quinta-feira, 11 de agosto de 2011

SEXO E DESTINO - CHICO XAVIER E ANDRÉ LUIZ


CONTINUAÇÃO

CAPÍTULO 14

Adiantamo-nos, Félix e eu, ao encontro da jovem.
Marita estugava o passo, amarfanhada, aturdida.
Da Lapa, onde se localizava a habitação coletiva que vínhamos de deixar, até à Cinelândia, correra quase.
Sentia-se tangida por todos os ventos da adversidade, expulsa da Terra. Traída nos mais íntimos sentimentos de mulher, a injúria experimentada transcendia para ela toda a noção de sofrimento.
Teria agradecido ao homem que conhecera por pai o punhal ou o veneno, mas não dispunha de forças para perdoar-lhe aquela afronta. A revolta sacudia-lhe os membros. Tremia, desesperada.
Na cabeça, uma idéia só, ganhando extensão: o suicídio. Ansiava
atirar-se sob os carros que deslizavam à frente. Morrer... desaparecer... meditava, chorando. Entretanto, era preciso viver um tanto mais. Restava um enigma: Gilberto. Por que se esquivara, a substituir-se, cruel? Que trama teria havido entre eles? Lera-lhe a missiva, conhecera-lhe a letra. Escrevera, afirmando vir... Por que desistira? Como soubera Cláudio do encontro? Através de Crescina?
As interrogações sem resposta convulsionavam-na toda. Desvairava.
Rangia os dentes, querendo gemer.
A morte, a morte!... – pedia, mentalmente, tentando apertar os lábios que se abriam sem voz.
Ainda assim iria consultar Gilberto, sugeriam as últimas réstias do sonho desmantelado. Sim, aprovava no turbilhão dos pensamentos
em descontrole, era necessário ouvir Gilberto... Uma vez só que fosse. Imperioso conhecer a verdade, morrer com a verdade... (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 154).
Quem saberia? Talvez que o rapaz lhe estendesse um fio de luz, por onde se desvencilhasse da sombra... Se ele dissesse: “vive, vive para mim”, conseguiria esquecer o insulto daquela noite, continuando a viver... Ao contrário, tudo extinto...
Caminhando apressada e indiferente à aragem que lhe acarinhava
os cabelos, repelia-nos, em espírito, as maiores demonstrações de ternura e consolo.
Nenhuma idéia que se lhe não afinasse com a repulsão.
Decididamente, se Gilberto participara da armadilha a que se arrojara, inocente, estava tudo acabado. Tão-somente lhe restaria o desprezo final.
Alcançou o Largo do Passeio e parou um momento... Fitou,
angustiada, aquelas árvores frondejantes que tanto amava... Galharias balouçadas ao vento pareciam chamá-la para abraços de adeus... Marita soluçou, teve medo, mas seguiu adiante... Varou a massa risonha que deixava os cinemas, recordou Gilberto e a menina feliz que ela fora, vendo namorados saboreando pipocas; contudo, seguiu, seguiu sempre, vencendo encontrões. Atingindo a Praça Marechal Floriano, abancou-se, vasculhando o cérebro atormentado...
Sentia-se, enfim, absolutamente sozinha, completamente desamparada.
Comprimindo a cabeça entre as mãos, queria idéias, alguma idéia que lhe ofertasse saída do antro pungente da angústia.
Debalde, irmão Félix, ao enlaçá-la, lhe assoprava conceitos de paciência e cordura, inutilmente se referia à bondade e ao perdão. Aquele coração juvenil, conquanto bondoso, figurava-se, agora, um lago límpido que vulcão oculto, de inesperado, fazia referver. Todas as orlas abertas, em bocas de incêndio, pelas quais as ondas do pensamento fugiam, precipitadas. Nenhum lugar (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 155) exposto à receptividade, nenhum ponto marcado ao equilíbrio e ao
silêncio.
No crânio tumultuado, uma idéia surdiu, ensejando-lhe tênue fio de esperança. Telefonar!... Poderia telefonar para a residência dos Torres. Gilberto, indubitavelmente, estaria ao pé da genitora enferma. Além disso, Marina viajara pela manhã. Uma razão a mais para que se não retirasse do carinho necessário à doente.
Ainda assim – refletiu –, seria muito provável que ele, a distância, lhe embaísse a boa-fé. Insopitável desconfiança amargava-lhe o coração qual raiz espinhosa. Não descortinava, contudo, saída melhor. Conversar! Ouvi-lo! Tinha sede da verdade, ansiava saber, saber!...
Raciocínios contundentes entrechocavam-se-lhe na cabeça atribulada...
Não, não retornaria ao lar do Flamengo... Entre voltar à casa dos Nogueiras e morrer, preferia morrer...
Perscrutou circunstâncias, analisou-se, meditou, meditou...
Pensamento estranho assomou-lhe, de súbito. Disfarçar-se, fingir. Para alcançar a verdade, mentiria.
Entraria, sim, no jogo com aquilo que se lhe apresentou à imaginação, como sendo a cartada final.
Marita concluía que ela e a irmã, pela intimidade e pela convivência, tinham vozes semelhantes, maneiras afins. Chamaria o rapaz como sendo Marina, imitar-lhe-ia, quanto possível, o tom de palestra, repetir-lhe-ia as palavras de uso mais freqüente no trato doméstico. Simularia estar voltando, inopinadamente, de Teresópolis.
O moço, assim abordado, confessaria, de modo inequívoco, tudo o que sentisse, com respeito a ela própria.
A sofredora criança consultou o relógio-pulseira. Dez minutos para as nove.
Desejava ambiente familiar para a ligação. Lembrou-se de Dona Cora, cliente da loja em Copacabana, que se lhe fizera (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 156) amiga íntima e em cujo apartamento costumava telefonar, quando
inevitável. Levantou-se, algo reanimada, para a busca de condução; entretanto, somente aí deu pela falta da bolsa que largara na fuga. Faltava o dinheiro, mas não desistiu. Acenou da calçada ao primeiro táxi disponível. Consultou o motorista se lhe podia fazer o favor de atender, com pagamento à porta de casa. Estava sozinha e esquecera-se do horário, O profissional correto notou-lhe a tristeza e o acanhamento. Compadeceu-se. Alegou que recusava, sistematicamente, conduzir pessoas que encomendavam serviço, criando problemas; entretanto, no caso, faria exceção e aquiesceu.
A breve trecho, seguíamos, junto dela, para Copacabana.
No endereço indicado, saltou, fez-se acompanhar pelo condutor ao apartamento da amiga, sendo recebida com a lhaneza que esperava. Segredou, envergonhada, para Dona Cora que se achava em apuros, se ela não dispunha, naquela hora, de algum dinheiro para emprestar. Pagaria no dia seguinte. A dona da casa, espontânea e bondosa, não titubeou... Abriu pequena gaveta e falou sorrindo: “só quatrocentos cruzeiros”. O marido não estava. Marita, reconhecida, explicou que a importância bastava. Depois da corrida paga, disse para a senhora que andara em serviço extra, fora em seguida ao Leblon visitar um doente, afetando que somente naquele instante conseguiria tomar o ônibus para casa. Antes disso, porém, tinha necessidade de um telefonema. Conversação com pessoa muito íntima. Dona Cora cedeu-lhe a peça inteira e acrescentou, gentil, que ia arranjar um cafezinho. Falasse à vontade, ninguém a interromperia. As duas filhinhas dormiam, há muito, e o esposo que substituía um colega, no trabalho, não regressaria tão cedo. A dona da casa afastou-se para a cozinha, isolando a sala.
E, ali, diante de nós, sem que nos percebesse, de leve, os corações
solidários, Marita discou, sofreando a emoção de modo a fantasiar a alegria da outra.

CONTINUA AMANHÃ

PALESTRAS ESPIRITAS - MISSÃO DO HOMEM INTELIGENTE NA TERRA - 1ª PARTE

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

PENSAMENTO DO DIA



De que adianta pedir paz, se o ignorante apoia o rico e o rico tem mais poder que o justo
 

MENSAGEM DIÁRIA


Cuide de seus pensamentos. Tudo começa no pensamento, não se fixe em coisas negativas

Autor: Desconhecido

SEXO E DESTINO - CHICO XAVIER E ANDRÉ LUIZ


CONTINUAÇÃO

Nas minhas frases curtas, o instrutor recolheu todoo material informativo.
Sem detença, rumamos para a vivenda coletiva, cujas lâmpadas esmoreceram, de chofre, quando lhe transpúnhamos a entrada.
Tive a idéia de que o acontecimento era comum, porquanto a escuridão não estabeleceu o menor alarme. Velas bruxuleantes piscavam, aqui e ali.
Tomamos a direção do aposento isolado.
Cláudio estacara à porta, enlaçado pelo vampirizador. Ambos justapostos um ao outro. Dupla de sentimentos e propósitos iguais.
Ambos emocionados, corações pulsando precipites, prelibavam a caça que não lhes escaparia. A distância reduzida, notei que os dois se postavam sob o halo das energias balsâmicas de Félix; entretanto, o admirável fenômeno para eles era como se não existisse.
Diante do quadro inquietante e enternecedor, imaginei comigo fitar dois lobos humanizados, aos quais piedoso emissário dos Céus tentasse, inutilmente, entregar a palavra e a inspiração de
Jesus-Cristo.
Enrodilhavam-se os dois num charco mental de lascívia, com tamanha sofreguidão, que não cabia ali, naquele vulcão de apetites sexuais, a menor frincha pela qual se pudesse arremessar alguma idéia de elevação.
Agressivo perfume de cravos me invadiu o olfato desprevenido.
Onde sentira, naquele dia, um cheiro igual? Recordei, espantado.
Aquele era o extrato usado por Gilberto. Conhecera-o, na palestra do Lido. Minudenciei observações e reconheci que Nogueira tivera igualmente o cuidado de usar indumentária, em tudo semelhante à do moço, inclusive a gravata, quanto ao nó e ao tamanho. Nenhuma particularidade fora esquecida. (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 150)
Antes que Félix e eu pudéssemos estudar medidas de contenção, a dupla avançou quarto a dentro.
Nós, que podíamos enxergar na obscuridade, vimos a pobre menina levantar-se, sussurrando frases de arrebatadora paixão e de intensa saudade, abrindo, ansiosa, os braços, sem guardar para si o mínimo resquício de vigilância... Acreditava-se diante do amado... Era ele, não devia recear... Naquele instante, em todas as suas intenções e em todos os seus nervos, um pensamento só, um apelo só, entregar-se...
Cláudio e o outro, a fremirem de emoção, mantinham absoluto silêncio.
Nada que pudesse evitar a integração indesejável.
Nogueira, agindo por si e pelo acompanhante, atraiu-a, de encontro ao peito, e beijou-a, convulso.
A indefesa criança, hipnotizada pelos próprios reflexos, abandonou-se, vencida...
Irmão Félix, tangido por sentimentos que eu não poderia avaliar, deixou o recinto e acompanhei-o.
Atingindo o degrau externo da porta de entrada, vi que o benfeitor, transido, se deteve, de olhos fitos no céu... Quanto a mim, conturbado, não me sentia capaz de articular uma prece. Nada pude fazer senão calar-me, reverente, perante o agoniado coração paterno, que vinha das esferas superiores para desmanchar-se ali, em suplício indizível, velando, através da oração muda que lhe extravasava agora em grossas lágrimas!...
Homens, irmãos, ainda que não possais viver santamente, à face dos instintos inferiores que nos atenazam as almas, animalizadas ainda por duros gravames do passado culposo, reduzi, quanto puderdes, as quedas de consciências! Quando não seja por vós, fazei-o pelos mortos que vos amam de uma vida mais bela!...
Disciplinai-vos, em respeito a eles, guardiães invisíveis que vos (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 151) estendem as mãos!... Pais e mães, esposos e esposas, filhos e irmãos, amigos e companheiros, que supondes perdidos para sempre, em muitas ocasiões vos acompanham de perto, acrescentando-vos a alegria ou partilhando-vos a dor!... Quando estiverdes a ponto de resvalar, nos despenhadeiros da delinqüência, pensai neles! Ser-vos-ão generosos, indicando-vos o caminho, na noite das tentações, à feição das estrelas que removem as trevas! Vós que sabeis reverenciar as mães e os mestres encanecidos na abnegação, que ainda respiram no mundo, compadecei-vos também dos mortos, transfigurados em afetuosos cireneus, a nos compartirem as cruzes das provações merecidas, em dorido silêncio, quando, muitas vezes, não somos dignos de oscular-lhes os pés!...
Diante de Félix, em pranto amargo, meu coração, imperfeito e pobre, passou então a recorrer ao Evangelho e confortei-me ao lembrar que Jesus, o Divino Mestre, fora também o amigo sensível e carinhoso, ao chorar, um dia, na Terra, ante Lázaro, morto!...
Decorridos quase vinte minutos de expectação, a luz reapareceu e ouviu-se um grito agoniado, em que o espanto e a dor se mesclavam com terrível acento.
Marita, com a rapidez de uma corça dilacerada, saltou a janela, em sentido oposto, e disparou em desalinho...
Antes, porém, que nos fosse possível esboçar qualquer socorro, alguém chegou, apressadamente, e abordou a porta do solitário aposento, espancando-a com fúria. Esse alguém era Dona Márcia.
Nogueira, assistido pelo amigo desencarnado, recompôs-se num átimo e, ao esbarrar com a esposa, fez um risinho ridicularizador, exclamando, mordaz:
– Era só o que faltava!... Você também? Aqui?...
Dona Márcia, que costumava entreter-se no pôquer, junto de amigas, não longe da pensão de Crescina, com quem mantinha relações de amizade, fora imediatamente informada por ela quanto (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 152) à chegada do marido, com a observação de que ele talvez entrasse em rixa acirrada com os jovens.
O porteiro, receando complicações, aviara-se, diligente, comunicando à patroa quanto sabia, e a patroa, a seu turno, julgando que a moça e Gilberto estivessem reunidos, não hesitara invocar a presença da amiga, no intuito de conjurar possíveis desastres.
A senhora Nogueira, ao chegar, inquieta, vira a filha adotiva que debandava e, em topando o marido, desapontado, saindo a sós, entendeu, num relance, tudo o que se passara...
– Canalha! – bradou, indignada – eu não acreditei nessa menina infeliz! Eu que poderia ter evitado!...
E a voz da recém-chegada assumiu dolorosa inflexão:
– Como é que você não pensou? Tenho comigo todos os papéis de Aracélia, todos os seus bilhetes... Ela nunca esteve com outro homem, a não ser você mesmo!... Você nunca soube da
última carta, em que ela me entregava a menina, dizendo que preferia morrer para que eu fosse feliz!... A memória dessa moça pobre e leal é a única coisa boa que eu tenho no coração... O resto você destruiu... Ah! Cláudio, Cláudio!... a que baixezas descemos nós?... Louco! Você ultrajou sua própria filha!...
Ele apoiou-se, cambaleante, na porta, como que fulminado por um raio. Dona Márcia prorrompera em soluços; entretanto, de nossa parte, era forçoso sair.

CONTINUA AMANHÃ

A CURA PELA FÉ - DR. MARIO TODA JR.


terça-feira, 9 de agosto de 2011

PENSAMENTO DO DIA


Existe muita diferença entre uma tarefa ser difícil ou ela ser trabalhosa

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA


Quantas preocupações desaparecem quando preocupamo-nos não, em ser alguma coisa, mas em ser alguém

Autor: Desconhecido

FÉ COMO ELEMENTO DE CURA DAS DOENÇAS - PROF. MAGALDI

SEXO E DESTINO - CHICO XAVIER E ANDRÉ LUIZ - PARTE 35


CONTINUAÇÃO


A conversa entre os cônjuges deslizava, banal, mas, consultando o cérebro de Nogueira, convencemo-nos para logo de que o tema do dia circulava, ativamente, no sistema de conjugação mental que prevalecia entre ele e o acompanhante. Registrava-selhes o anseio por notícias que lhes facultassem conexões para o objetivo inconfessável, que começavam a entremostrar em espírito.
Agora, à mesa, a dupla exteriorizava os intentos escusos, nas formas-pensamentos em que as duas mentes enfermiças se revelavam.
Tudo se aclarava, de súbito. Digeriam o plano em silêncio.
Abordariam Marita, à feição de dois caçadores colhendo uma lebre. Antegozavam o assalto, articulavam-se-lhes os pensamentos em lances dissolutos. Determinavam-se a surpreendê-la, em
casa de Crescina, como se apanha um fruto resguardado na árvore.
Perplexo, decifrei a trama inteira.
Cláudio ergueu a voz e, fingindo ignorar a viagem da filha, perguntou à mulher por Marina, de vez que, no fundo, queria notícias da outra.
Dona Márcia caiu, de imediato, na indução. Respondeu que ele, provavelmente, se havia esquecido de que a moça avisara, na véspera, que iria a Teresópolis, a serviço da imobiliária. O chefe, impedido, indicara-a para representá-lo em algumas transações importantes. Voltaria, sem dúvida, na manhã seguinte. Quanto a Marita, horas antes telefonara de Copacabana, solicitando para que não a esperassem ao jantar. Talvez demorasse em serviço extra, na contabilidade da loja, até mais tarde.
O marido pigarreou, mudou de assunto, comentou alguns sucessos
políticos e a refeição terminou sem maiores delongas.
No intuito de colaborar com eficiência, na preservação da harmonia geral, demandei a habitação de Crescina, onde não tive (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 146) qualquer dificuldade para identificar o apartamento número quatro.
Recanto isolado para casal, completamente desligado da comprida construção de um pavimento só.
A vivenda, pela extensão enorme, aparentava profunda calma; entretanto, pela ruidosa conversação dos desencarnados menos felizes, que aí bulhavam, desocupados, era possível imaginar as agitações da noite.
Depois de atenciosas idas e vindas pelo terreno, examinando situações, vi a dona da casa tomar o fone. Aproximei-me. Crescina
perguntava por Gilberto, no escritório dos Torres.
Atendida, combinou visitá-lo às duas, daí precisamente a meia hora.
O programa foi cumprido em todas as seqüências previstas.
De retorno, Crescina chamou para a loja e comunicou à jovem que o rapaz escrevera. Tudo certo. Leu o bilhete, em que lhe participava a resolução de estar firme, no lugar indicado, às oito.
Que ela aguardasse, confiasse.
A pobre menina exultou e as minhas inquietações doíam agigantadas.
Necessitava desdobrar medidas de proteção; entender-me com algum amigo encarnado, em ligação com o grupo; sugerir providências que evitassem a consumação do projeto; criar circunstâncias em que o socorro chegasse em nome do acaso, entretanto...
Debalde, girei da pensão alegre ao escritório, do escritório à loja, da loja ao banco, do banco ao apartamento no Flamengo...
Ninguém estendendo antenas espirituais, com possibilidades de auxílio, ninguém orando, ninguém refletindo... Em todos os lugares, pensamentos entouçados sobre raízes de sexo e finança, configurando cenas de prazeres e lucros, com receptividade frustrada para qualquer interesse de outro tipo. Até mesmo um dos chefes
de Marita, do qual me acerquei, tentando insuflar-lhe a idéia (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 147) reter a jovem, no serviço, até altas horas da noite, ao sentir-lhe a imagem, na tela mental, transmitida por mim, para inicio de entendimento, acreditou estar pensando consigo mesmo, inclinando o assunto para questões salariais; concentrou-se, de pronto, nas vantagens econômicas, agarrou-se a cifras, encheu a cabeça com parágrafos da legislação trabalhista e expulsou-me a influência, sumariamente, monologando no íntimo: “essa moça já percebe o suficiente, não lhe darei nem mais um centavo.” Nenhum outro recurso senão permanecer no casarão, de sentinela.
Inúteis as diligências.
Às sete e trinta da noite, Cláudio apresentou-se com esmero, sem mesmo esquecer-se de uma peruca leve que lhe remoçava as
linhas fisionômicas.
Solerte, espiou a vivenda de Crescina, a pequena distância.
Ele e o outro. Moreira não parecia menos interessado.
Acompanhei-os.
O marido de Dona Márcia, aperaltado, buscava um telefone, que não teve dificuldade para encontrar. Café vizinho facilitava.
Discou, chamando Fafá, o porteiro da pensão, que ficáramos conhecendo em nossas investigações cordiais, durante o dia.
Atendido, rogou-lhe que fosse encontrá-lo, confidencialmente.
Questão de negócio. Não se arrependeria do segredo. Riram-se
pelo fio.
O empregado, velho bonachão que o álcool já começava a excitar
naquelas horas verdes da noite, veio à pressa. Atencioso e sabido, conquanto guardasse um sorriso de bondade, parado no rosto, que tanto podia ser para o bem como para o mal, inclinou o ouvido para a boca de Cláudio, a fim de escutar melhor. Nogueira cochichou, solene. Solicitava-lhe concurso urgente. Precisava esclarecer-se quanto aos jovens que se reuniriam no “quatro”. A moça era sua filha. Não faria barulho, não escandalizaria a (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 148) ninguém, mas desejava certificar-se. Nada de complicações. Necessário reconhecer o desencaminhador, de maneira a solucionar o problema de família, sem alarde. Recorria aos préstimos dele, companheiro dedicado. Não lhe dispensaria a colaboração.
Fafá disse compreendê-lo e participou que a menina esperada já se instalara. Vira-a sozinha, através da porta semicerrada. Estava sentada no leito, folheando revistas. E, ante as perguntas que se acumulavam, confirmou que era a jovem, vista por ele, cedinho, em conversação com a mundana. Sim, guardara-lhe o nome. Era Marita, sim.
Fez-se Cláudio mais reservado e pediu-lhe “blecaute”. Que o porteiro lhe fizesse o favor de desajustar o fusível, na instalação elétrica, O conserto exigiria uns quinze minutos de sombra. Isso bastava para que se inteirasse de tudo, sem que a patroa e os hóspedes lhe percebessem a presença. Colocar-se-ia no escuro, em ângulo oposto à iluminação pública, e, assim, facilmente identificaria o rapaz.
O serventuário, não obstante semi-embriagado, fixou expressão matreira e salientou que era problema sério, aquele. Satisfaria ao chefe, mas bico calado. Nada de envolver-se com os tiras.
Cláudio deixou escorregar para a mão dele duas cédulas de quinhentos cruzeiros, e Fafá, menos inquieto, indagou pelo horário exato, ao que Nogueira aclarou, afirmando faltar unicamente dez minutos, de vez que aguardaria a luz apagada, as oito em ponto.
Separaram-se os dois e, quando me perdia em dolorosas conjeturas, revigoradora surpresa me visitou o espírito. Dera apenas alguns passos na rua e fui agradavelmente defrontado pelo irmão Félix, que me abraçava.
Comovi-me. Revê-lo e confiar-lhe todas as inquietações foi trabalho de segundos.

CONTINUA AMANHÃ

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

PENSAMENTO DO DIA


Meus olhos me direcionam a vários ângulos da vida, mas meu ser me direciona onde posso ir, e me alerta onde não posso pisar

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA


Os dias prósperos não vêm por acaso, nascem de muita fadiga e persistência

Autor: Henry Ford

SEXO E DESTINO - CHICO XAVIER E ANDRÉ LUIZ


CONTINUAÇÃO

Cláudio escutava, boquiaberto, admirando-lhe a delicada frieza das justificações e indagando a si mesmo qual deles dois seria
maior na arte de fingir.
Francamente encorajado, Gilberto declarou que lhe compreendia as apreensões, quanto lhe aceitava conselhos e bons ofícios.
Escreveria, obrigando-se a comparecer, mas não arredaria pé de casa, mesmo porque Marina fora a Teresópolis, pela manhã, a serviço da companhia, e talvez só regressasse no dia seguinte. O senhor Nogueira, qual o chamava, em buscando a menina, às oito, estaria autorizado a comunicar-lhe, da parte dele, o agravamento da saúde materna. Não seria falso, ajuntou, porquanto a genitora extinguia-se, lentamente. Cláudio, obtendo o que desejava, refletia no rosto a satisfação que, somada ao voluptuoso prazer do obsessor que o assessorava, parecia interesse afetivo, devotamento. Finalizando, asseverou-se notificado quanto à viagem da filha, e reportou-se, em termos carinhosos, à situação de Dona Beatriz, que ele e Márcia visitariam.
Destacou as acerbidades dos impedimentos em família, durante as moléstias longas, apelou para o otimismo necessário e, ateu confesso, chegou até mesmo a exalçar a confiança que se deve ter em Deus, no decorrer de tais circunstâncias.
Montada a obrigação que os jungia, separaram-se com abraço efusivo, enquanto, de nossa parte, rumamos do Lido para o Flamengo, penosamente intrigados, conjeturando sobre o que estaria
por suceder. (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 141)

CAPÍTULO 13

Tornei ao Flamengo, apreensivo.
Não conseguira auscultar as minudências do plano obscuro que se formava. Os pensamentos de Cláudio e do vampirizador entrelaçavam-se em estranhos propósitos imprecisos.
Expedi comunicação, em despacho rápido para o irmão Félix, salientando a necessidade de nosso encontro, recolhendo-lhe a resposta, que não me alentava5. Viria à noitinha, não mais cedo, à
vista de inadiáveis obrigações.
Seria desaconselhável qualquer recurso a Neves, que sabia ocupado e, talvez, providencialmente ocupado, já que as dificuldades morais se esboçavam em labirinto e alguma ameaça de irritação nos frustraria objetivos e movimentos. Amigos outros, de cujos préstimos seria licito dispor, jaziam longe do assunto.
Era forçoso agir só, trabalhar por mim mesmo.
O momento não comportava aflições inúteis. Necessário manejar os recursos em mão.
Para intervir sem vacilações, julguei prudente ouvir o acompanhante desencarnado, de Cláudio, que eu desconhecia de todo.
A princípio, encontráramos dois. Entretanto, apenas um deles se mantinha constante, aquele cuja inteligência aguçada me ferira a atenção.
Não seria justo investigá-lo, perquirir-lhe os anseios?
5 Diante dos microaparelhos existentes no Plano Físico para emissão e recepção de mensagens, a longas distâncias, é desnecessário comentar as facilidades de intercâmbio no Plano Espiritual. (Nota do Autor espiritual.) (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 142).
Rememorei experiências anteriores, em que juntamente de outros amigos desencarnados modificara a apresentação externa, através de profundo esforço mental.
Aspirava a fazer-me visível à frente daquele amigo enigmático que claramente habitava o lar dos Nogueiras.
Poderia transfigurar-me, adensando a forma, como alguém que enverga roupa diversa.
Recolhi-me em ângulo tranqüilo, à frente do mar. Orei, buscando forças.
Meditei, fundo, compondo cada particularidade de minha configuração exterior, espessando traços e mudando o tom de minha apresentação habitual.
Quase uma hora de elaboração difícil esgotou-se, até que me percebi em condições de empreender a conversação cobiçada.
Não me autorizava a perder um minuto.
Avancei, prédio acima, batendo à porta, cerimonioso.
Aconteceu como previa, porque o parceiro invariável de Cláudio veio atender.
Olhou-me, desconfiado, de alto a baixo, esquadrinhou-me os intuitos.
Humilhei-me, vulgarizei a linguagem quanto pude.
Semelhante atitude era indispensável pela minha necessidade de informações. Atento a isso, afetei absoluto desinteresse pelos moradores do apartamento, centralizando nele o núcleo natural de
minha atenção.
Expliquei andar procurando um amigo e perguntei pelo outro
camarada que vira, ali, dias antes. Vira-os, juntos, precisamente naquele local, quando transitava no corredor; entretanto, passava, apressado, a peso de obrigações. Guardara, porém, a impressão de que o companheiro cujo encontro ambicionava era ele. (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 143).
Esse o expediente mais simples que me ocorreu para cativálo, conversando com espírito de submissão e fraternidade naturais, de modo a ganhar-lhe alguma confiança e carinho.
Ele pareceu sensibilizar-se, tratou-me com a generosidade acidental de um fidalgo que não se desmerecia por dar migalha de
consideração a um mendigo.
Compleição robusta e enorme, tocou-me o ombro com a destra, ensaiando o gesto de quem se prepara a despachar, polidamente, uma pessoa importuna, e catou minudências. Analisou-me, perscrutou-me, repisando inquirições.
Inteirando-se do exato momento em que os vira reunidos e reconhecendo os detalhes que conseguira, de minha parte, mencionar, esclareceu tratar-se de um amigo, que costumava hospedar, de vez em vez, para o reconforto de uns “drinques”. Naquele momento, contudo, não estava. Ao que sabia, recreava-se numa casa, em Braz de Pina, cujo endereço indicou.
Lamentei. Solicitei-lhe o nome, estava reconhecido à gentileza do acolhimento e tornaria ao Flamengo em outra oportunidade.
Estimaria nomeá-lo com a possível intimidade quando voltasse, na hipótese de ser constrangido a perguntar por ele a desconhecidos.
Ele não se fez de rogado. Respondeu, cortês.
Chamava-se Ricardo Moreira. Em alguma necessidade, porém, bastaria que o designasse tão-só por Moreira. Era estimado, possuía numerosas relações, contava com muitas afeições no prédio. Se chegasse a vê-lo, de novo, em companhia do colega ao qual me reportava, que o sacudisse, despertando-lhe a atenção.
Até ali, tudo bem. Era necessário, entretanto, que eu lhe examinasse as mais íntimas reações. Imprescindível conhecê-lo,
sopesá-lo. (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 144).
Acusei-me cansado, deprimido. Se ele era ali o mordomo, que me permitisse entrar, por gentileza, ainda que por instantes breves, a fim de que me fosse possível refazer as forças. Ato de bondade fraterna. Nada além de alguns minutos. Carecia de ambiente humano, amigo.
Operou-se, entretanto, a reviravolta.
Vi perdida a posição que granjeara.
Moreira arremessou-me olhar terrível, que funcionou sobre mim qual punhalada vibratória. Ajuntou frases irônicas e gritouM que a casa tinha dono; que, diante dos “descascados”6, quem mandava ali era ele; que, para atravessar a porta, seria preciso removê-lo; que eu dispunha da rua larga para dormir; e finalizou, agressivo:
– Que tem você aqui? Dê o fora, que não vou com sua lata!
Vá se catar, vá se catar!...
Nenhuma outra alternativa senão descer escadas, desabaladamente, porque avançou em minha direção, arregaçando punhos decididos.
Regressei ao aconchego do mar, entrando em prece.
Reavendo a condição que me é peculiar, voltei ao mesmo
ponto.
No interior da peça, o casal acomodara-se para o almoço, com as atenções de Dona Justa, em serviço.
Moreira, que não mais me assinalava a presença, instalara-se na cadeira de Cláudio e com Cláudio, de tal modo, que, certo, se alimentava tão claramente quanto ele, através de um dos numerosos processos em que se catalogam as ações da osmose fluídica.
6 Um dos pejorativos pelos quais a gíria dos planos inferiores designa os Espíritos desencarnados. (Nota do Autor espiritual.)

CONTINUA AMANHÃ

CURA DE DOENÇAS

domingo, 7 de agosto de 2011

CRÔNICA SEMANAL


INEXORAVELMENTE


É da lei o axioma que “cada um evolui com o esforço próprio” e que “a colheita é a resposta da sementeira”. Fadado à perfeição, o Espírito adquire sabedoria mediante as experiências que vive, conquistando, palmo a palmo, os espaços da evolução. Quando erra, repete o tentame até acertá-lo. Quando prejudica, volve a reparar, auxiliando a quem afligiu. Desse modo, o trabalho é pessoal e intransferível. Embora receba ajuda, orientação e estímulo, a ação é de cada um. Semeando sempre, porque a cada ação corresponde uma equivalente reação, seguirás adiante conforme te proponhas e te empenhes por executá-lo. Ocorrendo injunções afligentes que te levem à dor, conscientiza-te de que são necessárias para mais valiosas conquistas morais, e esparze bondade, embora as circunstâncias dolorosas. O que hoje te chega, foi arrojado ontem. Da mesma forma, o que ora aciones, reencontrarás mais tarde. Não desperdices este momento recorrendo a queixas e a lamentações que somente perturbam e geram mal-estar. Uma atitude otimista e uma realização fecunda fomentam resultados positivos que se transformam em conquistas libertadoras.

Divaldo Pereira Franco / Joanna de Ângelis / Livro: Episódios Diários / 05//08/2011

PENSAMENTO DO DIA

O importante não é o momento em que conhecemos as pessoas, e sim, o momento em que elas passam a ser importantes para nós

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA

Nunca segure uma lágrima para mostrar que tem força, mas deixe-a rolar para mostrar que tem sentimento

Autor: Desconhecido

SEXO E DESTINO - CHICO XAVIER E ANDRÉ LUIZ - PARTE 33


CONTINUAÇÃO

concordava em que madame Crescina levasse o bilhete, alcovitando a conferência afetiva.
Logicamente, acrescentou a mascarar-se de bom-humor, que os meninos teriam entrado em arrufo e aspiravam à reconciliação.
Sim, não iria pessoalmente criar qualquer obstáculo. Preferia aconselhar a filha, no dia seguinte.
Entretanto, aduziu após refletir um minuto em consonância com o amigo invisível, gratificá-la-ia por um obséquio, de vez que tendo paternal interesse em que se efetuasse o encontro dos jovens, aos quais se permitia chamar “quase noivos”, solicitava-lhe fosse o bilhete entregue somente às duas da tarde, horário em que Gilberto estaria no escritório com toda a certeza.
Dona Crescina prometeu satisfazê-lo, recolhendo a gorjeta e anunciando que telefonaria para a moça, depois do ajuste, a sorrirem-se ambos no aperto de mãos.
Restituído a si próprio, Nogueira, sempre enlaçado pelo obsessor, não se deu tempo a maiores reflexões.
Aproximou-se do telefone e vacilou um instante. Pensou consigo que essa era a primeira vez que se dirigiria ao rapaz que detestava.
A hesitação, porém, não passou de segundos.
Discou, resoluto, para Gilberto.
Atendido, prontamente, formulou a consulta, untando a voz de cortesia. Se possível, desejava vê-lo e ouvi-lo, solicitar-lhe um favor com vantagens mútuas, mas rogava-lhe a gentileza da discrição.
Entendimento pessoal para aquele instante.
O rapaz gaguejou do outro lado, denotando viva emoção, e aquiesceu sem muitas palavras.
Ambos consultaram o relógio. Onze em ponto. (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 137)
Ele, Cláudio, seguiria de táxi para o almoço, em casa, no Flamengo, e esperá-lo-ia no Lido. Não se preocupasse o interlocutor.
Conheciam-se bastante, embora sem contactos pessoais. Além disso, abordá-lo seria fácil para ele. Conhecia-lhe o carro.
Efetivamente, escoados que foram alguns minutos, achávamo-nos os quatro, Cláudio, Gilberto, o assessor espiritual de Nogueira e eu, no lugar indicado.
O jovem, muito pálido, assemelhava-se ao aluno culpado que comparece diante do professor, mas o sorriso largo e calculado com que era recebido colocou-o à vontade, mais apressadamente que supunha.
Caminharam, lado a lado, permutando banalidades sobre o tempo, até que se instalaram num recanto de bar, à frente de um guaraná que tocaram, de leve.
Cláudio, aparando as cinzas do cigarro, de momento a momento, esforçava-se, quanto possível, por parecer natural.
Invariavelmente ligado ao vampirizador que o não perdia, começou dizendo ao filho de Nemésio que lhe entendia a situação com clareza; que o sabia, de certo modo, inclinado para Marina, a
filha legítima, e que, na condição de genitor, conquanto se visse na obrigação de preservar-lhe a felicidade, não devia bisbilhotar, à margem de assuntos privativos deles dois; entretanto, acentuava,
dramático, criara Marita, igualmente por filha; amava-a, enternecidamente, e anelava para ela o bem-estar que sonhava para a outra.
Gilberto, inexperiente, escutava embasbacado, comovido.
O antigo bancário, aparentando elevada condescendência, asseverou que, em verdade, somente atribuiria ao destino a coincidência que vinha de observar, porquanto se achava convencido de que ambas as meninas queriam o moço, talvez com análogo afeto. (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 138)
Verificava, assombrado, a máscara de paternal ternura com que Nogueira recobrira o semblante.
No íntimo, acalentava a repulsão, dura, violenta. Dissimulava, habilmente, os ímpetos de amarrotar o filho de Beatriz que, satisfeito e acalmado, lhe agasalhava as afirmações.
Reprimindo-se, prosseguiu astucioso.
Salientou que, decerto, a menina bisonha, ao albergar-lhe os testemunhos de apreço, escorregara na paixão, que lhe devastava, agora, a juventude em psicose e doença. Preocupava-se, afligia-se.
Encontraria recursos para sanar as dificuldades, mas, para isso, constrangia-se a solicitar-lhe concurso, a fim de que Marita sofresse menos.
Contaria com ele e, ao registrar-lhe as primeiras palavras de assentimento, baixou o tom de voz, anunciando-lhe em caráter confidencial que a filha adotiva lhe escrevera um recado. Sabia disso. Compondo o quadro estudado de interesse paternal, indagou se ele havia recebido. Ante a resposta negativa, explicou que a moça lhe endereçara um papelucho, no qual lhe rogava um encontro para a noite. Sem que lhe suspeitasse do zelo, conseguira
ler o petitório, tanto assim que poderia repeti-lo. E recitou de cor o pequeno texto, sílaba a sílaba, dando a impressão de proceder assim para exteriorizar com mais segurança o próprio enternecimento.
Depois de caracterizar o papel, rogava ao rapaz dois favores: responder afirmativamente, por escrito, que estaria no local indicado, atendendo ao horário certo, e abster-se de comparecer no momento preciso.
Fantasiou que a menina andava desorientada, enferma. Temia um choque. Não dispunha de outro remédio senão pedir-lhe aquele tipo de cooperação. Isso porque, naquele mesmo dia, estava providenciando a aquisição dos documentos necessários, para que (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 139) ela fosse à Argentina, em companhia de Márcia, numa viagem de refazimento e recreio. Não seria prudente estragar-lhe o ânimo, naquela hora, com uma negação formal. Naturalmente que o interlocutor era dono de si. Agisse como melhor lhe parecesse.
Ele, porém, nos sentimentos de pai que o moviam, receava conseqüências.
Nada custaria satisfazer-se àquela particularidade que considerava providencial. Se Gilberto aprovasse a idéia, ele próprio, Cláudio, se incumbiria de buscá-la, no endereço marcado, não só com a noticia positiva da viagem, no bolso, de modo a proporcionar-lhe renovadora alegria, ao mesmo tempo que poderia apresentar a ela as desculpas dele, quanto à ausência. Compreensível que, com a autoridade afetuosa de pai amigo, se responsabilizasse pelas escusas do moço, de vez que usaria o tato imprescindível.
Por fim, consultava-o como justificá-lo, no instante oportuno, se devia alegar a razão do bolo como sendo negócios, serviços, empeços domésticos ou inesperado afastamento do Rio.
O filho dos Torres ouviu tudo, encantado.
A proposta pareceu-lhe uma peça vazada em profundo bomsenso.
Além disso, respirava feliz. Verificava haver encontrado alguém que o levaria, passo a passo, a libertar-se de um compromisso que lhe pesava demasiado na consciência.
Chegado a esse ponto, desinibiu-se. Perdera os derradeiros resquícios da desconfiança com que iniciara a conversação. E, ao desembaraçar-se, afixou a máscara fisionômica que julgou cabível
à defesa das próprias conveniências, asseverando que dedicara a Marita uma boa amizade, de irmão para irmão, nada mais. Destacou que, efetivamente, notara nela determinadas alterações que o haviam desgostado e, já que se sentia inequivocamente atraído para Marina, afastara-se, cauteloso, na expectativa de que tempo e distância funcionassem

CONTINUA AMANHÃ

SALMO 23 COM MÚSICA ESPÍRITA

sábado, 6 de agosto de 2011

MOMENTO DE REFLEXÃO

NINGUÉM MORRE

A temática não é nova. Mas, toda vez que é abordada, há sempre quem surja com a tão gasta frase: Ninguém voltou do lado de lá para dizer que está vivo.

Quem assim repete o jargão, não se dá conta ou possivelmente ignora que as comunicações dos chamados mortos ocorrem todos os dias, sob as nossas vistas, ao nosso redor.

São inúmeros os casos dos que retornaram após a morte do corpo físico, testemunhando que a vida prossegue. E abundante.

São familiares, afetos que através de sinais irrecusáveis, se dão a conhecer aos mais íntimos.

Ou simplesmente amigos, conhecidos, alguém que deseje auxiliar a outrem.

Em 1943, um ex-piloto da força aérea inglesa de nome Robert Gislepie fazia treinamento com uma tripulação de alunos, sobre o mar da Irlanda.

Certa noite recebeu uma ordem para verificar o que havia acontecido com um avião que vinha do Canadá.

Seguiu com seus alunos, sem tardar e uma hora e meia depois chegaram exatamente ao local onde havia ocorrido o último contato pelo rádio com o avião canadense.

Por causa do forte nevoeiro, eles voavam sem visibilidade alguma. Por isso decidiram retornar. Se nada viam, como procurar?

Então um dos motores falhou. O gelo começou a se formar nas asas do aparelho.

Gislepie pensou em baixar a altitude para se livrar do gelo. Mas, se fizesse isso, deveria voar sobre o mar, a fim de evitar as montanhas. Tal atitude aumentaria a rota. E a gasolina era pouca.

O que fazer? Era o seu dilema.

De repente, sentou-se ao seu lado um aluno e lhe disse: Mantenha a altitude. Logo vamos ter uma modificação de temperatura.

O instrutor acatou a orientação. Logo mais, o avião estava fora de perigo.

Com alegria, Gislepie pediu ao jovem que agradecesse à base a instrução, pois que pensou que o jovem tivesse recebido orientação do pessoal de terra.

Foi então que o rapaz olhou para ele e falou:

Meu nome é Ken. Ken Russel. Se não precisa mais de mim vou voltar...

E desapareceu sob o olhar espantado do piloto.

Alguns dias depois, conversando com os seus alunos, Gislepie apontou um deles e disse:

Você deve ser Ken Russel. É muito parecido.

Não, foi a resposta. Eu sou Tony Russel. Ken Russel é meu irmão.

Ele morreu naquela noite em que fomos procurar o avião canadense. O avião em que estava caiu no mar e ele morreu.

Nem é preciso dizer do espanto do piloto.

Ele fora auxiliado por um morto.

À semelhança deste fato, existem outros muitos. Os que morreram, estão vivos. E se interessam pelos que ficaram.

Até mesmo por aqueles com quem não têm ligação afetiva. E se comunicam, testemunhando que ninguém morre de verdade. Só o corpo físico perece.

O Espírito prossegue a viver e se interessa pelo que sempre constituiu a sua preocupação e seus cuidados enquanto no corpo carnal.

* * *

A morte é sempre a chave que desata o perfume da vida. Não há morte, em essência. Tudo é recriação.

A morte simplesmente revela a vida mais amplamente.

Pense nisso.

PENSAMENTO DO DIA

As mais lindas coisas da vida, não podem ser vistas nem tocadas, mas sim, sentidas pelo coração

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA

Desarme o coração para a diferença de ideais e deixe que a compreensão encontre naturalmente o lado da razão

Autor: Desconhecido

SEXO E DESTINO - CHICO XAVIER E ANDRÉ LUIZ - PARTE 32

CONTINUAÇÃO

E o martelo verbal tornou aos estribilhos do passado. As festas de Aracélia, as companhias de Aracélia, as desilusões de Aracélia...
Verificando no olhar da jovem a penosa impressão com que era obrigada a recolher tais lembranças, a interlocutora, sem mais fundo lastro de amor para comovê-la, modificou a tática afetiva e alinhou histórias de seu conhecimento, em que sonâmbulos realizavam proezas diversas.
Argumentou que ela e Cláudio, perante a ocorrência, que analisavam com o carinho de pais verdadeiros e não com qualquer
espírito de censura, haviam recordado que ela, em criança, muitas
vezes acordava aos gritos, pela madrugada, fazendo birra e queixando-se de inexplicáveis terrores. Levada ao médico, o facultativo receitara calmantes. Rememorou, bem-humorada, a opinião de velho amigo da família, que dissera a ela e a Cláudio andar amenina atacada de nictofobia, e que, somente depois, ambosrecorreram ao dicionário, a fim de aprenderem que a palavra significava “medo da noite”.
Dona Márcia riu-se àquelas chistosas evocações, completamente alheia à importância do assunto. Afagou os ombros de Marita e aconselhou-lhe juízo.
A jovem, perplexa, tanto quanto nós mesmos, não teve ânimo para desmentir. Ignorava como deslindar a meada que o sedutor entretecera. Preferiu acriançar-se, aparentando aprovação com o silêncio. No íntimo, contudo, revoltava-se.
Cláudio trapaceara e a mãe adotiva caíra no logro.
Não possuía recursos para demonstrar a verdade. Tocava-lhe tão somente suportar e esperar.
Dona Márcia, no claro propósito de evitar o problema e, aliás, denotando naquela hora elogiável sinceridade na compaixão pela
(Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 133)  moça que supunha doente, convidou-a a examinarem, juntas, o primoroso estoque de “boutique” vizinha.
Marita aquiesceu, conformada, e o entendimento malogrado passou, superficialmente, valendo para nós por aviso grave, a fim de que reforçássemos todo o sistema de vigilância, no compromisso assistencial.
Transcorreram cinco dias, sem que aparecessem acontecimentos dignos de menção. Contava justamente uma semana de contacto com os novos amigos, quando, ao partilhar as inquietações de Neves, fui procurado por atencioso companheiro a quem solicitara
cooperação. Avisava-me de que certa senhora demandara o banco, procurando Cláudio no assunto que nos tomava a atenção.
Ao sol da manhã em giro alto, dirigi-me para o local, encontrando-a em pequena sala de espera, contígua a extenso escritório, no qual operosa equipe de funcionários desdobrava operações de contabilidade interna.
A dama aguardava Nogueira, ausente em serviço.
A recém chegada trajava-se com primor, exibindo, porém, o ar das mulheres que, depois de perderem as ilusões, acabam fazendo negócio dos prazeres que já não são mais capazes de usufruir.
Detínhamo-nos no exame despretensioso da personagem que tangenciava com a nossa história, quando Cláudio se apresentou, lépido e bem-posto. Junto dele, o acompanhante desencarnado, qual se lhe fora a sombra, não mais me admirando vê-los visceralmente associados, pensando e falando em absoluta simbiose.
Conheciam-se os dois, porquanto ele a nomeou, para logo, de madame Crescina, inclinando-se, familiar, para a conversação cochichada, demonstrando-se ambos naturalmente acostumados aos segredos que se transmitem, da boca ao ouvido. (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 134)
Alguma novidade? – indagou ele, esfregando as mãos uma na outra, com o sorriso brejeiro de quem prelibava festas.
A visitante, contudo, falou, encabulada, dos motivos que a traziam.
Recebera-lhe Marita, a filha adotiva, horas antes, e, sinceramente – informava –, não conseguira subtrair-se ao obséquio que lhe suplicara com lágrimas.
Diante do interlocutor, atento, prosseguiu comunicando que a moça desejava encontrar-se, na noite próxima, com Gilberto, um rapaz que, vez por outra, lhe freqüentava o casarão. Escolhera para isso o compartimento separado, nos fundos, o número quatro,
por mais reservado e acolhedor. A pobre criança – acentuava, compadecida – formulara-lhe o apelo, em caráter confidencial.
Propusera-lhe a concessão, muito abatida, nervosa. Não pudera alhear-se ao pedido. Também tinha duas filhas no mundo, também
era mulher. Acedera.
Mas, não era só isso. Marita remunerara-a, com bondade, para encarregar-se de entregar um bilhete ao filho dos Torres.
E, perante os olhos espantados do amigo, que acumulava na curiosidade o anseio do vampirizador, a confidente arrancou da bolsa o documento pequenino, em que a jovem implorava ao namorado fosse vê-la, às oito da noite, no lugar indicado. Saberia não incomodá-lo, não tivesse receio. Rogava-lhe a presença e solicitava resposta.
Cláudio lia, lia, entre ciumento e indignado. Sim – refletia –, era o cúmulo do sarcasmo. Gilberto a governá-la daquela maneira!
O compartimento dos fundos, o número quatro!... Conhecia-o.
E esquisita coincidência! Era o recanto que ele também, por vezes, elegia para si próprio, quando buscava a pensão alegre de
Crescina, para entreter-se, descansar... Marita, sem saber, compartia-lhe as preferências!... O despeito comprimia-lhe o coração, (Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 135) enquanto o “outro” se demorava a enlaçá-lo, estampando no rosto larga expressão de astúcia.
A empreiteira de regalias noturnas cortou a pausa longa, repetindo que não lhe era lícito esquivar-se; entretanto, acrescentou, ladina, que ele, Cláudio, era cliente de sua casa e, por isso, colocava-o ao corrente dos fatos, não só por dever de lealdade aos fregueses, como também para evitar aborrecimentos, suscetíveis de atrair os olhos da polícia que nunca interferira nas acomodações e negócios que lhe diziam respeito.
Para isso, inteirava-o de tudo e pedia conselhos.
Nogueira reprimiu a cólera e vimo-lo interessado em concentrar-se mentalmente, esquadrinhando a cabeça, à cata de idéias.
Ignorando, embora, que se acostumara a absorver-se nas sugestões de uma inteligência estranha à dele, buscava-lhe, sequioso, os estímulos, supondo naturalmente que batia às portas da imaginação para desencravar os pensamentos.
Obsessor e obsidiado passaram a trocar impressões, de cérebro a cérebro. Alguns momentos de ajuste silencioso e mecânico, que um observador terrestre interpretaria como sendo vertiginosa fabulação, e os dois entraram em acordo implícito.
Alcançamos semelhante conclusão, pela rama, ao vê-los repentinamente asserenados, já que não me sentia capaz de verificar-lhes planos e intentos, forçado que me reconhecia a dividir atenções, entre eles e a recém-vinda, cujos informes e apontamentos não me cabia perder.
Cláudio esboçou um sorriso amarelo. Em seguida, agradeceu a gentileza de que se tornava objeto, passando a extravasar as alegações fantasiosas que começara a elaborar. Disse à amiga, surpresa, que Marita realmente assumiria, talvez em dias breves, compromisso de matrimônio com o rapaz e que, não obstante considerasse a entrevista mencionada pura irreflexão de

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O AGRADECIMENTO ETERNO - CHICO XAVIER