segunda-feira, 12 de novembro de 2012

PENSAMENTO DO DIA



Não se culpe pelos seus erros, mas sim se corrija com eles.
 

MENSAGEM DIÁRIA



Na vida não existem experiências, voltas e nem consertos verdadeiros, experimente amar a si mesmo, pra saborear o gosto da vida.
 

SEXO E DESTINO - LIVRO DE CHICO XAVIER

CONTINUAÇÃO

Segunda Parte
 
Médium:
 
Francisco Cândido Xavier

Capítulo 1

Quase cinco da manhã, quando nos vimos na intimidade dos Nogueiras.
A casa jazia quieta. Peças mudas, silêncio.
Agitava-se, porém, Dona Márcia, sob a colcha leve, cansada de vigília. Varara a noite em aflição. Na penumbra do quarto, apoiava o cotovelo no travesseiro e a cabeça na mão, de pensamento longe. Tinha os olhos empapuçados de chorar. A filha adotiva não voltara. Ansiosa, esperava que o dia se levantasse...
Telefonaria para a residência dos Torres, para saber do regresso de Marina. Se preciso, chamaria Teresópolis. Queria comunicarse com alguém, desentranhar-se. Sentia medo, o coração palpitava catástrofe.
Consultei-a mentalmente, procurando noticias de Cláudio.
Alcancei-lhe a resposta inarticulada. Supondo reconsiderar os sucessos da noite, passou a lembrar-lhe o retorno, horas antes, totalmente embriagado. Chegara tateando paredes, esbarrando com os móveis. Inferira que ele tentara afogar o remorso em copázios de uísque. Ouvira-lhe os vômitos, escutara-lhe as descomposturas à porta, mas trancara-se, precavida. Carraspana e ressaca rematando a criminosa aventura... Não desejava cenas.
Súbito, quebrou a linha de reflexões em que penetrara. Repeliu-me a influência, convicta de estar reafirmando para si mesma que atingira o ponto final da tolerância... Nada mais com Cláudio.
Convertera a mágoa em nojo. Aspirava a nova atitude, suspirava por desquitar-se, fugir...
Deixamo-la engolfada nas alegações negativas, buscando o aposento dos fundos. Nogueira aí se despejara em cama de solteiro, completamente equipado, sem alijar nem mesmo o paletó.
Estirava-se de lado, a expelir saliva grossa pelo canto da boca, ressonando, tranqüilo, e, com ele, o vampirizador, relaxado sob os efeitos do álcool. Ambos largados, embrutecidos.
Demorava-me na inspeção, quando a campainha do telefone retiniu.
Com certeza, irmão Félix obtivera meios de abrir-me alguma porta, a fim de que me fosse possível atuar, favoravelmente.
Imprescindível atacar o problema, advogar a proteção de que fora incumbido.
Tornei à sala.
Dona Márcia, em “baby-doll”, punha o fone ao ouvido, carregada de escuros pressentimentos.
A voz de um homem simples repontou no auscultador:
– Estou falando com o “seu” Cláudio Nogueira?
– Na casa dele.
– Ele está?
Dona Márcia reconhecia de todo impraticável o ensaio de
qualquer conversação com o esposo, escornado àquela hora, e respondeu, positiva:
– Não, não está.
– Quero falar com ele ou com a madama.
A interlocutora, experiente demais em trotes e adestrada no jogo das conveniências sociais, pressupôs estar em contacto com
algum novo despropósito do marido, e indagou, prudente:
– Com quem estou falando?
– Com Zeca, lixeiro. Estou em Copacabana, preciso dar notícia de um desastre.
– Que desastre?
– A senhora é a dona da casa?
– Não sou, mas trabalho aqui. Sou empregada...
Dona Márcia receava cair em complicações, na hipótese de transpor as raias do anonimato, e, a vista disso, antes que o desconhecido revidasse, acrescentou:
– Os patrões estão ausentes, mas posso dar o recado.
– Olhe – gaguejou o informante –, o caso é com Dona Marita, a moça da loja.
– Que há? diga, por favor, que há?
A senhora Nogueira sentiu-se traspassada de angústia, enquanto, de minha parte, concluía que Félix angariara o concurso de um lixeiro prestimoso para transmitir a notícia, preparando o terreno que me cabia encaminhar ao plantio da compaixão.
– Diga aos patrões que ela foi atropelada...
– Onde? como? quando?
– Bem, eu não sei como foi, mas vi que era ela...
– Agora?
– Há uma boa meia hora, aqui perto, na Avenida Atlântica...
– Está aí?
– Não está, a ambulância já levou.
– Mas o senhor tem certeza?
– Tenho toda a certeza... Ela estava sem bolsa, ninguém a reconheceu...
Mas eu conheço Dona Marita, foi sempre amiga de minha mulher desde que veio para cá. Minha mulher é empregada no edifício da loja... Coitada de Dona Marita, moça tão boa! Ela é que conseguiu lugar para minhas duas filhas na escola!...
– Mas, escute – Dona Márcia cortou as referências, terrivelmente chocada –, como está ela?
– Dizem que morreu...
Embora calejada contra as emoções, a esposa de Cláudio abandonou o fone e afastou-se, pálida.
Arremessou-se à cama e agarrou a própria cabeça, entre as mãos, julgando enlouquecer...
– Morta! Marita morta! – refletiu, atribulada.
Recordou o ultraje que a pobre menina experimentara naquela noite que o dia nascente esfumara, qual se expulsasse um pesadelo, e a mente divagou... Aracélia, a servidora e amiga... Vinte anos antes. O suicídio!... E agora a filha, na mesma tragédia, com o mesmo homem... Decerto, Marita, envergonhada, procurara a morte. Inexperiente, sucumbira. Ajustava argumentos por dedução. Crescina falara-lhe de encontro com Gilberto, no entanto, apanhara Cláudio em desconcerto flagrante. Tudo indicava a intromissão dele em algum arranjo dos jovens, para infligir à filha o imperdoável insulto... Indubitavelmente, a desventurada menina preferira morrer...
Nesse entretempo, intervim. Assimilei-lhe os pensamentos de simpatia e fi-la meditar nas tribulações de Marita, dentro da noite, esforçando-me por incliná-la à compaixão... Largasse o marasmo, sacudisse Cláudio, chamasse, implorasse... Se o marido não estivesse em condições de compreendê-la, que ela própria saísse à rua... Procurasse a moça... Telefonasse à Polícia, refletisse nela, como sendo sua própria filha... Corresse ao Pronto Socorro da Zona Sul, inquirisse funcionários, ouvisse médicos, visitasse a morgue... Alguém auxiliaria, encontraria a criatura que a Providência Divina lhe pusera nas mãos... Quem saberia? Talvez que ela ainda estivesse nas raias do fim a esperar-lhe as mãos piedosas, como quem aguarda uma bênção!...
Dona Márcia ouviu mentalmente. Ao recolher-me as sugestões, imaginou a filha estendida no necrotério, comoveu-se e chorou...

CONTINUA AMANHÃ

DIVALDO FRANCO BEZERRA DE MENEZES - PARTE 3

domingo, 11 de novembro de 2012

CONSELHO DO DIA



Este é o conselho que a Imitação de Cristo lhe dá para hoje:
 
Desprendei-me e arrancai-me de toda transitória consolação das criaturas, porque nenhuma coisa criada pode consolar-me plenamente ou satisfazer meus desejos. 
 
Uni-me convosco pelo vínculo indissolúvel do amor, porque só vós bastais a quem vos ama, e sem vós tudo o mais é vaidade. Amém. ( Das quatro coisas que produzem grande paz)

Certamente estas palavras se referem a alguma necessidade sua.
Mas isso só você saberá entender.




PENSAMENTO DO DIA




Os ignorantes, que acham que sabem tudo, privam-se de uma dos maiores prazeres da vida: APRENDER.
 

MENSAGEM DIÁRIA



Nunca segure uma lágrima para mostrar que tem força, mas deixe-a rolar para mostrar que tem sentimento .
 

SEXO E DESTINO - LIVRO DE CHICO XAVIER

CONTINUAÇÃO

para que a jovem não se afastasse, em espírito, do corpo desgovernado, passes reconfortantes nos centros de força, estímulos variados em diversas seções do campo cerebral, insuflações nos vasos sanguíneos. Operações minuciosas e demoradas. Acupuntura magnética do plano espiritual, em que o orientador patenteava notável mestria.
Quase quatro horas foram despendidas, ao fim das quais, Marita repousava tranqüilamente.
Reconfortado, via nos olhos do benfeitor a esperança luzindo...
Nisso, porém, um “gari” asselvajado largou a rua e caminhou em nossa direção, regando a areia... Dando com os olhos na menina adormecida, sentiu-se mordiscado de curiosidade. Não valeram recursos manobrados pelos vigias. O fanfarrão, relativamente
moço, avançou para ela e sacudiu-a, rouquejando: “acorda, vagabunda”, “acorda, vagabunda”.
Feriram-se-me as fibras do sentimento, não só pela criança injustamente maltratada, mas também pela imensa dor que se estampou no semblante de Félix que, pela expressão agoniada, tudo daria para materializar as mãos e impedir aquele assalto.
“Acorda, vagabunda”, “acorda, vagabunda”...
As palmadas estalavam no rosto, cujas lágrimas o vento enxugara, piedosamente.
Frustrados, vimo-la abrir os olhos, estarrecida.
Que homenzarrão aquele que, ao vê-la estremecer, não se pejava de comprimir-lhe o busto com as mãos libidinosas?
Não obstante atordoada, perguntava a si mesma se teria morrido, se estaria no inferno renteando com um demônio...
Intentou gritar, mas a garganta esmorecera. Mesmo assim, ergueu-se, aterrada, e aligeirou o passo, cambaleante. Superando embaraços, ganhou a calçada em que um banco orvalhado convidava ao repouso, porém, não dispunha de serenidade para assimilar-nos as sugestões. Pisou, atarantada, no asfalto, indiferente aos princípios do trânsito... Oscilou, aqui e ali, estremunhada...
Automóveis deslizavam velozes, lambretas estrondeavam em correria. Pedestres iam e vinham, diligenciando alcançar o trabalho a distância ou regressando ao aconchego doméstico, depois das atividades noturnas. Agitavam-se funcionários da limpeza e veículos ocupados em serviços da madrugada.
Preparava a cidade o dia novo.
Seguíamos a pobre menina, espíritos contundidos por amargos presságios.
Parecia-me Félix um educador venerando, repentinamente descido a saracoteios na via pública, no propósito de salvar uma criança querida. Entre simpatia e respeito, eu acompanhava, penalizado, o grande instrutor que se apequenava e se afligia por ajudar...
Rapazes semi-embriagados na esquina próxima, ao fitarem Marita, vacilante, gargalharam, invectivando: “tipa de pileque! tipa de pileque!” Motoristas de passagem gritavam-lhe injúrias, e, sem que aparecesse algum braço humano que a sustentasse no atordoamento que lhe impunha reiterados tropeções, foi colhida e projetada a pequena distância, por automóvel em velocidade excessiva, qual trapo de carne que se arremessasse, violentamente, no chão.
O carro chispou, transeuntes acorreram.
Moças que regressavam de excursões alegres gritaram, alarmadas.
Uma delas prorrompeu em choro histérico, sendo contida à força. No trânsito interrompido, em que debalde se buscava positivar responsabilidades, todos os veículos despejavam curiosos que se reuniam em torno da jovem, inerme. 
O corpo planara, a cabeça batera contra a pedra e, em seguida a curta reviravolta, caíra de bruços.
Pessoalmente, achávamo-nos atônitos. Não contávamos com experiência bastante para ocasiões qual aquela em que o desastre consumado exigia improvisações. Todavia, entre os clamores de quantos apelavam para o socorro policial, irmão Félix sentara-se no asfalto. Aplicando vigorosos estímulos magnéticos sobre a cabeça da menina acidentada, fê-la cobrar energias para ganhar, mecanicamente, o decúbito dorsal, a fim de que respirasse indene de maiores dificuldades, através de movimentos que, para muitos dos circunstantes, significavam esgares da morte.
Marita aquietara-se de todo.
Tive a nítida impressão de que a base do crânio se fraturara, mas não me era lícita qualquer inquirição. A carga emocional pesava em demasia, para que me fossem possíveis quaisquer considerações de ordem técnica.
O irmão Félix, na atitude dos pais, profundamente humanos e sofredores, acomodava-se de tal modo que a cabeça da jovem se lhe estendia no regaço. Erguendo as mãos sobre as narinas em sangue, levantou os olhos e orou em voz alta, que eu destacava da multidão em crescente vozerio:
– Deus de Infinito Amor, não permitas que tua filha seja expulsa da casa dos homens, assim, sem nenhuma preparação!... Dános, Pai, o benefício do sofrimento que nos consinta meditar! Ó Deus de amor, mais uns dias para ela, no corpo dolorido, algumas horas só que sejam!...
Calou-se o instrutor, como qualquer criatura terrestre, machucada de angústia...
Logo após, acenou para mim e recomendou-me demandar o apartamento do Flamengo, para observar o que seria razoável obter, no tocante a medidas de auxílio. Que eu procurasse Cláudio ou Márcia, que lhes suplicasse apoio, compaixão. Ele, Félix, inspiraria alguém a telefonar. Os Nogueiras estariam entre ele e eu, a fim de que se inteirassem do acidente e fossem mentalmente movidos à piedade... Permaneceria ali, velando, fazendo quanto pudesse para que a desencarnação imediata não se verificasse...
Quando eu voltasse do Flamengo, reunir-nos-íamos de novo...
Ao vê-lo assim humilhado na abnegação de que dava testemunho, arranquei-me à pressa, não só para atender à incumbência, mas também para desabafar-me. Às vezes, é preciso que as lágrimas nos sirvam de confidentes, quando não haja alguém que nos ouça... Tanto trabalho daquele benfeitor sublime para salvar uma criança gravada de duras provas!... Tanto sacrifício de um orientador, cuja grandeza se quintessenciara nas Esferas Superiores, para ofertar-lhe os braços; entretanto, o malogro de tudo se me afigurava inevitável...
Antes que me arremessasse, da Avenida Atlântica para o Túnel Novo, ouvi muitas vozes que se elevavam, exclamando: “morta!... morta!...” Incapaz de sopitar as lágrimas, voltei-me para contemplar no rosto do irmão Félix o efeito de semelhante notícia, mesmo: “tudo inútil, tudo inútil!...” Mas, vigoroso impacto de esperança me banhou o coração!... Tive a idéia de que fontes imponderáveis de energia jorravam do firmamento claro e estrelado sobre aquele recanto de Copacabana, que o mar acariciava de perto, como a rogar-nos confiança em Deus, na linguagem ciciante das ondas!...
Não!... A batalha não arrefecera!...
Tínhamos conosco o suprimento do amor e a luz da oração!...
Nem tudo estava perdido...
O benfeitor, guardando paternalmente nos braços aquela criança desfalecida, fixava os olhos nas alturas e, recolhido a profundo silêncio, parecia agora falar com o Infinito.

--- Fim da Primeira Parte ---

CONTINUA AMANHÃ

DIVALDO FRANCO BEZERRA DE MENEZES - PARTE 2