida endereçada ao rapaz:
- "Tive pena quando soube que iam conduzi-lo a um teste. A curiosidade jornalística é agora levantada em torno de sua pessoa. Agora que os bisbilhoteiros o procuram, trago-lhe o meu adeus, sem prometer voltar breve".
O repórter morto saiu de cena e abriu alas para um jornalista vivo.
CONTINUA AMANHÃ
sexta-feira, 13 de maio de 2011
MENSAGEM DO DIA
Dizem os chineses: Se precisar disparar a flecha da verdade, primeiro molhe a sua ponta no mel
Autor: Paulo Coelho
MENSAGEM DO DIA
Sexta feira, 13 de maio de 2011.
A paz vem quando a tempestade passa, mas quando a tempestade passa as cicatrizes ficam e ficamos dependendo do tempo para esquecé-las
Autor: Patrick Sandre
AS VIDAS DE CHICO XAVIER - MUITO PRAZER EMMANUEL - 2ª PARTE
CONTINUAÇÃO
- Se eles voltam a nos fazer concorrência com seus versos perante o público e, sobretudo, perante os editores, dispensando-lhes o pagamento dos direitos autorais, que destino terão os vivos que lutam hoje com tantas e tão poderosas dificuldades?
Antes de pôr o ponto final, o escritor desafiou os rivais do outro mundo a ressuscitarem: "Venham fazer concorrência em cima da terra, com o arroz e o feijão pela hora da vida. Do contrário, não vale".
Dois anos depois, Humberto de Campos morreria e vestiria a camisa dos espíritos.
A segunda edição do Parnaso de Além Túmulo exibiria logo na introdução um artigo com sua assinatura, acompanhado de uma ressalva entre parênteses: espírito. Ele já havia mudado de time e não achava assim tão desleal a "concorrência" entre vivos e mortos.
Antes de se retirar do planeta, o escritor assinou outra crítica sobre o livro de Chico Xavier, "Como Cantam os Mortos", também publicado na primeira página do Diário Carioca. A manchete do dia "São Paulo em armas contra a ditadura" – descrevia como o general Isidoro Dias Lopes tinha derrubado, com suas tropas, o interventor de São Paulo, Pedro de Toledo, e colocado no poder uma junta governativa formada por ele próprio, pelo deposto e por Francisco Morato.
O cronista do Diário Carioca estava mais preocupado com assuntos do além.
Impressionado com os versos do Parnaso de Além Túmulo, ele pediu uma opinião sobre o livro ao colega de academia e de redação Augusto de Lima e ouviu uma ironia: Chico seria a versão mineira do Barão de Münchhausen e estaria às voltas com fantasias mirabolantes. Humberto desconsiderou o ceticismo do amigo.
Após esmiuçar os poemas do caipira de Pedro Leopoldo, enterrou de vez a hipótese de Chico escrever a la manière dos poetas mortos e convocou outros críticos : "Parnaso de Além Túmulo merece a atenção dos estudiosos, que poderão dizer o que há nele de sobrenatural ou de mistificação".
A convocação surtiu efeito. O poeta e escritor José Álvaro Santos leu as críticas, comprou Parnaso de Além Túmulo, analisou os poemas e, em janeiro de 1933, desembarcou em Pedro Leopoldo para conhecer o autor do livro. Encontrou o rapaz atrás do balcão no armazém de José Felizardo Sobrinho, visitou sua casa pobre, repleta de irmãos, e ficou impressionado com a rotina do rapaz. Trabalho braçal das 7h da manhã às 8h da noite por um salário de quarenta mil réis mensais, O poeta não merecia perder tanto tempo com questões menores.
José Álvaro Santos fez uma proposta a João Cândido Xavier: arrumaria um bom emprego para seu filho em Belo Horizonte. Bastava que Chico o acompanhasse até a capital mineira. Em três meses, no máximo, o rapaz estaria contratado. Os olhos do pai cresceram diante da perspectiva. O dinheiro andava curto demais.
João argumentou com o filho e, mais tarde, Chico recorreu a seu amigo invisível, Emmanuel. Escutou conselho contrário ao do pai - deveria continuar onde estava -, e tomou a decisão: ficaria com a família. No dia seguinte, João Cândido voltou a pedir socorro e Chico voltou a pedir uma orientação ao guia. A contra ordem veio do além.
A tentativa é inoportuna e desaconselhável, mas não desejamos que contraries teu pai.
João Cândido conseguiu três meses de licença para o filho no armazém de José Felizardo Sobrinho, Chico se despediu dos companheiros do Centro Luiz Gonzaga e embarcou com o desconhecido em direção a uma chácara a três quilômetros do bairro da Gameleira, em Belo Horizonte.
O autor do Parnaso de Além Túmulo, mulato, mal vestido, com expressão atordoada, virou atração na casa. Intelectuais mineiros se reuniam em torno dele e comentavam, diante de seus olhos arregalados, os estudos de Coorkes e Richet sobre a mediunidade, os pastiches de Paul Reboux, os poemas de Baudelaire, Musset, Bilac, Augusto dos Anjos.
O matuto acompanhava tudo em silêncio. Uma vez ou outra, respondia com monossílabos a perguntas sobre os poemas ditados do outro mundo. Tinha medo de cometer disparates.
No meio da noite, sozinho no quarto, respirava aliviado diante das visões do guia e da mãe. As aparições repetiam conselhos sobre a prudência e o respeito aos outros e Emmanuel ainda aproveitava para tirar dúvidas literárias do protegido. Explicava, por exemplo, que Paul Reboux era mestre em imitar o estilo de outros poetas.
Enquanto esperava o serviço prometido, Chico acompanhava, à distância, entre as árvores da chácara, a construção de um sanatório em terreno vizinho. Estava triste, tenso. O hospital, no terreno vizinho, crescia a cada dia e o emprego não saía. Os três meses se esgotaram.
Ele não podia mais ficar à toa. Precisava ajudar a família. Em março de 1933, Chico se despediu de José Álvaro Santos e, sozinho, tomou o rumo da Central do Brasil.
Enquanto esperava o trem para Pedro Leopoldo, foi surpreendido por dois amigos de seu ex anfitrião. Traziam uma ótima notícia: ele estava empregado.
O rapaz se lembrou do pai, da pobreza, dos irmãos e sentiu vontade de abraçar os dois. Quase chegou à euforia quando ouviu as outras boas novas: teria os estudos pagos no melhor colégio da cidade e ainda receberia dinheiro extra para ajudar em casa.
Havia apenas uma condição: Chico deveria assumir a autoria de Parnaso de Além Túmulo e negar a existência dos espíritos durante duas palestras, uma no auditório da Escola Normal e outra no Teatro Municipal.
O rapaz murchou. Mas ainda teve fôlego para reagir:
- Não posso mentir para mim mesmo. Ouço a voz de minha mãe, escrevo poemas que não são meus. Como posso renegar a verdade?
- Chico, você conhece um passarinho chamado sofrê? Não. O sofrê é um pássaro que imita os outros. Você nasceu com a vocação desse passarinho entre os poetas. Não acredite em espíritos. Esses poemas que você julga psicografar são seus, somente seus.
Nesse momento, Emmanuel apareceu com um de seus trocadilhos:
- Sim, volte a Pedro Leopoldo e procuremos trabalhar. Você não é um sofrê, mas precisa sofrer para aprender.
O rapaz voltou para casa e foi recebido por um pai inconformado. João Cândido encheu a boca para chamar o filho de ingrato. Chico já esperava aquela reação.
Correu para o armazém de José Felizardo Sobrinho, refugiou-se atrás do balcão e sentiu até certo entusiasmo em cortar toucinho para os fregueses e varrer o chão. Estava se sentindo tão à vontade na cidade natal que no dia 23 de setembro daquele ano, às 21h, assinou, como Primeiro Secretário, a ata de posse da primeira diretoria do Pedro Leopoldo Futebol Clube. Parecia até um jovem comum. Quem sabe um dia entrasse em campo e marcasse um gol? Quem sabe chegasse a um bar e pedisse uma cerveja bem gelada ou convidasse uma moça para o cinema? Não. Chico tinha mais o que fazer.
CONTINUA AMANHÃ
quinta-feira, 12 de maio de 2011
PENSAMENTO DO DIA
Quinta feira, 12 de maio de 2011.
Muitos se preocupam com o que os outros dizem a seu respeito, poucos com sua consciência .
Autor: Desconhecido
MENSAGEM DO DIA
Quinta feira, 12 de maio de 2011.
Quando adiamos a colheita, os frutos apodrecem. Mas quando adiamos os problemas, eles não param de crescer
Autor: Paulo Coelho
quarta-feira, 11 de maio de 2011
PENSAMENTO DO DIA
Quarta feira, 11 de maio de 2011.
Autor: Romam Roland
Do que serviria a vida se não fosse para corrigir os erros, vencer os preconceitos e alegrar cada dia nosso coração e nossos pensamentos?
Autor: Romam Roland
MENSAGEM DO DIA
Quarta feira, 11 de maio de 2011.
Autor: Desconhecido
O amor muitas vezes nos confunde porque nos iludimos com coisas que, no ponto de vista de outras, são apenas AVENTURA
Autor: Desconhecido
AS VIDAS DE CHICO XAVIER - O MENINO MAL ASSOMBRADO - 4ª PARTE
CONTINUAÇÃO
ele assinou embaixo F. Xavier - e se sentiu culpado quando recebeu de um crítico português uma carta recheada de pontos de exclamação e adjetivos entusiasmados.
Recebi elogios por um trabalho que não me pertencia.
Em 1931, Chico já não sentia a pressão alucinada na cabeça nem o enrijecimento doloroso no braço. Tinha aprendido a se entregar, a não criar resistência. Às vezes, um volume imaterial aparecia diante de seus olhos e era dali, daquelas páginas invisíveis, que Chico copiava os textos do outro mundo. Em outras ocasiões, escrevia como se alguém lhe ditasse as mensagens e, enquanto colocava as palavras no papel, experimentava no braço a sensação de fluidos elétricos e, no cérebro, vibrações indefiníveis. De vez em quando, esse estado atingia o auge e Chico perdia a sensação do próprio corpo. Sem medo, já podia ser o instrumento passivo dos mortos vivos.
Um feiticeiro. Um maluco incapaz de separar o sonho da realidade. Os rumores persistiam na cidade. Um padre de Belo Horizonte fez um discurso inflamado na igreja de Pedro Leopoldo contra o espiritismo e encerrou o sermão mandando Chico Xavier para o inferno. O rapaz, impressionado, correu para o colo invisível da mãe, contou seu drama e ouviu dela o muxoxo:
- E daí? Ele te mandou para o inferno, mas você não vai. Fique na Terra mesmo...
Poucas semanas depois, um intelectual, também de Minas, desembarcou na cidade. Chico vestiu sua melhor roupa e, com a pasta de poemas debaixo do braço, foi levado por um amigo até o forasteiro. O literato passou os olhos pelos versos, classificou tudo como "bobagem" e, com os olhos fixos no autor, encheu a boca:
- Este rapaz é uma besta.
O amigo de Chico defendeu a inteligência dele, sua dedicação aos espíritos, seu cuidado com os poemas vindos do outro mundo. O intelectual reviu seu julgamento.
É uma besta espírita.
Chico, inconformado, buscou abrigo, mais uma vez, sob as saias de Maria João de Deus.
Viu como eu fui insultado?
Ouviu mais um muxoxo materno:
- Não vejo insulto algum. Acho até que você foi muito honrado. Uma besta é um animal de trabalho. E é valioso e útil, a serviço do espiritismo, quando não dá coices.
Preocupado com a própria "rebeldia" e em estado de depressão, Chico teve mais uma visão.
Um burro teimoso atrelado a uma carroça carregada de documentos puxava a carga e encarava com inveja os companheiros livres no pasto. De vez em quando, enquanto era alimentado com água e alfafa, assistia, de longe, às brigas violentas entre os colegas. Uma sucessão de coices sanguinolentos. Chico olhou aquele burro e pensou: talvez fosse melhor estar sob freios do que estar solto no pasto da vida para escoicear e ser escoiceado.
- Aprendi a lição - disse ele, pronto para receber os arreios.
Chico já estava cansado. Trabalhava, lutava no centro, fazia caridade, escrevia quase por compulsão e continuava desacreditado. Ele reclamava dos incrédulos, se queixava dos comentários envenenados e se entregava à reza. Após uma das várias orações, Maria João de Deus voltou à cena e, em vez de um conselho, sugeriu um remédio.
- Meu filho, para curar essas inquietações, você deve usar água da paz.
Chico saiu à procura do remédio em todas as farmácias de Pedro Leopoldo. Nada.
Recorreu a Belo Horizonte. Nada de novo. Ao fim de duas semanas, comunicou à mãe o fracasso da busca. A aparição ensinou:
- Não precisava viajar. Você poderá obter o remédio em casa mesmo. Pode ser a água do pote.
- Como assim?
- Quando alguém lhe fizer provocações, beba um pouco de água pura e conserve-a na boca.
Não a lance fora nem a engula. Enquanto persistir a tentação de responder, guarde a água da paz banhando a língua.
Chico engoliu a lição do silêncio. E digeriu.
Nessa noite, sentiu o braço movido por alguém.
Tomou o lápis e despejou os versos:
"Meu amigo, se desejas:
paz crescente e guerra pouca,
ajuda sem reclamar
e aprende a calar a boca".
Dessa vez, o recado veio com assinatura: Casimiro Cunha, poeta de Vassouras, morto em 1914.
As visitas do outro mundo começaram a se identificar a partir de 1931. Uma tarde, Chico regava os canteiros de alho na horta de José Felizardo, quando uma voz lhe pediu que ouvisse com atenção um poema inédito: "Vozes de uma Sombra". O dono da voz e dos versos se anunciou como Augusto dos Anjos. E começou a lançar no ar palavras insólitas.
"Donde venho?
Das eras remotíssimas/
Das substâncias elementaríssimas/
Emergindo das cósmicas matérias".
Chico ouvia, regava o alho e perdia o fio da meada.
"Venho dos invisíveis protozoários/
Da confusão dos seres embrionários/
Das células primevas, das bactérias..."
A voz pedia toda a atenção. Precisava recitar os versos naquele momento, durante o entardecer, e naquele cenário. Tudo o inspirava. Chico deveria ouvir as palavras, familiarizar-se com elas e decifrá-las para mais tarde colocar as rimas no papel sem dificuldade.
Corpos multiformes, vultoso abdômen, intensas torpitudes, larvas rudes, animálculo medonho, fótons, galáxias.
O rapaz tropeçava nas sílabas e nos significados daquele palavrório. E, com o regador a tiracolo, parecia um imenso ponto de interrogação.
O poeta invisível perdeu a paciência com a dificuldade do matuto de Pedro Leopoldo em entender os versos e entregou-se a Deus:
- Quer saber de uma coisa? Vou escrever o que puder, pois sua cabeça não agüenta mesmo.
O poema foi destaque do primeiro livro publicado por Chico Xavier, Parnaso de Além-Túmulo, ao lado de outros 56 atribuídos a catorze poetas, todos enterrados.
Para não se perder em meio às palavras desconhecidas, Chico costumava recorrer ao dicionário. Só assim descobria o sentido de algumas delas e corrigia a ortografia de outras.
Os poemas saíam de sua mão acompanhados de assinaturas inacreditáveis: Castro Alves, Alphonsus de Guimarães, Olavo Bilac. Até Dom Pedro II tomou coragem e arriscou versos sobre um Brasil "triste e saudoso", que rimava com "bonançoso", e sobre uma "alma torturada", que combinava com "pátria idolatrada".
Chico aproveitava cada minuto livre para escrever. E, no início, quando a eletricidade nem tinha chegado a Pedro Leopoldo, era surpreendido por acidentes estranhos.
Enquanto prestava atenção aos ditados do além ou sentia as mãos guiadas à revelia, ventos súbitos lançavam velas acesas sobre as mensagens e derrubavam o tinteiro sobre o papel. O rapaz encarava os obstáculos como provação e seguia adiante.
A notícia de suas estripulias lítero espirituais começou a correr. Por essa época, Chico estava no enterro de um amigo, quando um jovem padre se aproximou e perguntou se era verdade que ele recebia mensagens do outro mundo.
Chico confirmou. E o padre aconselhou cautela.
- Os espíritos das trevas têm muita astúcia para seduzir para o mal.
- Mas os espíritos que se comunicam através de mim só ensinam o bem.
Diante da resposta, o padre lançou o desafio.
Puxou um papel em branco do bolso e perguntou se ali, naquele momento, no cemitério, haveria um espírito disposto a se manifestar. Chico, sem hesitar, pegou o papel, se concentrou e, minutos depois, escreveu um soneto intitulado "Adeus". A primeira das quatro estrofes:
"O sino plange em terna suavidade/
no ambiente balsâmico da igreja/
entre as naves, no altar, em tudo adeja/
o perfume dos goivos da saudade".
Assinado: Auta de Souza.
Numa noite de 1931, quando escrevia mais um dos poemas de seu livro de estréia, Chico sentiu o olho esquerdo invadido por fragmentos de areia. Esfregou os grãos imaginários, mas a coceira continuou. Experimentou fixar a lâmpada com a pupila incomodada, mas em vez da luz acesa viu um foco difuso. Mal conseguia enxergar os versos recém escritos e assinados por Casimiro de Abreu. O rapaz ficou assustado e rezou mais uma vez. O Dr. Bezerra apareceu para ele, tateou o olho e diagnosticou:
- Sua vista amoleceu por razões que não podemos saber agora. Prepare-se para ir a tratamento em Belo Horizonte, para que sua família não diga que você ficou sem se tratar por nossa causa. Dois dias depois, um amigo o levou à capital mineira e um oftalmologista diagnosticou:
- Isso é um tipo de catarata obscura e inoperável.
Chico nunca mais se livrou dos grãos de areia e ficou desconfiado de ter sido atacado por "falanges das trevas" interessadas em prejudicar sua tarefa mediúnica. Desde então, todos os dias, ele medicaria o olho doente com colírios à base de cortisona e cloranfenicol.
Na época em que sofria com os primeiros sintomas da catarata, Chico recebeu mais um pedido de socorro no Centro Luiz Gonzaga: um cego, guiado por um bêbado, tinha despencado de uma altura de quatro metros. Desmaiado e ensangüentado, já estava há horas embaixo de um viaduto da cidade.
O rapaz correu para ajudar. Alugou um quarto num velho pardieiro para o homem e conseguiu um médico de graça. Mas o doente precisava de companhia durante o dia, enquanto Chico trabalhava no bar de José Felizardo. O caixeiro publicou um anúncio no jornal semanal da cidade pedindo socorro. Seis dias depois, duas moças apareceram dispostas a ajudar o enfermo durante o dia. Trabalhavam à noite: eram prostitutas. A recuperação do doente durou um mês. Após acompanhar as rezas de Chico, as duas decidiram mudar de vida. Foram para Belo Horizonte. Uma se empregou numa tinturaria, a outra tornou-se enfermeira.
Foi o primeiro de uma série de encontros entre Chico e as "nossas irmãs que comercializam a força sexual", segundo um dos eufemismos usados por ele. Meses depois, um amigo de seu pai o convidou para dar um passeio à noite e o levou ao bordel. Chico não se apavorou nem se inibiu. Perguntou o porquê daquele programa.
O acompanhante confessou: estava atendendo a um pedido do pai de Chico, preocupado com a virgindade tardia do filho. O rapaz perdeu a paciência e, rispidamente, disse que se quisesse ir até ali não precisaria de guia.
Ao entrar no salão, ele foi reconhecido.
Vejam quem está aqui... Vamos fazer uma prece juntos.
As mulheres não estavam brincando. De repente, o bordel virou um centro espírita improvisado. Preces, passes, "uma grande alegria cristã", segundo Chico. "Uma chatice", segundo quatro candidatos a uma noitada nada católica.
O rapaz saiu de lá intacto.
CONTINUA AMANHÃ
Recebi elogios por um trabalho que não me pertencia.
Em 1931, Chico já não sentia a pressão alucinada na cabeça nem o enrijecimento doloroso no braço. Tinha aprendido a se entregar, a não criar resistência. Às vezes, um volume imaterial aparecia diante de seus olhos e era dali, daquelas páginas invisíveis, que Chico copiava os textos do outro mundo. Em outras ocasiões, escrevia como se alguém lhe ditasse as mensagens e, enquanto colocava as palavras no papel, experimentava no braço a sensação de fluidos elétricos e, no cérebro, vibrações indefiníveis. De vez em quando, esse estado atingia o auge e Chico perdia a sensação do próprio corpo. Sem medo, já podia ser o instrumento passivo dos mortos vivos.
Um feiticeiro. Um maluco incapaz de separar o sonho da realidade. Os rumores persistiam na cidade. Um padre de Belo Horizonte fez um discurso inflamado na igreja de Pedro Leopoldo contra o espiritismo e encerrou o sermão mandando Chico Xavier para o inferno. O rapaz, impressionado, correu para o colo invisível da mãe, contou seu drama e ouviu dela o muxoxo:
- E daí? Ele te mandou para o inferno, mas você não vai. Fique na Terra mesmo...
Poucas semanas depois, um intelectual, também de Minas, desembarcou na cidade. Chico vestiu sua melhor roupa e, com a pasta de poemas debaixo do braço, foi levado por um amigo até o forasteiro. O literato passou os olhos pelos versos, classificou tudo como "bobagem" e, com os olhos fixos no autor, encheu a boca:
- Este rapaz é uma besta.
O amigo de Chico defendeu a inteligência dele, sua dedicação aos espíritos, seu cuidado com os poemas vindos do outro mundo. O intelectual reviu seu julgamento.
É uma besta espírita.
Chico, inconformado, buscou abrigo, mais uma vez, sob as saias de Maria João de Deus.
Viu como eu fui insultado?
Ouviu mais um muxoxo materno:
- Não vejo insulto algum. Acho até que você foi muito honrado. Uma besta é um animal de trabalho. E é valioso e útil, a serviço do espiritismo, quando não dá coices.
Preocupado com a própria "rebeldia" e em estado de depressão, Chico teve mais uma visão.
Um burro teimoso atrelado a uma carroça carregada de documentos puxava a carga e encarava com inveja os companheiros livres no pasto. De vez em quando, enquanto era alimentado com água e alfafa, assistia, de longe, às brigas violentas entre os colegas. Uma sucessão de coices sanguinolentos. Chico olhou aquele burro e pensou: talvez fosse melhor estar sob freios do que estar solto no pasto da vida para escoicear e ser escoiceado.
- Aprendi a lição - disse ele, pronto para receber os arreios.
Chico já estava cansado. Trabalhava, lutava no centro, fazia caridade, escrevia quase por compulsão e continuava desacreditado. Ele reclamava dos incrédulos, se queixava dos comentários envenenados e se entregava à reza. Após uma das várias orações, Maria João de Deus voltou à cena e, em vez de um conselho, sugeriu um remédio.
- Meu filho, para curar essas inquietações, você deve usar água da paz.
Chico saiu à procura do remédio em todas as farmácias de Pedro Leopoldo. Nada.
Recorreu a Belo Horizonte. Nada de novo. Ao fim de duas semanas, comunicou à mãe o fracasso da busca. A aparição ensinou:
- Não precisava viajar. Você poderá obter o remédio em casa mesmo. Pode ser a água do pote.
- Como assim?
- Quando alguém lhe fizer provocações, beba um pouco de água pura e conserve-a na boca.
Não a lance fora nem a engula. Enquanto persistir a tentação de responder, guarde a água da paz banhando a língua.
Chico engoliu a lição do silêncio. E digeriu.
Nessa noite, sentiu o braço movido por alguém.
Tomou o lápis e despejou os versos:
"Meu amigo, se desejas:
paz crescente e guerra pouca,
ajuda sem reclamar
e aprende a calar a boca".
Dessa vez, o recado veio com assinatura: Casimiro Cunha, poeta de Vassouras, morto em 1914.
As visitas do outro mundo começaram a se identificar a partir de 1931. Uma tarde, Chico regava os canteiros de alho na horta de José Felizardo, quando uma voz lhe pediu que ouvisse com atenção um poema inédito: "Vozes de uma Sombra". O dono da voz e dos versos se anunciou como Augusto dos Anjos. E começou a lançar no ar palavras insólitas.
"Donde venho?
Das eras remotíssimas/
Das substâncias elementaríssimas/
Emergindo das cósmicas matérias".
Chico ouvia, regava o alho e perdia o fio da meada.
"Venho dos invisíveis protozoários/
Da confusão dos seres embrionários/
Das células primevas, das bactérias..."
A voz pedia toda a atenção. Precisava recitar os versos naquele momento, durante o entardecer, e naquele cenário. Tudo o inspirava. Chico deveria ouvir as palavras, familiarizar-se com elas e decifrá-las para mais tarde colocar as rimas no papel sem dificuldade.
Corpos multiformes, vultoso abdômen, intensas torpitudes, larvas rudes, animálculo medonho, fótons, galáxias.
O rapaz tropeçava nas sílabas e nos significados daquele palavrório. E, com o regador a tiracolo, parecia um imenso ponto de interrogação.
O poeta invisível perdeu a paciência com a dificuldade do matuto de Pedro Leopoldo em entender os versos e entregou-se a Deus:
- Quer saber de uma coisa? Vou escrever o que puder, pois sua cabeça não agüenta mesmo.
O poema foi destaque do primeiro livro publicado por Chico Xavier, Parnaso de Além-Túmulo, ao lado de outros 56 atribuídos a catorze poetas, todos enterrados.
Para não se perder em meio às palavras desconhecidas, Chico costumava recorrer ao dicionário. Só assim descobria o sentido de algumas delas e corrigia a ortografia de outras.
Os poemas saíam de sua mão acompanhados de assinaturas inacreditáveis: Castro Alves, Alphonsus de Guimarães, Olavo Bilac. Até Dom Pedro II tomou coragem e arriscou versos sobre um Brasil "triste e saudoso", que rimava com "bonançoso", e sobre uma "alma torturada", que combinava com "pátria idolatrada".
Chico aproveitava cada minuto livre para escrever. E, no início, quando a eletricidade nem tinha chegado a Pedro Leopoldo, era surpreendido por acidentes estranhos.
Enquanto prestava atenção aos ditados do além ou sentia as mãos guiadas à revelia, ventos súbitos lançavam velas acesas sobre as mensagens e derrubavam o tinteiro sobre o papel. O rapaz encarava os obstáculos como provação e seguia adiante.
A notícia de suas estripulias lítero espirituais começou a correr. Por essa época, Chico estava no enterro de um amigo, quando um jovem padre se aproximou e perguntou se era verdade que ele recebia mensagens do outro mundo.
Chico confirmou. E o padre aconselhou cautela.
- Os espíritos das trevas têm muita astúcia para seduzir para o mal.
- Mas os espíritos que se comunicam através de mim só ensinam o bem.
Diante da resposta, o padre lançou o desafio.
Puxou um papel em branco do bolso e perguntou se ali, naquele momento, no cemitério, haveria um espírito disposto a se manifestar. Chico, sem hesitar, pegou o papel, se concentrou e, minutos depois, escreveu um soneto intitulado "Adeus". A primeira das quatro estrofes:
"O sino plange em terna suavidade/
no ambiente balsâmico da igreja/
entre as naves, no altar, em tudo adeja/
o perfume dos goivos da saudade".
Assinado: Auta de Souza.
Numa noite de 1931, quando escrevia mais um dos poemas de seu livro de estréia, Chico sentiu o olho esquerdo invadido por fragmentos de areia. Esfregou os grãos imaginários, mas a coceira continuou. Experimentou fixar a lâmpada com a pupila incomodada, mas em vez da luz acesa viu um foco difuso. Mal conseguia enxergar os versos recém escritos e assinados por Casimiro de Abreu. O rapaz ficou assustado e rezou mais uma vez. O Dr. Bezerra apareceu para ele, tateou o olho e diagnosticou:
- Sua vista amoleceu por razões que não podemos saber agora. Prepare-se para ir a tratamento em Belo Horizonte, para que sua família não diga que você ficou sem se tratar por nossa causa. Dois dias depois, um amigo o levou à capital mineira e um oftalmologista diagnosticou:
- Isso é um tipo de catarata obscura e inoperável.
Chico nunca mais se livrou dos grãos de areia e ficou desconfiado de ter sido atacado por "falanges das trevas" interessadas em prejudicar sua tarefa mediúnica. Desde então, todos os dias, ele medicaria o olho doente com colírios à base de cortisona e cloranfenicol.
Na época em que sofria com os primeiros sintomas da catarata, Chico recebeu mais um pedido de socorro no Centro Luiz Gonzaga: um cego, guiado por um bêbado, tinha despencado de uma altura de quatro metros. Desmaiado e ensangüentado, já estava há horas embaixo de um viaduto da cidade.
O rapaz correu para ajudar. Alugou um quarto num velho pardieiro para o homem e conseguiu um médico de graça. Mas o doente precisava de companhia durante o dia, enquanto Chico trabalhava no bar de José Felizardo. O caixeiro publicou um anúncio no jornal semanal da cidade pedindo socorro. Seis dias depois, duas moças apareceram dispostas a ajudar o enfermo durante o dia. Trabalhavam à noite: eram prostitutas. A recuperação do doente durou um mês. Após acompanhar as rezas de Chico, as duas decidiram mudar de vida. Foram para Belo Horizonte. Uma se empregou numa tinturaria, a outra tornou-se enfermeira.
Foi o primeiro de uma série de encontros entre Chico e as "nossas irmãs que comercializam a força sexual", segundo um dos eufemismos usados por ele. Meses depois, um amigo de seu pai o convidou para dar um passeio à noite e o levou ao bordel. Chico não se apavorou nem se inibiu. Perguntou o porquê daquele programa.
O acompanhante confessou: estava atendendo a um pedido do pai de Chico, preocupado com a virgindade tardia do filho. O rapaz perdeu a paciência e, rispidamente, disse que se quisesse ir até ali não precisaria de guia.
Ao entrar no salão, ele foi reconhecido.
Vejam quem está aqui... Vamos fazer uma prece juntos.
As mulheres não estavam brincando. De repente, o bordel virou um centro espírita improvisado. Preces, passes, "uma grande alegria cristã", segundo Chico. "Uma chatice", segundo quatro candidatos a uma noitada nada católica.
O rapaz saiu de lá intacto.
CONTINUA AMANHÃ
terça-feira, 10 de maio de 2011
PENSAMENTO DO DIA
Terça feira, 10 de maio de 2011.
Autor: Desconhecido
Às vezes perdemos grandes oportunidades pelo simples medo de tentar. Nunca deixe que isso lhe aconteça. Vá em frente e lute pelo que deseja.
Autor: Desconhecido
MENSAGEM DO DIA
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