quarta-feira, 22 de junho de 2011

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - DIANTE DA MORTE - PARTE 5

CONTINUAÇÃO

Já como Presidente, no ano seguinte, Collor voltou a Uberaba para participar da abertura da Exposição de Gado Zebu. Retribuiu a profecia de Chico Xavier com uma visita ao vidente. Dessa vez, estava acompanhado por Rosane. O anfitrião adorou o casal e sofreu quando, meses depois, Collor tirou a aliança do dedo, virou o rosto para a mulher em público e expôs ao Brasil as próprias mazelas conjugais. Chico estava prestes a mandar uma mensagem ao parceiro de PC com o pedido de que ele deixasse de ser  "tão bravo com a Rosane ", quando soube da reconciliação do casal pelos jornais.
Em maio de 1991, Chico, já maltratado por outra pneumonia, foi surpreendido por mais uma visita de Collor. Sem marcar hora, ele chegou de surpresa, acompanhado da mulher, após despistar seguranças, jornalistas, políticos e curiosos. Chico estava de cama, no quarto, e fez o Presidente esperar na ante sala quase vinte minutos.
Como sempre, o marido de Rosane estava impaciente. Sem assunto, passou a mão no cabelo e desabafou para os poucos auxiliares do médium.
- Há um ano, quando estive aqui, não tinha cabelos brancos.
Precisava continuar a viagem até Araxá. Tinha pressa. De repente, com suas tradicionais passadas largas, alcançou a porta do quarto de Chico e girou a maçaneta enquanto avisava:
- Eu sou de casa. Vou entrar.
Eurípedes Higino dos Reis liberou a passagem e Collor surpreendeu aquele senhor doente, ainda tentando se vestir. Chico desistiu do esforço de colocar o terno, voltou para a cama e, embrulhado em lençóis, conversou pouco mais de cinco minutos com o visitante. Foi o último encontro dos dois.
Logo após o impeachment, quando estouraram as denúncias de Pedro Collor sobre sexo e drogas na Casa da Dinda, Chico enviou um telegrama de apoio ao ex Presidente.
Desejava fé, força e paz a ele. Na época, confidenciou aos companheiros mais próximos o medo de que o escândalo em Brasília terminasse em tiro.
Uma semana antes de Collor ter os direitos políticos cassados por oito anos, Chico arriscou mais uma previsão. Otimista, garantiu a volta por cima de seu  "amigo ".
Fez bem em ter mantido distância da política ao longo de sua vida.
Uma versão do outro mundo para a tragédia pessoal de Fernando Color de Mello começou a circular entre os espíritas. A história podia ser lida nas entrelinhas daquela dedicatória escrita por Chico antes das eleições. Collor seria a reencarnação do Marechal Deodoro da Fonseca e teria voltado à Terra para resgatar uma dívida do mandato anterior. Como primeiro presidente do país, ele renunciou ao cargo, desiludiu a população, abandonou o Brasil. Nesta temporada, o ex Deodoro da Fonseca (e atual Collor) recebia o troco.
Chico nunca confirmou esta tese. E sempre mudava de assunto quando alguém ameaçava sondá-lo sobre suas próprias vidas anteriores. Mesmo assim, as especulações animavam conversas reservadas entre os espíritas. Os amigos aprenderam a arriscar, às escondidas, palpites sobre a última encarnação de Chico na Terra. Entre os nomes mais cotados, sempre esteve o de José de Anchieta, parceiro de Manuel da Nóbrega (o Emmanuel).
Mas outro nome ganhou força no meio: Allan Kardec, o responsável pela publicação das bíblias do espiritismo no século passado.
Estava escrito.
No livro Obras Póstumas, assinado pelo francês com a ajuda de vários parceiros invisíveis, um espírito chamado Z anunciou a Kardec: "Terás que retornar reencarnado noutro corpo para completar a tua obra, que não podes concluir nesta existência ".
Chico teria voltado ao planeta para pôr em prática as idéias defendidas nos livros escritos por ele como Kardec. Algumas coincidências reforçaram a tese defendida pela maioria dos amigos do autor do Parnaso.
Chico nasceu em 2 de abril, mesmo dia da morte de Kardec.
Em Obras Póstumas, Kardec previa a própria volta para o fim do século passado ou início deste. Chico nasceu em 1910.
Outro profeta invisível, autodenominado Espírito da Verdade, deu mais uma pista a Kardec:  "Não suponhas que basta diante da morte publicar um livro, dois livros, dez livros, para em seguida ficares tranqüilamente em casa. Tens que expor a sua pessoa ".
Chico Xavier se superexpôs até ficar exaurido.
A tese virou livro: Kardec Prossegue. Escrito por um dos amigos mais respeitados de Chico, Adelino da Silveira, ele exibia na capa, lado a lado, as imagens de um Chico Xavier risonho e de um Allan Kardec sisudo.
Chico não só leu a obra, como presenteou sua amiga Silvia Barsante, de Araxá, com um exemplar autografado.
De vez em quando, de cama, ele perguntava aos amigos mais íntimos:
- Onde estão as mensagens de Kardec? Onde estão?
E ria, misterioso.
Sob o peso dos oitenta anos, Chico foi persuadido por seu médico e sobrinho José Geraldo a se afastar do Grupo Espírita da Prece. A angina e as pneumonias o convenceram a participar das sessões apenas se seu estado de saúde fosse estável. Após exames semanais, receberia ou não autorização para atender os desesperados.
No início dos anos 90, muita gente começou a se acostumar com a ausência de Chico e a se conformar com sua fragilidade.
Muitos fiéis se satisfaziam em parar na porta de sua casa para "captar energias positivas " e ir embora. Ônibus estacionavam diante do portão e os passageiros rezavam.
Numa destas paradas, Eurípedes entrou no veículo e pediu que a moça com nome de flor o acompanhasse. Rosa seguiu-o, entrou em sua casa e conversou com Chico Xavier.
Muita gente tinha esperança de ser abençoado por uma conversa com o santo de Uberaba.
Alguns desesperados não se conformavam com a falta de contato e insistiam.
Um deles esmurrou o portão de ferro da casa de Chico Xavier até perder as forças. Entre um soco e outro, berrava:
- Você está se escondendo. Preciso falar com você. É urgente.
Já estava ficando rouco de tanto gritar quando Chico, amparado por amigos, caminhou até a varanda e desabafou, quase sem fôlego, com a voz estridente:
- Os muros não existem contra o senhor ou contra qualquer outro, mas contra mim mesmo. Se eu desfrutasse a liberdade, sairia por aí afora, arranjando confusões. Estou aprisionado.
Numa noite, ao acompanhar um amigo até o portão de sua casa, ele pediu:
- Feche a porta do meu cárcere.
Mas, numa madrugada, tudo mudou. Chico se levantou da cama e, de pijamas, atravessou Uberaba a pé, em minutos. Com o coração leve e os pulmões livres, flutuou sobre as ruas da cidade, a meio palmo do chão. A seu lado estava o Dr. Inácio Ferreira, um dos seus amigos do outro mundo. Foi o médico quem convenceu o médium a abandonar o próprio corpo no quarto e a segui-lo noite adentro. Dr. Inácio precisava de ajuda para resolver uma questão doméstica.
Chico deveria convencer a ex mulher do companheiro a não se desfazer dos livros dele. Afinal, ele precisava de sua biblioteca para continuar o trabalho no sanatório em outra dimensão. Chico persuadiu a viúva com frases sopradas pelo velho conhecido.
Após a longa noite, voltou para casa. E, com alguma resistência, quase nojo, deitou-se sobre a massa gelatinosa espalhada no lençol.
Estava preso de novo.
Com o corpo despedaçado e a cabeça a mil, tratava de lançar palavras no papel.
Cansado, já se permitia desabafos mais freqüentes e dizia:
- Sinto-me como se fosse arrastado, não posso resistir. Vai ser assim até quando Deus quiser.
Um médico amigo diagnosticou seu caso, em tom paternal:
- Para mim, você é maldito.

CONTINUA AMANHÃ

ALEGRIA E AÇÃO - DIVALDO FRANCO

terça-feira, 21 de junho de 2011

PENSAMENTO DO DIA

O importante não é estar aqui ou ali, mas ser. E ser é uma ciência delicada feita de pequenas-grandes observações do cotidiano dentro e fora de nós. Se não executamos essas observações, não chegamos a ser, apenas existimos e desaparecemos.

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA

Todos nós merecemos, mas temos que fazer por merecer
 

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - DIANTE DA MORTE - PARTE 4

CONTINUAÇÃO

Numa tarde, passou de carro por um ônibus apinhado de fiéis, todos interessados em conversar com ele, e acenou com a mão. Um amigo, a seu lado, sugeriu que parassem:
- O senhor poderia dizer a eles algumas palavras de paz...
Chico sorriu:
- Tire o Z e bota o pessoal para trabalhar. Essa gente precisa de pá, além de paz.
Para Chico, como para Emmanuel, o melhor remédio era mesmo o trabalho.
Em 1985, ele escreveu 15 novos livros. A média anual de lançamentos crescia e a simplicidade dos textos também. Nada de romances históricos, ensaios científicos, tratados filosóficos ou poemas elaborados. Coletâneas de entrevistas e de "mensagens particulares " se misturavam a publicações leves como Humorismo e Vida, recheado de trovas singelas. Augusto dos Anjos dava passagem a poetas como Manoel Serrador:
Não te queixes nem reclames
Sorriso é paz no caminho
Quem se alegra segue em grupos
Quem chora fica sozinho.
Um certo Leandro Gomes de Barros assinava outras rimas:
O comboio para o além
passa por todo lugar
mas a morte não avisa
o dia em que vai chegar.
André Luiz ainda mandava notícias. Mas nem parecia o autor do intrincado Mecanismos da Mediunidade. Em Apostilas da Vida, ele esbanjava singeleza.
Frases curtas, letras garrafais, tudo sob medida para leitores acostumados à linguagem televisiva e para um escritor doente, atormentado por dores no peito. Chico Xavier colocava no papel sentenças como "Seja comunicativo ",  "Sorria à criança ",  "Cumprimente o velhinho ",  "Converse com o doente ".
Nem vestígio da linguagem densa de Evolução em Dois Mundos, uma das parcerias de Chico com Waldo Vieira.
Os críticos torciam o nariz para a  "decadência "" do autor do Parnaso de Além-Túmulo. Mesmo alguns amigos se perguntavam por que Chico não se aposentava de uma vez.
Os fiéis mais devotados fechavam os olhos para suas deficiências e se agarravam a ele, desmaiavam a seus pés e lhe enchiam de presentes. Ainda em 1985, Chico recebeu um donativo de 22 milhões de cruzeiros, enviado por uma admiradora de Nanuque (MG), Maria Auxiliadora Franco Rodrigues. Nem pensou duas vezes: reverteu todo o dinheiro para o Lar da Caridade, ex Hospital do Pênfigo, com quase quinhentos doentes internados.
Em junho de 1986, rumores sobre a morte de Chico Xavier ganharam força e viraram boato. Os jornalistas tentaram checar as informações mas não conseguiram. Alguns auxiliares diziam que Chico estava em Pedro Leopoldo. A família dele negava a informação. Eurípedes garantia que ele estava em casa descansando. Um casal de paulistas, com hora marcada para conversar com o médium, esperava a vez sem nenhum sinal de confirmação. Nem o comandante da Polícia Militar de Uberaba, amigo do possível morto, oferecia dados seguros.
Resultado: as centrais de PBX das emissoras de rádio e TV, e também de jornais do Rio e de São Paulo, ficaram congestionadas. No departamento de jornalismo da TV Globo, as quarenta linhas da central não pararam desde as 18h30 do dia 5.
Os rumores não passaram de boatos. Mas eram um bom aperitivo para o próximo capítulo da vida de Chico.
Aquele não seria um bom ano para ele. Um escândalo tomou conta de Uberaba no mês seguinte. O editor do jornal local Vox, Sebastião Breguez, publicou um texto intitulado  "Há algo mais que espíritos em torno de Chico Xavier ". O "algo mais ": cobrança de consultas. Muita gente, para falar com Chico, desembolsaria cerca de 2.500 cruzeiros por uma ficha (cerca de 0,1% do donativo recusado no ano anterior) e entregaria o dinheiro a motoristas de táxi conhecidos como Pedrinho e Eurípedes. A verba era rateada com os dois PMs encarregados da segurança do médium e da distribuição de vinte fichas aos visitantes, todas as sextas-feiras.
Um senhor de São Paulo desabafou, na época, a um repórter do jornal Correio Braziliense:
- Me ofereceram a oportunidade de ser consultado ainda esta manhã, mas eu teria que pagar para receber uma ficha de prioridade. Não aceitei porque acho isso uma indecência...
Nunca ninguém conseguiu comprovar que Chico soubesse da movimentação suja em torno dele. Eurípedes, o filho adotivo, sempre negou qualquer envolvimento.
Dois anos depois, seria promovido a presidente do Grupo Espírita da Prece.
Em 1987, Chico completou sessenta anos de mediunidade.
Repórteres avançaram sobre ele, para desespero seu. Estava cansado de entrevistas. A um dos jornalistas, ele se limitou a dizer:
- Não tenho nenhuma importância. Olhe, pegue o papel e escreva zero. Sim, escreva zero e assine embaixo: Chico.
A enciclopédia Larousse Cultural Brasil A/Z gastou bastante tinta para definir esse  "zero ". Em 48 linhas - 13 a mais do que o número dedicado a Juscelino Kubitscheck e três além do espaço reservado a dom Hélder Câmara -, o texto dispensava as aspas ao definir Chico como um dos maiores psicógrafos do mundo. No verbete, Emmanuel existia mesmo e era o mentor espiritual de "uma das mais famosas personalidades do país   ".
Ao completar sessenta anos de trabalho, Chico foi surpreendido por uma pneumonia. Seu estado de saúde, já delicado, ficou quase insustentável. Atacado também por uma infecção renal, o aniversariante não teve escapatória: cama durante quase quarenta dias. Desapareceu do Centro Luiz Gonzaga, evitou os visitantes e se lançou como um desesperado sobre as páginas em branco.
Precisava trabalhar, cumprir sua missão, resgatar dívidas. Naquele ano, com o coração, o pulmão e os rins em frangalhos, ele pingou o ponto final em nada menos do que vinte títulos.
Em carta ao amigo Carlos Bacelli, comemorou a nova doença como uma bênção:
- "Louvado seja o senhor que me permite resgatar o passado e desejar melhorar-me pelos processos ocultos do corpo ".
E garantiu:
- "Sou possuído de muita alegria, como o devedor que consegue liquidar algum dos próprios débitos..."
Chico Xavier estava cada vez mais recluso. As doenças funcionavam como álibi para evitar as visitas e se debruçar sobre o papel. Amigos e jornalistas eram barrados por Eurípedes. O autor do Parnaso se exilava em seu quarto e ficava sozinho, ou melhor, acompanhado por seus fantasmas. De vez em quando admitia:
Tenho amigos espíritas e amigos espíritos. A esses últimos não posso enganar ou largar, como faço com os outros.
Chico dispensava os companheiros de carne e osso e dava prioridade aos invisíveis. Entre um contato e outro com os quase 2 mil autores espirituais de suas obras, ele se agarrava aos cães e gatos de estimação. Tanta devoção aos bichos tinha um motivo estratégico. Era uma forma de manter o elo com este mundo e evitar uma viagem sem volta para o além. Se não fossem os cachorros, como Brinquinho, seu  "melhor amigo ", já com doze anos e cego, ele talvez vivesse em transe, livre do próprio corpo, cada vez mais destroçado.
Numa das reuniões à sombra do abacateiro, Chico confessou:
- O que é que me interessa na Terra, além da tarefa mediúnica? Mais nada. Então, eu procuro me interessar pelos meus gatos e meus cachorros. Se eu não me ligar em alguma coisa, eu deixo vocês...
Para manter vínculos com a realidade, ele se acostumou a ler os principais jornais do país. O mundo cão também entrava em sua casa, pelas páginas do Notícias Populares, o jornal com maior índice de "desencarnação  " por centímetro quadrado.
Chico sumia do Grupo Espírita da Prece e os visitantes buscavam outras saídas mágicas em Uberaba. Os centros espíritas do dentista Carlos Bacelli e do ourives Celso de Almeida Afonso começaram a abrigar os  "órfãos " de Chico Xavier. A sucessão do espírita mais importante do país entrou em pauta. Mas os  "sucessores " mais cotados se recusaram a entrar no páreo.
Celso colocava no papel cartas de mortos a suas famílias, emocionava as mães com mensagens surpreendentes e rendia homenagens a Chico, seu amigo e seu mestre, com uma batelada de metáforas.
- Ele é o rio Amazonas. Nós somos só afluentes. Ele é construção. Nós somos só tijolinhos.
Bacelli mudava de assunto:
- Não existe sucessão em espiritismo.
Chico Xavier evitava o tema, com modéstia:
- Morre um capim, nasce outro.
Os hotéis sentiam sua falta. Em muitos deles, começavam a sobrar quartos demais. Os turistas escasseavam.
Muitos previam para breve a morte de Chico Xavier, quando ele ressuscitou firme e forte nas páginas de jornais e revistas. Em outubro de 1989, virou notícia ao quebrar o próprio protocolo e apoiar pela primeira vez um candidato à Presidência da República. Não Lula. O representante dos trabalhadores ficou de fora.
Chico foi um dos 35 milhões de eleitores de Fernando Collor de Mello. Durante um encontro de vinte minutos, em sua própria casa, o morador mais ilustre de Uberaba saudou o  "caçador de marajás " com um exemplar autografado do livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, escrito por ele e assinado por Humberto de Campos há cinqüenta anos. A dedicatória, escrita com letras trêmulas, profetizava:
- O Marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República, o senhor a consolidará. Francisco Cândido Xavier.
Nessa visita, o Senador Itamar Franco, candidato a Vice-Presidente, ganhou um livro com título sugestivo: Sinal Verde.

CONTINUA AMANHÃ

A DOR EM NOSSAS VIDAS

segunda-feira, 20 de junho de 2011

PENSAMENTO DO DIA

Pode-se viver no mundo uma vida magnífica quando se sabe trabalhar e amar, trabalhar pelo que se ama e amar aquilo em que se trabalha.

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA

Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim

Autor: Chico Xavier

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - DIANTE DA MORTE - PARTE 3

CONTINUAÇÃO

De Feelings, de Morris Albert até sinfonias de Bach, Beethoven e companhia.
Mesmo assim, de vez em quando, sonolento, ele se distraía e errava.
Numa noite, colocou no papel mais uma carta de um filho morto para uma mãe inconsolável. A mulher acreditou em cada palavra, mas, com delicadeza, corrigiu três nomes.
Chico nem piscou. Apagou o errado, substituiu pelo correto e se limitou a dizer:
- A borracha é como a reencarnação. Apaga o que está errado para escrever o certo...
Sua voz estava cada vez mais distante. E só era ouvida por todos no salão graças a um microfone e aos alto falantes.
Quando seu estado de saúde melhorava, ele prolongava a noitada. Numa delas, escreveu quatro cartas. Ficou exausto e, após pingar o ponto final na quadragésima página, desabafou:
- Estou no fim.
Os auxiliares cercavam o espírita e mantinham o desespero alheio à distância. O número de pessoas frustradas crescia. Muitos voltavam para a casa a centenas, ou até milhares de quilômetros, decepcionados com Chico Xavier. Um dos desesperados decidiu insistir. Em julho de 1983, um senhor de meia idade, bem vestido, saltou sobre o muro da casa de Chico e começou a gritar como um louco. Os PMs não estavam a postos como de costume. Eurípedes Higino dos Reis também estava fora.
E o inconformado berrava. Vizinhos tentavam convencê-lo a desistir do encontro naquela tarde. Chico estava doente, precisava descansar.
Nenhum argumento funcionou.
O homem não podia esperar pela sessão no Grupo Espírita da Prece, não podia correr o risco de ficar fora do grupo selecionado para uma conversa com o médium. Estava apoplético. E gritava. Uma hora se passou, duas, três.
- Não saio daqui enquanto não falar com você.
Os berros atingiam Chico no quarto dos fundos. Encolhido sob o cobertor, no escuro, ele rezava. O coração era sacudido pelos gritos do intruso. O peito doía.
Chico se antecipou ao infarto e tomou uma decisão também desesperada: se arrastou até a beira do muro e, aos pés do homem, de joelhos sobre o cimento, implorou com um resto de voz:
- Por favor, eu lhe rogo, me deixe. Preciso mais agora do seu silêncio que o senhor do meu auxílio. Volte na semana que vem que o atenderei.
O homem foi embora, penalizado.
Nem todos sentiam pena do médium. Muitos começaram a ter raiva. Os rumores ganhavam força. Chico recebia ricos, famosos e poderosos selecionados por seu  "filho adotivo " Eurípedes. Sua casa estava sempre aberta para cantores, deputados, senadores.
E os outros? Eram esquecidos em favor de visitantes como Wanderléia. A cantora foi recebida no mesmo dia no Grupo Espírita da Prece. Estava arrasada. Seu filho, Leonardo, de dois anos, tinha morrido afogado na piscina de sua casa. Chico apertou sua mão e deu a notícia. O menino voltaria em outra gravidez. Ela respirou fundo e acreditou. No ano seguinte, nasceu uma menina.
Em 1985, dona Risoleta, viúva de Tancredo Neves, também bateu à porta do espírita e foi recebida de braços abertos. Quatro meses após a morte do quase presidente da República, ela pedia uma "mensagem " do marido. Saiu de mãos abanando: ainda não era hora de ele entrar em contato. Talvez não fosse nem sensato.
Os visitantes ilustres se sucediam e os barrados na porta protestavam. Um deles chegou perto de Chico e comunicou, com uma faca na mão:
- Vim aqui te matar, mas não tenho coragem. Chico se limitou a dizer:
- Deus é quem sabe, meu filho.
Um outro acusou:
- Você tem amigos na penúria, mas só vai a São Paulo em carrão de gente rica.
Chico respondeu:
- Só meus amigos ricos têm carro e, como vou sempre da noite para o dia fazer acupuntura, aproveito a oferta deles.
Com o máximo de discrição, acompanhado de poucos amigos, Chico fazia questão de percorrer os barracos para visitar doentes pobres nos bairros da periferia na noite de 24 para 25 de dezembro. Todo Natal, ele liderava uma comitiva formada por vários carros, repletos de cestas com alimentos, brinquedos e doces. O Papai Noel franzino, com sua peruca bem penteada e o sorriso sempre aberto, entrava nas casas e era recebido com aplausos pelos adultos. Algumas crianças cantavam Noite Feliz e outras músicas natalinas.
Chico já era velho conhecido de muitos deles. Entre seus anfitriões, estava sempre um rapaz, vítima de hidrocefalia, que mendigava pelas ruas de Uberaba a bordo de um carrinho de rolimã. Ele cantava canções de amor, pedia cigarros, Chico providenciava maços com amigos e continuava a peregrinação.
Sempre parava na casa de Terezinha, entrevada numa cama há 52 anos. No último encontro, ela chorou ao ver Chico entrar, O visitante, amparado por amigos, se lembrou de ter prometido a ela um lenço vermelho no ano anterior. Não tinha nenhum à mão, mas logo as auxiliares providenciaram um. Terezinha, muda, sorriu como uma criança:
- É, você foi uma grande bailarina espanhola, não foi mesmo?
A caminhada, marcada por distribuição de presentes para até mil pessoas, costumava começar às oito horas da noite e se arrastar até as quatro da manhã.
Aos sábados, Chico Xavier estava lá, firme e forte, embaixo do abacateiro. Ele descia do Opala de Eurípedes e era recebido com aplausos pela multidão. Em silêncio, as pessoas ouviam seu discurso, após a leitura de trechos do Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos. As lições eram passadas com bom humor.
- Por que acumular tanto? Existem pessoas que possuem 35 pares de sapatos. Onde vão arrumar setenta pés?
- É preciso perdoar não sete vezes, mas setenta vezes sete, matematicamente, 490 vezes. Lá pela centésima vez em que estivermos perdoando, falaremos:
- "Você já está perdoado para sempre. Não vou ter o trabalho de perdoá-lo mais ".
As frases se seguiam e eram anotadas por um dos espíritas mais atuantes de Uberaba, o cirurgião-dentista Carlos Bacelli, dirigente da Aliança Municipal Espírita de Uberaba, parceiro de Chico em dez livros e autor de quatro publicações sobre o espiritismo.
Naquelas reuniões ao ar livre, Chico aproveitava para se desculpar pela ausência cada vez mais freqüente. A cada dia recebia menos companheiros em casa.
Muitos deles começavam a ser barrados na porta da casa de Chico por Eurípedes e nunca mais voltavam.
Chico usava metáforas médicas para explicar suas   "faltas ":
- Eu sempre dispus de um companheiro que me auxiliou nos momentos difíceis da vida. Mas esse amigo mudou bastante. Se quero sentar, ele quer a cama, se eu me levanto, ele quer sentar, se quero ir a algum lugar, ele tem dificuldades em me acompanhar. Ele quer a cadeira de balanço. E eu lutando com esse amigo. Esse amigo. Esse amigo alterado é meu corpo.
Numa tarde, um jornalista fez o favor de comentar, diante de seu corpo já encarquilhado:
- Eu o estou procurando há quinze dias e somente agora te achei. Mas achei uma ruína humana.
Chico retribuiu a gentileza:
- Graças a Deus, porque o senhor me coloca no meu lugar.
Chico buscava fôlego em campanhas beneficentes e nos encontros ao ar livre e gastava sua energia no Grupo Espírita da Prece. As histórias surpreendentes, e consoladoras, se acumulavam. Da ponta de seu lápis saíam, por exemplo, mensagens como a enviada por uma filha a sua mãe. Ela, o marido e suas duas filhas tinham morrido quando o carro em que viajavam bateu de frente com um caminhão de refrigerantes. A tragédia era arrematada por um detalhe ainda mais assustador: a autora da carta, Maria das Graças Gregh, estava grávida de nove meses quando morreu.
Na carta de Maria das Graças escrita por Chico, vinham notícias de Gregh Júnior, ele mesmo, o feto enterrado em sua barriga. Já era um garoto no outro mundo:
- Foi um sono indescritível, porque me vi, como num pesadelo, arrastada para fora de um turbilhão de destroços e acomodada em grande maca, na idéia de que continuava em meu corpo físico, a caminho de um hospital.
Por mais estranho que possa parecer, o meu pesadelo realidade era feito de impressões e de dores condicionadas de um parto prematuro. Achava-me dopada por medicamentos ou forças que até hoje não sei explicar e senti perfeitamente que uma cesariana se processava... a criança repousava junto de mim.
Textos como esses viravam coletâneas, chegavam às livrarias e se tornavam até temas para pesquisas. Marlene R. S. Nobre, mulher do Deputado Freitas Nobre, diretora do jornal Folha Espírita, se juntou a outros três pesquisadores e estudou cem mensagens particulares escritas por Chico Xavier. Após entrevistarem os destinatários de cada carta do além, eles chegaram a conclusões curiosas. Por exemplo: 58% das pessoas brindadas com cartas de seus mortos eram católicas (contra 37% de espíritas), o pai recebia mais notícias do que a própria mãe (45% contra 38%), 25% das pessoas beneficiadas com as mensagens particulares nunca tinham se encontrado com Chico Xavier antes (65% o visitaram mais de um vez). Em 95% dos casos, Chico não conhecia o morto. Nenhum dos consultados encontrou um erro nas mensagens.
Em algumas longas noites, quando seu coração deixava, Chico chegava a pôr no papel oito cartas do outro mundo. Saía esgotado. Em 1985, diante da romaria de sofredores até a cadeira onde ele estava sentado, desabafou:
- A dor de tanta gente me penetra em toda a alma.
Ele se sentia impotente. Por que a multidão ainda precisava tanto dele? Por que não colocava em prática as lições publicadas em seus quase trezentos livros? Por que não se consolava com os textos ditados pelos mortos?
Para se proteger do desânimo, ele recorria ao bom humor recomendado por Eça de Queiroz. E se permitia trocadilhos típicos de Emmanuel.

CONTINUA AMANHÃ

VALE A PENA VER E OUVIR - DIVALDO FRANCO

domingo, 19 de junho de 2011

MENSAGEM DOMINICAL

PENSAMENTOS

A ação do pensamento sobre a saúde é incontestável. Vejamos alguns exemplos:    
A         ansiedade estimula a secreção de adrenalina, que sobrecarrega o sistema nervoso e o descontrola; 
O pessimismo perturba o aparelho digestivo e produz distúrbios gerais;o medo, a revolta, são agentes de úlceras gástricas e duodenais de curso largo. 
Da mesma forma, a tranqüilidade, o otimismo, a coragem, são estimulantes que trabalham pela harmonia emocional e orgânica, produzindo salutares efeitos na vida.
O homem se torna o que pensa, portanto, o que quer. 
Os pensamentos emitidos atraem ou sintonizam outros semelhantes, nas mesmas faixas de ondas mentais por onde transitam as aspirações e os estados psíquicos de toda a Humanidade. 
Adicionados a estes, temos as mentes dos desencarnados que se intercomunicam com os homens, vibrando nos climas que lhes são afins. 
Acostuma-te a pensar de forma edificante. Assume uma postura vitoriosa. Atrai pensamentos salutares. 
O cérebro é antena que emite vibrações e as capta incessantemente. Irradia idéias do bem, do progresso, da paz, e captarás, por sintonia, equivalentes estímulos para o teu bem.
Quem pensa em derrota, já perdeu uma parte da luta por empreender.
Quem cultiva o insucesso, dificilmente enfrentará os desafios para a vitória.
A cada momento, adicionas experiências novas às tuas conquistas.

Divaldo Pereira Franco / Joanna de Ângelis / Livro: Episódios Diários.

PENSAMENTOI DO DIA

Se um dia te disserem que o amor é eterno desconfie, porque eterna é a amizade. Prefiro uma amizade sincera do que mil amores.

Autor: Desconhecido

MINUTO DE SABEDORIA

A vida tanto pode ser um drama apaixonante, como uma comédia empolgante, ou uma tragédia deprimente. Tudo depende de como a vivemos e a encaramos.

Autor: Desconhecido

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - DIANTE DA MORTE - PARTE 2

CONTINUAÇÃO


Vanucci tomou fôlego e, com a ajuda do ator Paulo Figueiredo e de Hilton Gomes, adaptou os textos para o teatro. A moral de cada história: na roda viva das reencarnações, os crimes não compensavam. Os espíritos sofriam, e muito, pelos erros de cada vida.
Os ensaios começaram com a adesão de atores espíritas como Felipe Carone e Lúcio Mauro.
Numa noite, Vanucci pensou em desistir: tinha medo do fracasso. Aquela sucessão de mensagens moralistas poderia acabar mal. Ele já podia ver os teatros vazios. Chico encarou o amigo e garantiu, convicto:
- A casa estará sempre cheia. Nem que seja só de espíritos.
Vanucci montou a peça para Chico Xavier no quintal do Grupo Espírita da Prece, entre árvores, ao ar livre. O protegido de Emmanuel se sentou atrás da mesa de madeira, na varanda, e ficou atento a cada esquete. De vez em quando ria, mesmo sem motivo aparente. Ninguém sabia, mas ele acompanhava também um espetáculo paralelo, montado por personagens tão invisíveis como bem humoradas.
Chico Xavier não teve dúvidas:
- Vai ser um sucesso. Nós vamos morrer e a peça vai continuar.
Um iluminador ficou apavorado. Não queria morrer tão cedo e abandonou o espetáculo antes da estréia. Azar dele. Durante oito meses, o Teatro Vanucci (com 420 lugares) teve a lotação esgotada. A peça se transformou em fenômeno de bilheteria. Encenada pela primeira vez em janeiro de 1982, seria vista em onze anos por 2 milhões de espectadores de carne e osso, fora os invisíveis.
Desde a primeira apresentação, metade da bilheteria foi revertida para instituições de caridade.
Mesmo com dores no peito, e apesar dos protestos de seus médicos, Chico Xavier mantinha o ritmo acelerado. O trabalho, para ele, era um santo remédio. E a caridade era quase milagrosa. No Dia das Mães, Chico buscava força em visitas aos presos em Uberaba. Distribuía sorrisos, cumprimentos, algum dinheiro (de valor simbólico) e ia embora. Nunca leu uma frase do Evangelho:
- Não poderia aproveitar que eles estão atrás das grades para dar sermão.
Quando lhe perguntavam se havia muitos obsessores na cadeia, ele afirmava:
- Eles já fizeram o que queriam.
Chico Xavier se sentia bem perto dos presidiários. Parecia ganhar fôlego novo e, em muitas ocasiões, chegava a imaginar a hipótese de  "passar umas férias na cadeia, com aqueles espíritos brilhantes, maravilhosos..."
No mês de dezembro, além de promover as concorridas e tumultuadas distribuições de Natal, Chico Xavier passou a visitar a Colônia Santa Marta, em Goiânia, especializada no tratamento de hansenianos. Ele era recebido com flores e com bebês para abençoar e saía com os bolsos repletos de pedidos de preces. Numa de suas visitas, uma das mães se aproximou da cama onde o filho dormia e agonizava, e chamou:
- Acorda, é Chico Xavier.
O rapaz, já em fase terminal, abriu os olhos com dificuldade e sorriu. A mulher, eufórica, comemorou:
- Não disse que um dia nos encontraríamos com ele?
Juntou as mãos como quem agradece a Deus e disse entre um soluço e outro:
- Louvado seja porque somos leprosos, meu filho.
Chico, também aos prantos, se debruçou sobre a cama, beijou as duas faces do jovem e seguiu adiante sem dizer uma palavra.
Numa de suas visitas à Colônia, ele interrompeu a caminhada diante do portão de entrada e começou a chorar. Preocupada, a anfitriã perguntou qual era o problema. E ouviu a resposta:
Está tudo bem. É que o patrono da Colônia veio nos dar boas vindas. Ele está dizendo que hoje abraçará e beijará todos os companheiros internados nesta casa.
O patrono espiritual da Colônia era São Francisco de Assis. Chico entrou com sua comitiva e, além de cumprimentar cada um dos leprosos, distribuiu presentes: dinheiro para os adultos e brinquedos para as crianças.
Com o tempo, Chico ganhou admiradores devotados na Colônia. Anos mais tarde, quando já não conseguia andar sem ajuda, ele se sentou em uma cadeira para trocar beijos e abraços com os doentes. De repente, uma senhora bem vestida, em visita a um parente internado, aproximou-se de Chico e, sem dizer uma palavra, se ajoelhou diante dele e beijou seus pés.
Chico chorou. Se estivesse saudável, teria impedido aquele gesto. Ele não era santo, a idolatria o incomodava.
E a romaria continuava no Grupo Espírita da Prece.
As cenas de fanatismo eram constantes. Numa das distribuições natalinas, um homem ajoelhou-se diante de Chico e se arrastou com as mãos unidas em prece:
- Diante do senhor eu tenho que passar é de joelhos.
Em 1982, Chico Xavier se envolveu em mais um crime. Desta vez, a vítima era o Deputado Federal Heitor Alencar Furtado, de 26 anos, filho de Alencar Furtado, ex líder do MDB cassado pelo AI-5. Ele foi assassinado logo após um comício da campanha para deputado estadual pelo PMDB. Depois de viajar 140 quilômetros, estacionou no acostamento para dormir um pouco, próximo à entrada de um posto de gasolina, na cidade de Nova América de Colina. Mal teve tempo de se acomodar no banco e esticar as pernas.
Um tiro atingiu seu peito em cheio. A bala saiu da carabina do policial José Aparecido Branco, o Branquinho. Um primo da vítima, Fábio Alencar, assistiu à cena.
Ele viajava num carro logo atrás e chegou no momento do disparo. Seu grito veio tarde demais:
- Não atirem, quem está no carro é o deputado Alencar Furtado.
O estampido ecoou no país inteiro, O Brasil ainda enfrentava a tal abertura lenta e gradual. O crime poderia ter motivos políticos. Muitos tentavam adivinhar o nome do mandante do assassinato. Branquinho insistia na tese do tiro acidental.
O deputado Ulysses Guimarães, presidente nacional do PMDB, pediu justiça ao ministro Ibrahim Abi Ackel. O presidente Figueiredo manifestou revolta. O ministro da Marinha, almirante Maximiano da Fonseca, censurou o clima de violência generalizada. Tancredo Neves, candidato do PMDB ao governo de Minas, pediu um minuto de silêncio.
O jornal O Estado de S. Paulo imprimiu a manchete: "Arma que matou Heitor não disparou por acidente ".
Após descrever as perfeitas condições de uso da carabina, o jornal arriscou: "O policial agora pode ser condenado a trinta anos de prisão por assassinato por motivo fútil, caracterizando homicídio doloso ".
O réu insistia em sua inocência, mas, como todo pobre acusado por poderosos, admitia para si mesmo a hipótese de passar o resto da vida na prisão.
As cartas já estavam marcadas, quando uma testemunha de última hora entrou no jogo: Heitor Alencar Furtado, o morto. Em texto escrito por Chico Xavier e assinado pela vítima, veio a frase curta e grossa:  "O disparo foi acidental ".
O pai do candidato a deputado conversou com Chico, leu e releu a carta, recebeu do além outros textos atribuídos a Heitor e deu o veredicto:
- As declarações são mesmo de meu filho.
Em 1984, o Tribunal do Júri de Mandaguari bateu o martelo após 33 horas de julgamento: a morte foi mesmo provocada por um tiro acidental. O juiz desclassificou o crime de homicídio qualificado para homicídio simples, resultante de negligência, e a pena foi abrandada para oito anos e vinte dias.
Mais sorte teve o bancário Francisco João de Deus. Em 1985, ele estava prestes a ir para a cadeia por ter assassinado com um tiro no pescoço sua mulher, Gleide Dutra de Deus, ex Miss Campo Grande. As circunstâncias da morte apontavam para mais um crime passional sem muita imaginação. O casal voltava de uma festa.
Gleide era linda, Francisco era ciumento e vivia armado. Pronto. Homicídio.
O assassino insistia: o tiro tinha sido acidental. Poucos acreditavam. Sete meses após o crime, ainda em 1980, ele recorreu a Chico Xavier. Precisava de conforto e conseguiu muito mais. Um depoimento foi decisivo no tribunal. A testemunha chave: Gleide. Ela voltou à tona, em carta escrita por Chico, para garantir ter sido vítima mesmo de um tiro acidental, disparado quando seu marido tirava a arma da cintura. O  "testemunho " coincidiu com o de duas enfermeiras que atenderam a vítima, já em agonia no hospital. Pouco antes de morrer, ela defendeu a inocência do marido.
Resultado: Francisco foi absolvido por sete votos a zero.
A influência de Chico nos tribunais começou a incomodar. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Hermann Assis Baeta, pediu a seus colegas de Mato Grosso do Sul cópias do processo. O presidente da OAB regional do estado, Hélvio Freitas Pissurno, reagiu à intromissão:
- No Tribunal do Júri, onde vale a vontade dos jurados, não se pode impedir esses procedimentos.
Mas admitiu que, num julgamento estritamente jurídico, a psicografia não teria validade.
O criminalista Evaristo de Moraes Filho também protestou:
- Enquanto não provarem cientificamente que a alma existe, esse tipo de prova não deveria ser aceito pelos juízes.
Casos como esse causavam polêmica e levavam multidões ao Grupo Espírita da Prece. Os vivos precisavam de notícias de seus mortos e Chico Xavier ainda era o médium mais confiável do país. Mas havia um problema: ele estava também cada vez mais inalcançável. Vivia enfurnado em seu quarto para escrever os livros, faltava às sessões de desobsessão privativas realizadas às segundas feiras, viajava a São Paulo de quinze em quinze dias para tratar dos problemas circulatórios com acupuntura.
Ele se cuidava. Nas sessões públicas, usava dois artifícios para combater o sono provocado pelo coquetel de vasodilatadores e analgésicos: bebericava xícaras de chá e reforçava a trilha sonora durante a psicografia com músicas mais modernas.

CONTINUA AMANHÃ

DIVALDO FRANCO - TRANSTORNOS DA AFETIVIDADE

sábado, 18 de junho de 2011

PENSAMENTO DO DIA

Às vezes um acontecimento sem importância é capaz de transformar toda a beleza em um momento de angústia. Insistimos em ver o cisco no olho, e esquecemos as montanhas, os campos e as oliveiras.

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA

Há um recanto no universo que você pode ter certeza de poder melhorar e esse recanto é seu próprio eu.

Autor: Desconhecido

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - DIANTE DA MORTE - PARTE 1

DIANTE DA MORTE

Chico Xavier encarava a perspectiva da morte com calma e apreensão ao mesmo tempo. O ato de morrer, em si, não o apavorava. Os seus amigos invisíveis o tranqüilizavam.
Na maioria das vezes, as pessoas nem chegavam a perceber a passagem para o outro mundo. Afinal de contas, ao longo da vida, todos exercitavam a morte através do sono e a ressurreição ao abrir os olhos pela manhã.
Mas, e depois? Emmanuel se recusava a adiantar qualquer detalhe sobre o destino do protegido no outro mundo. Muito menos revelava o dia de sua partida.
Sem nenhuma informação privilegiada sobre si mesmo, Chico escrevia, fazia caridade e achava pouco. Precisava trabalhar muito antes de sair desta para melhor (ou pior?).
Rezava para ter tempo de resgatar dívidas anteriores e agradecia à misericórdia divina a bênção de cada doença concedida a ele.
Numa noite, Chico já se preparava para dormir quando foi surpreendido pela visita de uma assombração com bafo de quem estava alguns goles acima do normal. O visitante se apresentou como um auxiliar dos benfeitores espirituais. Sua missão: arrancar do túmulo os espíritos mais resistentes à idéia da morte e encaminhá-los ao outro lado. Para cumprir tarefa tão estressante, ele precisava de uns tragos encorajadores. Chico abriu um sorriso para o recém-chegado e avisou:
- Você vai ter que beber muito para me tirar do caixão.
O protegido de Emmanuel se agarrava à Terra com obstinação. Queria escrever até o fim, servir muito, sofrer mais ainda, para merecer um pouco de paz na próxima temporada neste mundo. Queria renascer numa aldeia onde ninguém soubesse ler, onde todos vivessem de forma simples e, de preferência, onde ele não fosse médium.
Seus devotos mais fiéis apostavam em outra tese. Ele não voltaria à Terra. Não tinha mais dívidas a pagar. Ele iria direto para o céu e ficaria por lá. Chico reagia com bom humor:
Vou mesmo para o CEU - o Centro Espírita Umbralino.
Em 15 de novembro, o candidato ao Prêmio Nobel da Paz virou nome de praça em Pedro Leopoldo. O filho mais estranho de João Cândido Xavier vestiu seu melhor terno e, acompanhado de amigos ricos de São Paulo e Uberaba, participou da solenidade em sua homenagem, 22 anos depois de sua mudança. No discurso de agradecimento à cidade, ele afirmou com a voz embargada para a platéia que incluía ex adversários como o padre Sinfrônio:
- Eu lhes devo tanto e tenho tão pouco para lhes dar. Estou acanhado em vos dizer, inclusive, muito obrigado. Entretanto, peço a Deus que abençoe sempre esta cidade e esta praça dedicada ao amor.
Dez anos depois, a praça, bem ao lado da Prefeitura, estaria em estado de abandono total.
As listas de apoio a Chico Xavier passavam de mão em mão pelo Brasil e o candidato ao Nobel da Paz lutava contra as dores no coração para participar das sessões no Grupo Espírita da Prece. A peruca negra e farta sobre a cabeça destoava cada vez mais das rugas no rosto e da fragilidade do corpo franzino, sempre arqueado, como se estivesse a um passo de se espatifar no chão.
Chico se sentia cada vez mais vulnerável. Seu peito parecia arrebentar sob o impacto de desabafos, como o da mulher desesperada vinda do interior de São Paulo:
- Chico, matei meu próprio filho, para não sermos, eu e meu marido, mortos por ele. Ajude-me pelo amor de Deus.
Com os olhos marejados, ele se limitava a dizer:
- Vamos orar, minha irmã. Vamos pedir a Deus forças para continuar vivendo.
Só após muita insistência do Dr. Eurípedes Tahan, ele concordou em reduzir ainda mais a quantidade de contatos pessoais com os visitantes. Um novo médico, sobrinho de Chico, o cardiologista José Geraldo, reforçou o cordão de isolamento em torno do paciente mais requisitado do país.
Começaram a aparecer no Grupo Espírita da Prece as  "filas dos sessenta ", também conhecidas como  "filas dos suplicantes ". Só os primeiros a chegar, somados a alguns eleitos por Eurípedes Higino dos Reis, conseguiam uma audiência com Chico Xavier. Os outros poderiam assistir à sessão, mas só com muita sorte trocariam algumas palavras com o anfitrião, sempre cercado de auxiliares. As reclamações se acumulavam. Quais os critérios usados para selecionar quem poderia conversar com Chico?
Alguns falavam em dinheiro.
As suspeitas davam lugar a surpresa diante de cartas vindas do além e escritas, ainda em velocidade, por um Chico com mãos trêmulas. Numa delas, no mínimo pitoresca, o filho morto se referia à própria mãe como  "minha Cica ". Ninguém entendeu o apelido. Nem o pai dele. A mãe demorou um pouco a decifrar a mensagem e, só com algum custo, se lembrou da mania irritante do filho de tratá-la como "minha elefantinha ".
Numa de suas últimas conversas, ela pediu para ser poupada do apelido. Depois de morto, ele atendeu ao pedido e encontrou um substituto para o nome: Cica, a marca do elefantinho.
As sessões se seguiam, Chico era procurado pelos repórteres interessados em declarações do primeiro candidato brasileiro ao Nobel da Paz, mas ele se recusava a fazer qualquer previsão sobre o resultado da campanha. Como sempre, evitava se arriscar como profeta ou vidente.
No dia 1º de fevereiro de 1981, o deputado Freitas Nobre entregou ao diretor presidente do Instituto Nobel, Karl Swerderup, 110 quilos de documentação. Nove pastas guardavam um resumo da trajetória de Chico Xavier: 64 obras assistenciais ajudadas por ele serviam como amostragem das quase duas mil que giravam em torno da renda gerada por seus 183 títulos e por suas campanhas beneficentes. Um livro com o resumo das obras psicografadas por Chico, em quatro idiomas (português, norueguês, inglês e francês), reforçou o calhamaço.
Freitas Nobre explicou aos organizadores do prêmio que tinha deixado no Brasil, por dificuldades de transporte, as listas de apoio com 2 milhões de assinaturas.
Se quisessem, ele mandaria providenciar o material. Ninguém quis. Swerderup ficou impressionado. Só em Fortaleza, a renda obtida com a venda dos livros de Chico Xavier permitiu o parto grátis de 100 mil mulheres.
Isso representa quase um quarto da população da Noruega comparou ele.
A petição oficial da indicação de Francisco Cândido Xavier exibia as assinaturas do ex Presidente Jânio Quadros, do Senador Tancredo Neves e do Presidente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, Ulysses Guimarães.
Após a audiência, os visitantes brasileiros percorreram, em companhia do diretor do Instituto Nobel, o prédio da entidade e conheceram o auditório onde se realizaria a sessão solene de entrega do prêmio. Muitos rezaram diante do palco onde seriam anunciados os vencedores, mentalizaram em favor de Chico e saíram convencidos da vitória. Até o dia da divulgação do resultado, quase 10 milhões de pessoas deixaram suas assinaturas em listas de apoio à indicação de Chico Xavier (a maioria sem saber que o dia da inscrição já tinha passado).
Em 14 de outubro, foi divulgado o resultado. Nem Walesa nem João Paulo II venceram. Muito menos Chico Xavier. O prêmio daquele ano ficou para um azarão. O Escritório do Alto Comissariado da ONU Organização das Nações Unidas para os Refugiados, responsável pela assistência a refugiados no mundo todo, inclusive do Afeganistão, Etiópia e Vietnã, foi premiado pela segunda vez.
Chico Xavier deu uma opinião sob medida no dia seguinte à derrota:
- Estamos muito felizes sabendo que um prêmio dessa ordem coube a uma instituição que já atendeu a mais de 18 milhões de refugiados. Nós todos deveríamos instituir recursos para uma organização como essa, em que tantas criaturas encontram apoio, refúgio, amparo e bênção.
Só dez anos depois, ele diria:
- Não merecia o Prêmio Nobel da Paz porque sou um homem do povo.
Os espíritas não ficaram tão comovidos nem conformados assim. Eduardo Araia, editor da revista Planeta, levantou uma hipótese para explicar a derrota de Chico Xavier:
- "O critério de seleção que já premiou belicistas como Menahem Begin, Anuar Sadat, Le Duc Tho ou Henry Kissinger talvez não possa, por uma questão de coerência, escolher uma personalidade como Chico Xavier".
A campanha serviu para divulgar a doutrina espírita. Naquele ano, foram vendidos 700 mil livros com o nome de Francisco Cândido Xavier estampado na capa. O número era confirmado pelos impostos recolhidos e pelos direitos autorais. Os títulos rendiam a média de 2 milhões de cruzeiros mensais. Chico nem via a cor do dinheiro.
Vivia com os 98 mil cruzeiros de sua aposentadoria (ou seja, menos de 5% do total arrecadado com os livros). E, é claro, contava com a ajuda incessante dos amigos e dos admiradores. Frutas, cobertores, remédios, ternos; os presentes chegavam pelo correio ou desembarcavam em sua porta. Chico não pedia nada, recebia muito e se desfazia de quase tudo.
Graças a Deus aprendi a viver apenas com o necessário.
O vozeirão de Emmanuel ainda soava em seus ouvidos:
- Não há mérito algum em passar adiante o que você recebeu. Quem ganha e distribui não passa de um estafeta. O importante é perdoar e se doar, sem esperar nada em troca.
Chico não deu tempo para Vanucci lamentar o fracasso da campanha pelo Prêmio Nobel da Paz. O trabalho era a melhor receita para curar ressacas. O diretor da Globo tinha conversado com o espírita, três anos antes, sobre o projeto de montar uma peça a partir de textos psicografados por ele e por Divaldo Franco. Ele colocaria em cena esquetes sobre o suicídio, o aborto, as drogas, tudo de acordo com a cartilha da reencarnação.
Falava, falava, Chico aprovava a idéia, mas nada. Logo após a campanha pelo Nobel, o candidato derrotado foi incisivo e bem humorado:
- Vanucci, daqui a pouco a gente está lá no Mundo Maior e você vai me falar desse teu projeto. Tá na hora de colocar no palco.

CONTINUA AMANHÃ

MENSAGEM DE BEZERRA DE MENEZES

sexta-feira, 17 de junho de 2011

PENSAMENTO DO DIA

Não choreis os vossos erros, deixai de cometê-los e praticai as virtudes opostas.

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA

Os obstáculos não são problemas na nossa vida, pois são eles que fazem com que sintamos a emoção de viver.

Autor: Desconhecido