quinta-feira, 17 de maio de 2012

OS MENSAGEIROS - LIVRO DE CHICO XAVIER



CONTINUAÇÃO 

 CAPÍTULO 27 

O CALUNIADOR 

Enquanto o administrador se entregava a conversações educativas com os numerosos subordinados, Aniceto chamou-nos a pequena construção isolada e falou: – Vejamos outro ensinamento. 
Avançamos na direção de algumas câmaras separadas. 
Nosso instrutor abriu uma porta e vimos um louco, que parecia fundamente irritado. 
Fixou em nós o olhar inexpressivo e gritou estentoricamente. 
Aniceto, porém, adiantou-se e cumprimentou- o, atencioso: – Como vai, Paulo? 
As palavras, ao que senti, emitiram certo fluxo magnético e o enfermo revelou profunda modificação. Aquietou-se de súbito. 
Sentou-se mais calmo, embora trêmulo e espantadiço. – Tem sentido melhoras, Paulo? – perguntou nosso orientador, bondosamente, tocando-o no ombro. 
Ao contacto pessoal de Aniceto, o doente mostrou algum raciocínio e respondeu: – Vou melhorando, graças... 
A vista da expressão reticenciosa, o instrutor falou em tom firme, como se desejasse auxiliar-lhe a vontade enfraquecida: – Termine! O doente fez enorme esforço e concluiu: – Graças a Deus! Anotando-lhe o sofrimento e a indecisão, lembrei dos enfermos das Câmaras, aos quais prestava Narcisa ampla colaboração  afetuosa. Percebendo-me as íntimas considerações, disse o mentor esclarecido: – Vêem a diferença entre os que dormem, os que estão loucos e os que sofrem? Em “Nosso Lar” não temos dos primeiros, e os que se encontram desequilibrados, nos serviços da Regeneração, sentem, na maioria, angústias cruéis. 
É necessário reconheçamos que os que gemem e sofrem, em qualquer parte, estão melhorando. 
Toda lágrima sincera é bendito sintoma de renovação. 
Os escarnecedores, os ironistas e os perturbados que não registram a dor são mais dignos de piedade, por permanecerem embotados em estranha rigidez de entendimento. 
E, designando o enfermo sob nossos olhos, afirmou: – Paulo é um doente a caminho de melhora positiva. 
Ainda não possui a consciência exata da situação, mas já chora, já padece com as recordações do passado triste. 
Recebi o esclarecimento com atenção. Lembrei-me que, de fato, os doentes conduzidos pelos Samaritanos a “Nosso Lar”, em serviço diário, eram grandes sofredores. Os que não acusavam padecimentos atrozes, revelavam estranho pavor das sombras. 
A única entidade que ali observara, com absoluta inconsciência da própria miséria, fora a de pobre vampiro que não encontrara guarida nas Câmaras de Retificação. 
Nosso instrutor, sem qualquer preocupação de transformar o doente em cobaia, recomendou, afetuoso: – Concentrem no Paulo a capacidade de visão! 
Estimulado pela experiência anterior, fixei nele todo o meu potencial de observação. 
Aos poucos, caracterizou-se a meus olhos a sua tela mental, parecendo formada em compacta sombra noturna. 
Com surpresa, divisei formas diversas que se movimentavam. 
Vários vultos de mulher ali surgiam, despertando-me enorme admiração. 
Entre eles, reparei o de Ismália como que doente, enfraquecida, ansiosa. 
Alguns homens passavam, igualmente, mostrando desesperação, e notei, nessas imagens, o próprio Alfredo a evidenciar cansaço e extrema velhice prematura. 
Vozes misteriosas se faziam ouvir. 
Sobre Paulo choviam maldições e blasfêmias. As mulheres pareciam acusá-lo, clamorosamente; os homens davam idéia de perseguidores ferozes, ocultos no mundo interior daquele enfermo estranho. 
Observando, porém, que os vultos de Ismália e Alfredo se movimentavam naquele painel escuro, não pude sofrear a curiosidade e interrompi o minucioso exame, voltando a conversar com o nosso orientador, perguntando: – Como explicar o fenômeno? Estou assombrado! 
Antes, porém, que pudesse expressar maiormente o espanto que me dominara, Aniceto ajuntou: – Já sei. 
Admira-se da presença de Ismália e do seu marido nas reminiscências do enfermo. E, ante a minha perplexidade, continuou: – Lembram-se da história de Alfredo? 
Temos diante de nós o falso amigo que lhe arruinou o lar. 
Paulo, contudo, não somente cometeu a ingratidão, como envenenou o espírito doutras senhoras, traiu outros amigos e destruiu a alegria e a paz doutros santuários domésticos. 
Observando Ismália aflita e Alfredo desesperado, nas recordações dele, vemos as imagens criadas pelo caluniador, para seus próprios olhos. 
Nossos amigos deste Posto evoluíram, transpuseram a fronteira da mágoa, escaparam aos monstros do ódio, vestem-se hoje de luz; no entanto, Paulo os vê como imagina, para escarmento de suas culpas. 
O criminoso nunca consegue fugir da verdadeira justiça universal, porque carrega o crime cometido, em qualquer parte. 
Tanto nos círculos carnais, como aqui, a paisagem real do Espírito é a do campo interior. Viveremos, de fato, com as criações mais intimas de nossa alma.  
Reparando-me a dificuldade para compreender de pronto, Aniceto prosseguiu, depois de pequeno intervalo: – Para melhor elucidação, recordemos a crucificação do Mestre Divino. 
Sabemos que Jesus penetrou na glória sublime logo após a suprema dor do Calvário; entretanto, estamos ainda a vê-lo freqüentemente pendurado na cruz, martirizado pelos nossos erros, flagelado pelos nossos açoites, porque a visão interior a isso nos compele. 
A condenação do Mestre foi um crime coletivo e esse crime estará conosco até ao dia em que nos vestirmos na divina luz da redenção. 
O esclarecimento não poderia ser mais lúcido. 
Sentia-me diante de nobre revelação. – O dever possui as bênçãos da confiança, mas a dívida tem os fantasmas da cobrança – tornou o generoso mentor, com grave acento. 
Readquirindo a serenidade, interroguei: – Mas Paulo veio ter casualmente a este Posto? – Não – respondeu Aniceto, atencioso –; foi trazido pelo próprio Alfredo, que se sentiu necessitado de disciplinar o coração. Nosso amigo, que hoje dirige esta casa de amor, desprendeu-se do mundo, sob intensa vibração de ódio e desesperação. 
Sofreu muitíssimo nos primeiros tempos, embora nunca fosse abandonado pela dedicação da abnegada companheira. 
Alfredo, todavia, não pôde ver Ismália enquanto não se desvencilhou das baixas manifestações do rancor. Socorrido em “Campo da Paz”, compreendeu as próprias necessidades. 
Tão logo adquiriu algum mérito, intercedeu pelo amigo infiel, buscou-o em recanto abismal, e tão nobremente se dedicou ao aperfeiçoamento de si mesmo, que conquistou a posição de administrador de um Posto de Socorro. 
Trouxe o tutelado em sua companhia e trata-o como irmão, atualmente. Não julguem que o marido de Ismália conseguiu essa   vitória espiritual tão somente pelo fato de desejá-la. 
Ele desejou-a, procurou-a, alimentou-a e, agora, permanece na realização. 
Há muitos anos conversa com Paulo, diariamente. 
Nos primeiros tempos, aproximava-se do enfermo, como necessitado de reconciliação; depois, como pessoa caridosa; mais tarde adquiriu entendimento, comparando situações; em seguida, sentiu piedade; logo após, experimentou simpatia e, presentemente, conquistou a verdadeira fraternidade, o amor sublime de irmão pelo ex-inimigo. 
Fazendo pequena pausa, voltou a dizer, espirituosamente: – Como vêem, o ensinamento de Jesus, quanto ao “batei e abrir-se-vos-á”, é muito extenso. 
No plano da carne, insistimos à porta das coisas exteriores, procurando facilidades e vantagens; mas, aqui, temos de bater à porta de nós mesmos, para encontrar a virtude e a verdadeira iluminação. 
Vicente, que até então se conservara calado, indagou: – Paulo, todavia, permanecerá aqui, indefinidamente? Nosso instrutor fez um gesto significativo e concluiu: – Voltará breve à Terra. Ismália tem feito a seu favor inúmeras intercessões e não deseja que ele, ao retomar a razão plena, se sinta humilhado, com o beneficio das próprias vítimas. 
Uma das irmãs, por ele caluniada no mundo, já voltou ao círculo carnal, e a abnegada esposa de Alfredo pediu-lhe que recebesse Paulo como filho, tão logo seja oportuno. 

CONTINUA AMANHÃ

A PACIENCIA - MENSAGENS ESPÍRITAS

quarta-feira, 16 de maio de 2012

PENSAMENTO DO DIA


Sonhamos todas as noites e acordamos em função destes sonhos, porém vivemos na mesmice por medo de fazer uma escolha.

 Autor: Desconhecido

MENSAGEM DO DIA


O melhor caminho para se sair de uma dificuldade é através dela. 

Autor: Desconhecido

OS MENSAEIROS - LIVRO DE CHICO XAVIER

CONTINUAÇÃO 

 CAPÍTULO 26 
 OUVINDO SERVIDORES

 Notei que o trabalho no Posto se desenvolvia em ambiente da mais bela camaradagem, não obstante o respeito natural às noções de hierarquia. 
Enquanto palestrávamos animadamente, Ismália recebia servidoras numerosas, em atitude verdadeiramente maternal, embora muitas mostrassem o rosto envelhecido, parecendo avós da esposa do administrador. 
Aniceto nos ministrava lições de vulto, extraídas de circunstâncias aparentemente inexpressivas, e Alfredo recebia os colaboradores de todas as condições, não só com espírito de solidariedade, mas também de imenso afeto. 
Ria-se carinhosamente ou fornecia pareceres, sem o mínimo gesto de impaciência ou irritação. 
Aquele clima de concórdia fazia-me enorme bem. 
Tudo respirava ordem e compreensão, bondade e harmonia. 
A atitude paterna do administrador do Posto de Socorro, expressa em energia e amizade, organização e entendimento, atraía-me com força. Pedi permissão ao nosso orientador para ouvir os esclarecimentos prestados àqueles numerosos cooperadores. 
Aproximei-me, impressionado. 
Nesse momento, um colaborador de maneiras simpáticas dirigia-lhe a palavra, com grande interesse. 
Tratava-se de um velhinho de humilde expressão, que lhe falava com mostras de justo respeito. – E o senhor recebeu as noticias? – Sim, Alonso – atendia o chefe, sem afetação –, nossos mensageiros cientificaram-me dos detalhes mínimos. 
Sua viúva continua muitíssimo acabrunhada, os filhinhos gozam saúde, mas permanecem na mesma ansiedade por motivo de sua ausência. 
O velho, que parecia muito bondoso, esboçou um gesto de confirmação e acrescentou: – Tenho sentido tanta falta deles! Nos olhos transparecia a tristeza resignada, de quem deseja alguma coisa, medindo a extensão dos obstáculos. – Você, porém, Alonso – continuou Alfredo, comovido –, não deve angustiar-se. Sei que está trabalhando agora pelo futuro da família. 
Na Terra, na qualidade de pais, conseguimos movimentar muitas providências a favor dos filhos; entretanto, aqui, podemos realizar certas medidas em benefício deles, com maior segurança. 
Nem sempre agimos no mundo com a necessária visão; mas aqui é possível sentir, de mais perto, os interesses imperecíveis daqueles que amamos. 
O sentimento elevado é sempre um caminho reto para nossa alma; todavia, não podemos dizer o mesmo, a respeito do sentimentalismo cultivado no círculo da Crosta. 
É preciso que você tenha muito cuidado em não desorganizar a mente. 
A saudade que fere, impedindo-nos atender à Vontade Divina, não é louvável nem útil. 
É enfermidade do coração, precipitando-nos em abismos insondáveis do pensamento. 
Alonso deixou de sorrir, mostrou os olhos rasos d'água e falou em voz súplice: – Reconheço, senhor Alfredo, a oportunidade de suas observações. 
Graças a Jesus, venho melhorando minha vida mental, nos deveres novos que me concedeu e, de fato, sinto-me renovado espiritualmente. 
Sei que sua palavra não me advertiria sem razão, mas, ousaria pedir licença para visitar a esposa e os filhos. 
A noite, quando me concentro nas preces habituais, sinto, em torno de mim, os seus pensamentos. 
Esses pensamentos me penetram fundo, atraindo-me toda a atenção para a Terra. 
Às vezes, consigo repousar um pouco, mas com muita dificuldade. 
Sei que a esposa e os filhos estão chamando, dolorosamente, por mim. 
Esta certeza me perturba de algum modo. 
Não tenho sentido a mesma firmeza para o trabalho diário e desejaria remediar a situação. 
Reconheço que minhas obrigações, presentemente, são outras e que devo estar conformado; no entanto, confesso que minha luta espiritual tem sido bem grande. 
Estou certo de que me perdoará a fraqueza. 
Que chefe de família não se sentiria atormentado, ouvindo angustiosos apelos do lar, sem meios de atender, como se faz indispensável? 
E, revelando o enorme anseio d'alma, enxugou os olhos e prosseguiu: – Quisera rogar aos meus calma e coragem, esclarecendo que meu coração inda é frágil e necessita do amparo deles; estimaria pedir-lhes esse auxílio para que eu possa atender às atuais obrigações, sem desfalecimentos. 
Quem sabe me concederá, agora, a permissão precisa? Temos bem perto de nossa casa um grupo de amigos espíritas... talvez não me fosse difícil transmitir algumas palavras, breves que fossem, tentando tranqüilizar a esposa e os filhos!... Alfredo, imperturbável, não respondeu negativamente. 
Parecia compreender toda a inquietação do servidor simpático e humilde. Observei-lhe no olhar, muito lúcido, o desejo sincero de atender e, com extrema simpatia por sua conduta generosa, ouvi-o ponderar: – Não será impossível satisfazê-lo, meu caro Alonso! Nossos emissários poderão conduzi-lo, nas viagens comuns; entretanto, creia que, como amigo, ficaria preocupado com você, pela manutenção de sua paz. 
Não posso abusar da autoridade e sei que cada um tem a experiência que lhe cabe, mas creio seja de seu vital interesse o fortalecimento do coração. É imprescindível conformarmo-nos com os desígnios do Eterno. 
Você e sua mulher não ficariam separados se não necessitassem de experiências novas. 
As dificuldades que ela vem amargando com a sua ausência sofreas também você com a separação dela. 
Tenho a impressão, Alonso, de que Deus nos deixa sozinhos, por vezes, a fim de refazermos o aprendizado, melhorando o coração. A soledade, porém, quando aproveitada pela, alma, precede o sublime reencontro. 
Além disso, você não deve ignorar que os filhos pertencem a Deus, que cada um deles precisa definir responsabilidades e cogitar da própria realização. Por enquanto, vivem chorosos, desalentados. 
A revolta lhes visita a alma invigilante. 
Estabeleceu-se a desordem doméstica, depois da sua vinda. Entretanto, que fazer senão pedir para eles e para nós a bênção do Eterno? 
Precisam eles da conformação com a realidade justa e você, que já lhes deu o que era razoável, necessita, igualmente, evolver e aperfeiçoar-se na senda nova a que fomos chamados. 
Em que ficaria, meu caro, se permitisse a invasão total do sentimentalismo doentio em seus pensamentos? Tão dedicado é você à família do sangue, que, por agora, não o sinto com bastante preparo a tudo ver no antigo lar, sem sofrer desastrosamente. 
Há tempos, autorizei a visita de dois colegas nossos à esfera da Crosta, a fim de reverem as viúvas e abraçarem de novo os filhinhos; mas foram tão violentamente surpreendidos pela situação, que não puderam voltar aos seus deveres aqui, lá ficando agarrados ao ninho que haviam abandonado. 
Não vigiaram o coração, convenientemente. 
Ouviram, em demasia, o pranto dos familiares terrestres, envolveram-se nos pesados fluidos do clima doméstico e, passada a semana de licença, não conseguiram erguer-se para o regresso. Estavam como pássaros aprisionados pelo visgo das tentações. 
Os encarregados do noticiário particular voltaram ao Posto sem eles, com grande surpresa para mim. 
E, francamente, não sei quando poderão reassumir as funções que lhes cabem. 
O prejuízo de ambos é muito grande. 
Depois de pequena pausa, Alfredo rematou: – Os vôos de grande altura pedem asas fortes. 
Alonso, que ouvia de olhos arregalados, considerou resignado: – Desisto do pedido. 
O senhor tem razão. 
O administrador abraçou-o e murmurou: – Deus ilumine o seu entendimento. 
Admiradíssimo, reparei que outros colaboradores se aproximavam, rogando esclarecimentos, pareceres, edificando-me no exemplo do administrador amigo, que respondia em voz firme e afetuosa, demonstrando interesse de irmão. 

CONTINUAÇÃO

MAIS LUZ - CHICO XAVIER

terça-feira, 15 de maio de 2012

PENSAMENTO DO DIA



É a nossa conduta verdadeira, e não a nossa crença aparente, que nos identifica perante Deus e os homens.
Autor: Dinamor

MENSAGEM DO DIA


Tudo o que fizeres, faça com amor, com o coração aberto, e as coisas fluem naturalmente. 

Autor: Desconhecido

OS MENSAGEIROS - LIVRO DE CHICO XAVIER

CONTINUAÇÃO

CAPÍTULO  25 

EFEITOS DA ORAÇÃO

As luzes da prece inundaram o vasto recinto. Palpitava em tudo, agora, uma claridade serena, doce, irradiante, muito diversa da luminosidade artificial. 
Os flocos radiosos que partiam de nós multiplicavam-se no ar, como se obedecessem a misterioso processo de segmentação, e caíam sempre sobre os corpos inanimados e enrijecidos, dando a impressão de lhes penetrarem as células mais intimas. 
Eu estava boquiaberto. 
Não me fora permitido contemplar fenômenos dessa natureza em “Nosso Lar”. 
Aliás, concluía, ainda não recebera auxílio magnético às percepções, senão poucas horas antes da viagem. 
A claridade crescia e estendia-se em espetáculo prodigioso. 
Agora, porém, abandonáramos a atitude de recolhimento destinada à concentração de nossas próprias forças e emissão de energias vibratórias. 
Nossos corpos, todavia, continuavam envolvidos em vasto circulo irradiante. 
Prosseguindo, porém, o grande silêncio, notei que a luz da oração se fazia mais clara, mais penetrante. 
Comecei a ver, como no caso de Ana, que todos aqueles esqueletos misérrimos apresentavam núcleos de sombra, além das máscaras mortuárias, núcleos que se mostravam dentro de formas variadíssimas. 
As bolhas luminosas caíam incessantemente, mas agora, como se fossem dirigidas por uma vontade inteligente, concentravam- se quase todas sobre as frontes imóveis. 
Então, pude observar o inaudito e inconcebível para mim. 
As múmias, porque não posso dar outro nome aos irmãos que dormem, começaram a dar sinais de vida. 
Alguns daqueles infelizes deixavam escapar gemidos angustiosos, outros falavam em voz alta, dando conta dos pesadelos que os atormentavam, como sonâmbulos prestes a despertar. 
Muitos moviam os pés e as mãos, como a se esforçarem por fugir ao sono doloroso. 
Eminentemente surpreendido, reparei que dois se levantaram, distante de nós. 
Recordei que ambos faziam parte daqueles que haviam recebido toda espécie de assistência, inclusive o sopro curativo. 
Olharam-nos de longe, como loucos que acordassem de súbito, e dispararam a correr, espavoridos, não obstante a impressão de cadáveres ambulantes, que nos causavam. 
Admirado, verifiquei que ninguém esboçou a menor disposição de segui-los. 
E quando me propunha, instintivamente, a fazêlo, Alfredo deteve-me, exclamando: – Não se preocupe. 
Eles seriam amargamente surpreendidos, se fossem notificados agora de sua permanência longa entre verdadeiras múmias. 
Acreditam sonhar e é melhor assim. 
Não poderão fugir às nossas fortificações e voltarão a pedir socorro noutras dependências, a que serão recolhidos para adequado tratamento. 
Continuamos silenciosos mais alguns minutos e notei que as luzes se foram apagando gradativamente, ao passo que os cadáveres retomavam a imobilidade anterior. 
Ismália declarou terminadas as nossas atividades da oração e o administrador, após o sinal luminoso, que notificava aos operários o término das obrigações, adiantou-se para nós, exclamando: – Gratíssimo pelo concurso fraternal. 
Realizamos belo serviço intercessório. 
Desde alguns dias, ninguém se levantava. Aniceto, percebendo-nos a perplexidade, falou a Vicente e a mim, de maneira significativa: – Conforme viram, o trabalho da prece é mais importante do que se pode imaginar no círculo dos encarnados. Não há prece sem resposta. E a oração, filha do amor, não é apenas súplica. 
É comunhão entre o Criador e a criatura, constituindo, assim, o mais poderoso influxo magnético que conhecemos. 
Acresce notar, porém, já que comentamos o assunto, que a rogativa maléfica conta, igualmente, com enorme potencial de influenciação. 
Toda vez que o Espírito se coloca nessa atitude mental, estabelece um laço de correspondência entre ele o Além. 
Se a oração traduz atividade no bem divino, venha donde vier, encaminhar-se-á para o 
Além em sentido vertical, buscando as bênçãos da vida superior, cumprindo-nos advertir que os maus respondem aos maus nos planos inferiores, entrelaçando-se mentalmente uns com os outros. 
É razoável, porém, destacar que toda prece impessoal dirigida às Forças Supremas do Bem, delas recebe resposta imediata, em nome de Deus. 
Sobre os que oram nessas tarefas benditas, fluem, das esferas mais altas, os elementos força que vitalizam nosso mundo interior, edificando-nos as esperanças divinas, e se exteriorizam, em seguida, contagiados de nosso magnetismo pessoal, no intenso desejo de servir com o Senhor. 
E, procurando materializar o pensamento, para facilitar-nos a compreensão, acentuou: – Viram, vocês, cair sobre nós os elementos a que me refiro, e observaram a sua exteriorização com as luzes de cada um de nós, em benefício dos irmãos que dormem e sofrem. 
Concedeu-nos o Altíssimo a força de auxiliar, em porções iguais para todos, mas nós a espalhamos de acordo com a nossa possibilidade e coloração individuais. Ismália, cujos sentimentos são mais amplos e universalistas que os nossos, pôde receber com mais clareza o auxílio divino e distribuí-lo com mais abundância e eficiência. 
Temos, aqui, uma profunda lição. 
Como já disse, o Pai visita os filhos necessitados, através dos filhos que procuram compreendêlo. 
Não poderíamos abusar do Senhor, como abusamos no círculo terrestre dos nossos pais humanos. Não vive Ele ao sabor de nossos caprichos pessoais. 
Nunca poderia vir, em pessoa, enxugar o pranto do necessitado que chora, em conseqüência, aliás, do olvido das Divinas Leis. 
Compete ao necessitado caminhar ao reencontro dEle. 
O Senhor, todavia, atende sempre a todos os homens de boa vontade, por intermédio dos homens bons, que se edificam na casa divina. Todos os nossos desejos e impulsos razoáveis são atendidos pelas bênçãos paternais do Eterno. Ainda que nos demoremos nas lágrimas e nas aflições, jamais permanecemos ao desamparo. 
Apenas devemos salientar que as respostas de Deus vão sendo maiores e mais diretas, à medida que se intensifique o nosso merecimento, competindo-nos reconhecer que, para semelhantes respostas, são utilizados todos quantos trazem consigo a luz da bondade, ou já possuem mérito e confiança para auxiliar em nome de Deus. 
As explicações de Aniceto abriam-me novos campos de meditação. 
O esclarecido instrutor, contudo, não dera por finda a lição e, depois de longa pausa, concluiu: – Já que vocês se encontram comigo num curso de serviço auxiliador, espero aproveitem o máximo ensinamento desta hora. 
Reparem que, nestes pavilhões, temos mil e novecentos e oitenta abrigados que dormem. 
Todos recebem diariamente alimento e medicação comuns, mas só quatrocentos são atendidos com alimento e medicação especializados, por se mostrarem mais suscetíveis de justa melhora. 
Desses quatrocentos, apenas dois terços se revelaram aptos à recepção de passes magnéticos. 
Muitos não podem receber, por enquanto, a água efluviada. 
Poucos foram contemplados com o sopro curativo e somente dois se levantaram, ainda assim, profundamente perturbados. 
Já que iniciam um trabalho de cooperação fraternal, não esqueçam esta lição. 
Façamos todos o bem, sem qualquer ansiedade. Semeemo-lo sempre e em toda a parte, mas não estacionemos na exigência de resultados. 
O lavrador pode espalhar as sementes à vontade e onde quer que esteja, mas precisa reconhecer que a germinação, o crescimento e o resultado pertencem a Deus. 

CONTINUA AMANHÃ

BENDITO SEJAS - CHICO XAVIER

segunda-feira, 14 de maio de 2012

PENSAMENTO DO DIA


No rosto, uma expressão, no olhar, uma visão. 

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA


Viva com tanto amor no coração que, se por engano você for para o inferno, o próprio demônio lhe trará de volta ao paraíso. 

Autor: Desconhecido

OS MENSAGEIROS - LIVRO DE CHICO XAVIER

CONTINUAÇÃO

CAPÍTULO 24

A PRECE DE ISMÁLIA

Dentro de poucos instantes, reuníamo-nos, de novo, ao grupo. 
O administrador fez um sinal luminoso, em forma triangular, e observei que todos os cooperadores se puseram de pé, em atitude respeitosa. – É o momento da oração, no Posto de Socorro – disse Alfredo, gentil, como a prestar-nos esclarecimentos precisos. 
O Sol desaparecera no firmamento, mas toda a cúpula celeste refletia-lhe o disco de ouro, Os tons crepusculares encheram as vizinhanças de maravilhosos efeitos de luz, muito visíveis agora ao nosso olhar, porque Alfredo, sem que eu pudesse conhecer o motivo, mandara apagar todas as luzes artificiais, antes da oração. 
No centro dos pavilhões, a sombra se fizera, desse modo, muito intensa, mas o novo aspecto do firmamento, banhado em tonalidades sublimes, dava-nos a impressão da permanência em prodigioso palácio, em virtude do imenso teto azul iluminado a distância. 
Fundamente impressionado, procurei convizinhar-me mais do pequeno grupo de companheiros. 
Do quadro de colaboradores do castelo, apenas algumas senhoras permaneciam junto de nós, como se estivessem fazendo honrosa companhia à nobre Ismália. 
Os demais, homens e mulheres, mantinham-se nos lugares de serviço que lhes competiam, não longe das criaturas mumificadas. 
Notei que, embora instado, Aniceto esquivou-se à chefia espiritual da oração, alegando que, por direito, essa posição cabia à devotada esposa de Alfredo. 
Ismália, então, num gesto de indefinível delicadeza, começou a orar, acompanhada por todos nós, em silêncio, salientando-se, porém, que lhe seguíamos a rogativa, frase por frase, atendendo a recomendações do nosso orientador, que aconselhou repetir, em pensamento, cada expressão, a fim de imprimir o máximo ritmo e harmonia ao verbo, ao som e à idéia, numa só vibração. “Senhor! – começou Ismália, comovidamente – dignei-vos assistir os nossos humildes tutelados, enviando-nos a luz de vossas bênçãos santificantes. 
Aqui estamos, prontos para executar vossa vontade, sinceramente dispostos a secundar vossos altos desígnios. 
Conosco, Pai, reúnem-se os irmãos que ainda dormem, anestesiados pela negação espiritual a que se entregaram no mundo. 
Despertai-os, Senhor, se é de vossos desígnios sábios e misericordiosos, despertai-os do sono doloroso e infeliz. 
Acordai-os para a responsabilidade, para a noção dos deveres justos!... Magnânimo Rei, apiedei-vos de vossos súditos sofredores; Criador compassivo, levantai as vossas criaturas caídas; Pai Justo, desculpai vossos filhos desventurados! Permiti caia o orvalho do vosso amor infinito sobre o nosso modesto Posto de Socorro!... Seja feita a vossa vontade acima da nossa, mas se é possível, Senhor, deixai que os nossos doentes recebam um raio vivificante do Sol da vossa bondade!...” A voz de Ismália penetrava-me o recesso do coração. 
Observando-a, por um momento, reparei que a esposa de Alfredo se transfigurara. Luzes diamantinas irradiavam de todo o seu corpo, em particular do tórax, cujo âmago parecia conter misteriosa lâmpada acesa. 
Em vista da ligeira pausa que imprimira à oração, observei a nós outros, verificando que o mesmo fenômeno se dava conosco, embora menos intensamente. 
Cada qual parecia, ali, apresentar uma expressão luminosa, gradativa. 
As senhoras que acompanhavam Ismália estavam quase semelhantes a ela, como se trajassem soberbos costumes radiosos, em que predominava a cor azul. 
Depois delas, em brilho, vinha a luz de Aniceto, de um lilás surpreendente. 
Em seguida, tínhamos Alfredo, cuja luz era de um verde suave e sugestivo, sem grande esplendor. 
Depois dele, vinham alguns servidores ostentando na fronte claridades sublimes, expressas em variadas cores, e, logo após, Vicente e eu, mostrávamos fraca luminosidade, a qual, porém, nos enchia de júbilo intenso, considerando que a maioria dos cooperadores em serviço apresentava o corpo obscuro, como acontece na esfera carnal. Com voz pausada e comovedora, Ismália prosseguiu: “Temos, ao nosso lado, Senhor, infortunadas mães que não souberam descobrir o sentido sublime da fé, resvalando, imprudentemente, nos despenhadeiros da indiferença criminosa; pais que não conseguiram ultrapassar a materialidade no curso da existência humana, incapazes de ver a formosa missão que lhes confiastes; cônjuges desventurados pela incompreensão de vossas leis augustas e generosas; jovens que se entregaram, de corpo e alma, aos alvitres da ilusão!... Muitos deles, atolaram-se no pantanal do crime, agravando débitos dolorosos! Agora dormem, Pai, à espera de vossos desígnios santos. 
Sabemos, contudo, Senhor, que este sono não traduz repouso do pensamento... Quase todos os nossos asilados são vitimas de terríveis pesadelos, por terem olvidado, no mundo material, os vossos mandamentos de amor e sabedoria. 
Sob a imobilidade aparente, movimenta-se-lhes o Espírito, entre aflições angustiosas que, por vezes, não podemos sondar. 
São eles, Pai, vossos filhos transviados e nossos companheiros de luta, necessitados de vossa mão paternal para o caminho! 
Quase todos se desviaram da senda reta, pelas sugestões da ignorância que, como aranha gigantesca dos círculos carnais, tece os fios da miséria, enredando destinos e corações! Deprecando vossa misericórdia para eles, rogamos, igualmente para nós, a verdadeira noção da fraternidade universal! 
Ensinai-nos a transpor as fronteiras de separação para que vejamos em cada infeliz o irmão necessitado do nosso entendimento! 
Ajudai-nos a compreensão, a fim de que venhamos a perder todo impulso de acusação nas estradas da vida! 
Ensinai-nos a amar como Jesus nos amou! Também nós, Senhor, que aqui vos rogamos, fomos leprosos espirituais, cegos do entendimento, paralíticos da vontade, filhos pródigos do vosso amor!... 
Também nós já dormimos, em tempos idos, nos Postos de Socorro da vossa misericórdia!... Somos simples devedores, ansiosos de resgatar imensos débitos! 
Sabemos que vossa bondade nunca falha e esperamos confiantes a bênção de vida e luz!...” 
Fizera Ismália nova pausa, agora mais longa. Enxuguei os olhos umedecidos de pranto. 
Suave calor, todavia, apossava-se-me da alma. E tão intensa era essa nova sensação de conforto, que interrompi a concentração em mim mesmo, a fim de olhar em torno. 
Fixando instintivamente o alto, enxerguei, maravilhado, grande quantidade de flocos esbranquiçados, de tamanhos variadíssimos, a caírem copiosamente sobre nós que orávamos, exceto sobre os que dormiam. 
Tive a impressão de que eram derramados do céu sobre nossa fronte, caindo com a mesma abundância sobre todos, desde Ismália ao último dos servidores. 
Não cabia em mim de admiração, quando novo fenômeno me surpreendeu. 
Os flocos leves desapareciam ao tocar-nos, começando, porém, a sair de nossa fronte e do peito grandes bolhas luminosas, com a coloração da claridade de que estávamos revestidos, elevando-se no ar e atingindo as múmias numerosas. 
Ainda aí, reparava o problema da gradação espiritual. As luzes emitidas por Ismália eram mais brilhantes, intensas e rápidas, alcançando muitos enfermos de uma só vez. 
Em seguida, vinham as fornecidas pelas senhoras do seu círculo pessoal. 
Depois, tínhamos as de Aniceto, de Alfredo e dos demais. 
Os servos de corpo obscuro emitiam vibrações fracas, mas visivelmente luminosas. 
Cada qual, naquele instante de contacto com o plano superior, revelava o valor próprio na cooperação que podia prestar. 
Observando-me o assombro, Aniceto falou-me aos ouvidos: – Na prece encontramos a produção avançada de elementosforça. 
Eles chegam da Providência em quantidade igual para todos os que se dêem ao trabalho divino da intercessão, mas cada Espírito tem uma capacidade diferente para receber. 
Essa capacidade é a conquista individual para o mais alto. E como Deus socorre o homem pelo homem e atende a alma pela alma, cada, um de nós somente poderá auxiliar os semelhantes e colaborar com o Senhor, com as qualidades de elevação já conquistadas na vida. 

                                               CONTINUA AMANHÃ

MEU FILHO - VOZ DE CHICO XAVIER

domingo, 13 de maio de 2012

CRÔNICA DOMINICAL

PARA SEMPRE

 Por que Deus permite
 que as mães vão-se embora?
 Mãe não tem limite,
 é tempo sem hora,
 luz que não apaga
 quando sopra o vento
 e chuva desaba,
 veludo escondido
 na pele enrugada,
 água pura, ar puro,
 puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade. 
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca, 
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora
será pequenino
feito grão de milho.

 Carlos Drummond de Andrade

MENSAGEM DO DIA


Se você não tem motivos para sorrir, pelo menos não dê motivos para os outros chorarem.

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DO DIA

MÃE

Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre. 
Cria teus filhos, não os entregues à creche. 
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal. 

Cora Coralina

OS MENSAGEIROS - LIVRO DE CHICO XAVIER

CONTINUAÇÃO 

CAPÍTULO 23 

PESADELOS 

Enquanto Alfredo continuava dirigindo os serviços, nosso instrutor, com a permissão dele, conduziu-nos aos leitos distantes, onde se asilavam os enfermos desatendidos quanto ao auxílio magnético. – Precisamos acentuar experiências e aproveitar oportunidades – afirmou Aniceto, sorridente. 
Acompanhamo-lo, curiosos, identificando as expressões isoladas, dolorosas ou terríveis, daquelas máscaras mortuárias. Quando nos encontrávamos a regular distância da zona central, o instrutor esclareceu, em tom grave: – Desejaria conhecer a extensão dos benefícios colhidos por vocês no Gabinete de Auxílio Magnético às Percepções. 
Para ajudar eficientemente aos nossos amigos encarnados, é necessário saibamos ver com clareza e precisão. 
Indicando os doentes imóveis, acrescentou: – Todos os que dormem nestes pavilhões permanecem dentro do mau sono. – Mas teremos, porventura, nas zonas espirituais, os que estejam em bom sono? – interrogou Vicente, de modo brusco. – Sem dúvida – respondeu Aniceto, solícito –, temos na esfera de nossas atividades os que repousam períodos curtos, quais trabalhadores retos que esperam o repouso noturno, com a tranqüilidade dos que sabem trabalhar e descansar, de consciência aliviada. 
Fez uma pausa, como quem estudava o melhor meio de sintetizar, por não perder tempo, e acentuou: – Mas esses não precisam estacionar, como filhos da sombra, nas construções de emergência de um Posto de Socorro.
 Em seguida, retomou o fio da lição e continuou: – Quem dorme em desequilíbrio, entrega-se a pesadelos. 
Todos estes irmãos desventurados que nos cercam, aparentemente mortos, são presas de horríveis visões íntimas. 
Vejamos o aproveitamento de vocês. 
Procedamos a observações rápidas. Antigamente, o inquérito anatômico, o exame das vísceras, a perquirição científica nas células, também aparentemente mortas; agora, a auscultação profunda da alma, a sondagem dos sentimentos, a visão do plano mental. E, com expressão decidida, concluiu, resoluto: – Mãos à obra! 
Designando-me um corpo envelhecido de mulher, recomendou: – Você, André, examine detidamente essa irmã. 
Abstenha-se de todas as considerações do plano exterior. Observe-a com todas as possibilidades e percepções ao seu alcance. 
Sinceramente interessado em atender, não reparei nas ordens que o nosso instrutor transmitia a Vicente. Procurei esquecer os quadros externos, focalizando aquela máscara feminina com todos os meus recursos mentais. 
A medida que me despreocupava dos interesses diferentes, observava a sombra cinzento-escura que se lhe ia condensando em torno da fronte. 
A visão parecia auxiliar-me o poder de concentração. 
Reconhecendo que o fenômeno se acentuava, não mais lembrei qualquer objeto ou situação exterior. 
Estupefato, comecei a divisar formas movimentadas no âmbito da pequena tela sombria. 
Surgiu uma casa modesta de cidade humilde. 
Tive a impressão de transpor-lhe a porta. 
Lá dentro, um quadro horrível e angustioso. Uma senhora de idade madura, demonstrando crueldade impassível no rosto, lutava com um homem embriagado. – “Ana! Ana! pelo amor de Deus! não me mates!” – dizia ele, súplice, incapaz de defender-se. – “Nunca! Nunca te perdoarei!! – exclamava a mulher, acrescentando em tom lúgubre – “Morrerás esta noite”. – vi o infeliz cair, exausto. – “Envenenaste-me com bebida mortal” – exclamava ele, lacrimoso – “perdoa-me se te causei algum mal! Sou pai! Ana! preciso viver para meus filhos! Não me mates, por piedade!” Ela ouviu com frieza e respondeu duramente: – “Morrerás mesmo assim. 
Tenho a infelicidade de amar-te, a ti que pertences a outra mulher! Não quiseste seguir-me e preciso vingar-me!” Rebolcando-se no assoalho, tomava o infeliz: – “Deus sabe que estou arrependido do meu criminoso passado! Quero viver para o bem, Ana! Perdoa-me por amor do Eterno Pai! Quem sabe poderei auxiliar-te como irmão? Ajuda-me para que te possa ajudar! Não me mates! Não me mates!” 
A mulher, porém, como se tivesse a maldade agravada, ao ouvir a expressão da virtude, tomou de um pesado martelo e exclamou: – 
“Deus não existe! Deus não existe! Morrerás, infame!” 
E, de súbito, crivou-lhe o crânio de marteladas surdas. 
O homem expirou sem um grito. 
Logo após, vi a criminosa conduzindo o cadáver em carrinho de mão, através de um trilho ermo. 
Acompanhava-lhe os movimentos com interesse. 
A noite estava muito escura, mas observei a parada junto à via férrea.
 Sondou os arredores, certificou-se do insulamento em que se encontrava e depôs a estranha carga sobre os trilhos. 
Vi-a dispondo o cadáver para que a cabeça fosse decepada à passagem do comboio, retirando-se apressadamente, reconduzindo o pequeno carro vazio. 
Não esperei a máquina de ferro. 
Segui a mulher que me pareceu inquieta e pensativa. 
Antes, porém, que depusesse o carrinho no extenso quintal, vi que arregalava os olhos como louca, cercada de seres que me pareceram bandidos de negras vestes. 
Era ela, agora, quem acusava estranha embriaguez de pavor. 
Vencera um pobre homem invigilante, mas, a meu ver, seria vencida por seres mais perversos, talvez, que ela própria: – “Acudam-me! acudam-me!” – gritava, espavorida. 
E continuava a cena, em que a desventurada golfava súplicas em vão. 
Senti-me como espectador que precisasse movimentar qualquer socorro. 
E, graças à Bondade Divina, não experimentei pela mulher infeliz senão a mais viva compaixão. 
Ao primeiro impulso de revolta pelo crime consumado, recordei as lições já recebidas em “Nosso Lar” e pensei na possibilidade de ser a criminosa alguma pessoa querida ao meu coração. 
Se Ana estivesse no mundo, ao meu lado, na família do sangue, não desejaria auxiliála? Porque haveria de acusá-la, se não lhe conhecia o passado total? 
Ter-lhe-iam dado a educação na infância, a bênção do lar, a segurança de um afeto sem manchas? 
Quem sabe viera de longe, como pedra incompreendida, rolando nos abismos do sofrimento? 
Que laços a uniriam à vítima, igualmente digna de piedade fraternal? 
Como teria começado o drama doloroso? 
Não sabia. Enxergava somente a pobre mulher rodeada de sombras agressivas, implorando socorro. 
Ignorava como ajudá-la, mas recordei que Ana era minha irmã, filha do mesmo Pai, irmã que adoecera no caminho comum, sem que eu pudesse, pelo menos por agora, indagar a causa. 
Procurava, comigo mesmo, algum meio de auxiliá-la, quando alguém me chamou de súbito. 
Era Aniceto que exclamava, bondoso: – Venha, André! Vicente e você têm sabido aproveitar alguma coisa. 
Estou satisfeito. Seus pensamentos de fraternidade e paz muito auxiliaram essa irmã infeliz. 
Guarde a certeza disso e continue buscando a compreensão para socorrer e ajudar com êxito. 
Conforme observaram de perto, sabem agora que cada um dos que aqui dormem sono atormentado, vivem estranhos pesadelos, de que não podem isentar-se de um instante para outro. 
Não precisamos comentar qualquer episodio dessas existências vividas em oposição à Vontade Divina. 
Bastará lembrar sempre que a divida, em toda parte, anda com os devedores. E com expressivo olhar, acrescentou: – Voltemos ao centro. 
Devemos cooperar na oração. 

CONTINUA AMANHÃ

MENSAGEM PARA O DIA DAS MÃES