quinta-feira, 2 de junho de 2011

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - A NOVA ATRAÇÃO DE UBERABA - PARTE 1

A NOVA ATRAÇÃO DE UBERABA

Chico Xavier se refugiou no meio do mato a oito quilômetros do centro de Uberaba. Sua casa, que dividia com Waldo Vieira, era um barraco. Quarto, sala, cozinha, banheiro, chão de cimento, paredes sem pintura. Nenhum ônibus passava por ali.
Quem quisesse chegar até o porta voz dos mortos no Brasil precisava atravessar o matagal, driblar bois e vacas, pular cercas de arame farpado. Sem telefone, com os parentes a seiscentos quilômetros de distância, livre de Rômulo Joviano e do padre Sinfrônio, às vésperas da aposentadoria, Chico experimentava a privacidade e tomava fôlego para recomeçar. Precisava chegar ao centésimo livro. Agora, pelo menos, já tinha um parceiro.
No dia seguinte à sua chegada, ele abriu a porta aos primeiros visitantes. Sete amigos participaram da primeira sessão espírita comandada por Chico Xavier no novo endereço. Na noite de 5 de janeiro de 1959, todos se sentaram em volta da mesa, na cozinha. Os bancos eram tábuas equilibradas sobre pilhas de tijolos. Dois tamboretes velhos compunham a decoração. O anfitrião colocou no papel, após a leitura do Evangelho, um recado assinado por Emmanuel:
- "Se tiveres amor, relevarás toda ofensa com que martirizem as horas..."
A notícia da chegada de Chico Xavier começou a se espalhar pela cidade. E chegou até os ouvidos de uma católica fervorosa chamada Maria Olina. Aos quarenta anos, analfabeta, ela ia à missa todo santo dia, de manhã e de tarde, e emprestava seus ombros para a imagem de Santa Teresinha nas procissões. Um de seus orgulhos era ter ajudado na construção da igreja dos capuchinhos, dois anos antes. Muitos tijolos foram comprados graças aos leitões e galinhas criados por ela e leiloados nas quermesses.
Sua vida estava prestes a mudar.
Uma vizinha, Joventina Lourenço, entrou em sua casa com um brilho estranho nos olhos e uma idéia pouco católica na cabeça. Queria companhia para visitar o tal espírita de Pedro Leopoldo. Ele era um fenômeno, falava com os mortos, curava doentes, adivinhava pensamentos. Maria Olina, curiosa, fez o sinal da cruz e cedeu à tentação do desconhecido. Na mesma tarde, ela e a amiga pularam as cercas e correram das vacas para chegar à ponte para o  "outro mundo ".
Chico Xavier recebeu as visitantes com abraços, sorrisos, café e bom humor.
Livre, às vésperas de completar cinqüenta anos, ele se revelava um contador de "causos " inspirado. Eça de Queiroz aprovaria. Olina, no início desconfiada, terminou a noitada às quatro horas da manhã, exausta de tanto rir. As histórias se sucediam e as gargalhadas também. Waldo Vieira, mais sério, preferia o silêncio e certa distância.
Seu companheiro, de pé na cozinha miúda, roubava a cena e ressuscitava a juventude na cidade natal. Chegava até a cantar para imitar uma vizinha de trinta anos antes, a Raimunda, apelidada de Buduca. A moça enchia o peito e soltava a voz no embalo de marchas de carnaval. Numa tarde, Chico sentiu dificuldades para pôr no papel os textos do além e, com muito cuidado, pediu à cantora que baixasse um pouco o volume porque precisava enviar para o Rio, com urgência, algumas orientações.
Buduca, um tanto envergonhada, pediu desculpas e concordou. Mas não resistiu. Quando Chico entrou no quarto, ouviu a nova letra inventada pela vizinha para um hit carnavalesco da época.
Era só o que faltava
Você me fazer calar
Para ouvir os seus demônios
Pra poder se concentrar.
O show continuava, O repertório parecia interminável. Chico Xavier contava, às gargalhadas, a história de um homem fanático pelo espiritismo. Ele cultivava um hábito bastante comum entre os espíritas: o de buscar respostas para qualquer problema em O Evangelho Segundo o Espiritismo. Ele fechava os olhos, abria o livro ao acaso e, com a ajuda do "outro mundo ", esperava encontrar na página aberta uma solução para suas dúvidas. Um dia, o devoto estava em sua chácara, de pernas para o ar, refestelado numa rede, quando o céu escureceu. Uma tempestade varreu o sítio e um raio atingiu em cheio um gato a poucos metros dele. Ainda trêmulo, o sobrevivente correu para O Evangelho Segundo o Espiritismo e, com o coração aos pulos, buscou a mensagem. Encontrou:  "Se fosse um homem de bem teria morrido..."
Chico ria das superstições alheias e também falava sério. De história em história, ele envolvia as visitas, dava o seu recado. Olina estava quase conquistada. Mas ainda achava estranha a idéia de os mortos voltarem a Terra. Quando sua amiga se levantou para rezar, beber a água fluidificada e receber os passes, ela continuou sentada. Waldo leu o Evangelho, pediu licença e foi dormir. Chico ficou na cozinha com os olhos e boca bem abertos. Ainda tinha muita história para contar. Como a da lagarta, que sempre dizia:
- Esqueçam esta ilusão de que nós podemos voar. Isto é tudo mentira. Um dia, ela virou borboleta e saiu por aí batendo asas.
- E os pássaros, coitados? Eram as criaturas mais infelizes do mundo quando Deus criou a Terra. Moravam no chão e bastava uma chuva para suas asas ficarem ensopadas e eles, pesados, serem devorados por outros animais.
- A situação era insustentável. Eles se organizaram, formaram uma comissão, estufaram as penas e decidiram pedir socorro ao Todo poderoso. Deus foi pego de surpresa:
- Vocês foram as únicas criaturas às quais dei o céu. Por que não usam o dispositivo esculpido em seus corpos?
- Que dispositivo? - perguntou um dos defensores da categoria.
- As asas.
De imediato, Deus ensinou os interlocutores a abrir o par de asas, tão "incoveniente " nas chuvas, e eles saíram voando felizes da vida.
Olina se sentiu nas nuvens. Perdeu a noção do tempo, se esqueceu dos filhos, nem se lembrou da missa na manhã seguinte. Eram 4h30 quando o padeiro estacionou sua Kombi velha em frente à casa de Chico e buzinou. O anfitrião pediu carona para suas novas amigas. Misturadas aos pães, Maria Olina e Joventina fizeram a viagem de volta, O carro parava de casa em casa e elas nem resmungavam. A noitada valeu a pena. Só as 7h30, suja de farinha de trigo, Olina entrou em seu barracão. O marido já tinha ido para o curtume onde trabalhava, os filhos já estavam no colégio. Seus olhos exibiam um brilho estranho enquanto ela lavava a louça do café da manhã.
Minha vida era ficar namorando o Chico - ainda se lembraria, 34 anos depois, com a voz embargada.
Aquela foi a primeira de uma série de noites inusitadas. Às segundas, quartas e sextas, Maria Olina e sua amiga pulavam as cercas até a casa de Chico Xavier e Waldo Vieira. Às terças, quintas, sábados e domingos, ela engolia hóstias e se confessava na igreja. A vida dupla duraria pouco tempo. Logo, o dia a dia da beata viraria de cabeça para baixo.
Às terças e quintas-feiras, Chico e Waldo calavam a boca, fechavam as portas de casa e se dedicavam a um novo livro assinado por André Luiz, o primeiro da nova série de quarenta necessários para atingir o centésimo título. Os capítulos ímpares eram escritos por Waldo, os pares, por Chico. O texto tentava traduzir, de forma científica, os "mecanismos da mediunidade ".
A primeira frase dava o tom:   A Terra é um magneto de gigantescas proporções, constituída de forças atômicas condicionadas e cercado por essas mesmas forças em combinações multiformes.
Olina se benzeria se visse Chico espalhar frases como essa no papel.
O presidente da Federação Espírita Brasileira, Wantuil de Freitas, ficou preocupado com aquele palavrório todo. Era científico demais. Esperava um livro mais acessível do autor de Nosso Lar. Eles tinham que se aproximar da população e não se afastar dela. Chico também estranhava aqueles parágrafos. Nunca conseguiria entender direito Evolução em Dois Mundos e Mecanismos da Mediunidade. Vinte anos depois, algumas das idéias mirabolantes assinadas por André Luiz em Uberaba seriam confirmadas por físicos estrangeiros. Uma delas "a matéria é luz coagulada " seria respaldada por dois cientistas americanos, Jack Sarfatti e David Bohm, em um livro intitulado Space Time and Beyond. Eles garantiriam: "A matéria é luz capturada gravitacionalmente ".
Chico Xavier trabalhava e os boatos proliferavam à distância. Alguns espíritas espalharam a notícia de que o novo morador de Uberaba iria se internar num sanatório espírita. Ele estaria esgotado. O companheiro de Waldo Vieira tratou de desmentir os rumores em carta a Wantuil: "Se isso acontecer, podes estar certo de que estarei me sentindo extremamente mal de saúde e com perspectiva de desencarnação ".
Chico tinha medo. Acreditava que pessoas tinham sido pagas para atribuir a ele falsas declarações contra o espiritismo no momento de sua morte. Seu medo de cair numa armadilha preparada por adversários era tanto que ele já tinha pedido a Waldo e a outros companheiros para ser internado em instituição espírita de confiança se adoecesse. Precisava ficar a salvo de um complô silencioso armado contra ele...
No dia 18 de abril de 1959, Chico e Waldo Vieira inauguravam, ao lado da casa deles, a Comunhão Espírita Cristã. Nenhum deles assumiu a presidência do centro. Precisavam escrever. Dalva Rodrigues Borges, uma espírita de Uberaba, assumiu o comando. A programação do novo centro era intensa: reuniões públicas às segundas, sextas e sábados, sessões de desobsessão privadas às quartas-feiras, sopas para os pobres todas as tardes, peregrinações pelos bairros da periferia aos sábados, além de cursos sobre o Evangelho.
Na varanda da casa eram servidas as refeições aos pobres, cerca de duzentas todos os dias. Na sala ampla eram realizadas as sessões. Uma mesa cercada de cadeiras servia aos médiuns. Diante dela, ficavam os bancos destinados aos espectadores.
À esquerda, uma saleta era usada para os passes e, à direita, títulos espíritas se amontoavam em prateleiras numa livraria modesta.
Maria Olina acompanhou a construção do novo centro e sentiu vontade de promover, em sua casa, um curso sobre o Evangelho Segundo o Espiritismo.

CONTINUA AMANHÃ

DIVALDO FRANCO - JOANA DE ANGELIS - PARTE 6

quarta-feira, 1 de junho de 2011

PENSAMENTO DO DIA


Porque havemos de ser sempre inimigos uns dos outros, uma vez que olhamos todos para as mesmas estrelas, habitamos transitoriamente o mesmo planeta e respiramos sob o mesmo céu

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA

A felicidade é qualquer coisa que depende mais de nós mesmos do que das contingências e das eventualidades da vida

Autor: Júlio Dantas

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - - CHUVA DE PÉTALAS - PARTE 4

CONTINUAÇÃO

Estou apavorado como todo mundo. Estou com medo de morrer como qualquer ser humano.
O guia perdeu a paciência:
- Está bem. Então, cale a boca para não afligir a cabeça dos outros com seus gritos. Morra com fé em Deus, morra com educação.
Quando Emmanuel virou as costas, Chico ainda resmungava:
- Quero saber como alguém pode morrer com educação.
E continuou a gritar.
Chico Xavier estava estressado. Escrevia compulsivamente para chegar ao centésimo livro, fazia caridade, atendia aos "obsediados ", percorria bairros pobres de Pedro Leopoldo para distribuir alimentos e ler o Evangelho, consolava os desesperados.
Mas continuava desconsolado.
O clima tenso, em Pedro Leopoldo, atingiu o clímax quando uma senhora bem vestida, de Belo Horizonte, se aproximou dele e lhe ofereceu veneno:
- Vim aqui te ajudar a se suicidar.
Chico dispensou o presente:
- Quero viver até o fim.
A mulher insistiu:
- É melhor você se suicidar. Você fica em paz e dá paz ao nosso Centro.
Chico encerrou o assunto com um "não " redondo. Estava convencido: já era hora de virar mais um capítulo de sua história.
Sua família andava nervosa. Lucília, a irmã com quem ele morava, estava cansada de tanto entra e sai, tanta campainha, tanto telefone. O marido dela, Pacheco, era católico e não entendia tanto movimento, não suportava a invasão diária de sua privacidade. Um dia, a irmã perguntou:
- Você sai ou nós saímos?
Chico aproveitou a deixa e saiu. Estava cansado. Todas as irmãs já estavam casadas, ele já não precisava mais tomar conta de ninguém. Já era hora de poupar a família, de poupar a si mesmo.
No dia 18 de dezembro, assinou apenas a entrada no livro de ponto da Fazenda Modelo. Uma observação na margem direita esclarecia: "O escrevente datilógrafo Francisco de Paula Cândido foi designado pelo ato 1614 para trabalhar em Uberaba ". Isso mesmo: Francisco de Paula Cândido. Este é seu nome de batismo. Uma homenagem da família católica ao santo do dia de seu nascimento, 2 de abril, São Francisco de Paula.
Quando rompeu com o catolicismo e escreveu os primeiros textos espíritas, ele adotou o sobrenome paterno.
Poucos amigos conheciam a dupla identidade do autor de Parnaso de Além-Túmulo. Era Francisco de Paula Cândido quem escrevia os relatórios para Rômulo Joviano. Ele mesmo buscaria todo mês no banco a sua aposentadoria, assinada por Juscelino Kubitscheck. O próprio Presidente da República, aliás, pediu a assessores para apressar a papelada do escriturário nível 8 da Fazenda Modelo, de Pedro Leopoldo. Queria atender ao médium antes de sair do poder.
No meio da noite de 4 de janeiro de 1959, Chico Xavier bateu a porta de casa e sumiu. Sobre a cama, ainda estendido no cabide, ficou um terno de linho branco.
Na sala, restaram a vitrola, discos de Beethoven, Bach, Noel Rosa e um retrato a óleo de Emmanuel. No escritório, sua mesa tosca, quatro cadeiras, um baú repleto de papéis e os quase quatrocentos volumes de sua biblioteca. Entre dezenas de títulos espíritas, A Divina Comédia, o Leilo Universal e exemplares de Seleções e Almanaque Bertrand.
Não se despediu de ninguém. Com a roupa do corpo, tomou o rumo de Uberaba. Levou apenas o velho caderno de endereços e telefones. Iria morar com Waldo Vieira.
Deixou para trás uma cidade perplexa e minguante. Geraldo Leão, o garoto curado por ele da paralisia facial, guardou os três lápis usados pelo filho mais pródigo e famoso da cidade em sua última sessão no Centro Luiz Gonzaga. Um tinha a marca da Casa Garçon, outro vinha com o símbolo da lâmpada Astra Super e o terceiro divulgava a campanha "Crianças brasileiras, vamos estudar ". Mais de trinta anos depois, ele exibiria as relíquias aos poucos turistas da cidade. Os quatro hotéis e pensões dos tempos do médium se reduziram a uma reles pensão. O Cine Central, onde Chico costumava ir aos domingos pagar ingressos para a criançada pobre, deixaria de existir.
Nas mesas do Bar Central, na esquina da rua onde Chico Xavier morou durante 49 anos e escreveu sessenta livros, o filho de João Cândido Xavier ainda gerava polêmica 34 anos após sua mudança. Um ex charreteiro da Fazenda Modelo, José Porfírio Costa Lima, contava, de olhos arregalados, a frase dita por um espírito em um centro de umbanda:
- A cidade vai pagar caro por ter deixado Chico Xavier ir embora.
Após encarar a praça vazia e mal iluminada, garantia, perplexo:
- Pedro Leopoldo está amaldiçoada.
Em pleno 1993, os motivos do sumiço repentino de Chico ainda esquentavam as conversas entre um café e outro. Alguns acusavam o padre Sinfrônio. Muitos jogavam a culpa na família dele, "exploradora demais ". Outros lembravam do escândalo provocado por Amauri Pena. Alguns se culpavam. Podiam ter tratado o conterrâneo melhor, com mais respeito. O santo da casa não fez milagre...
A razão alegada pelo próprio Chico Xavier nem era levada em consideração.
Chico jogou a culpa pela mudança em uma labirintite, iniciada naquele ano.
Incomodado por barulhos no ouvido e por fortes dores de cabeça, ele teria seguido conselho dos médicos e dos benfeitores espirituais para procurar um clima temperado. Pedro Leopoldo era fria demais.
Chico foi mesmo em busca de um clima menos frio, mas não no sentido meteorológico da expressão. Aos amigos mais íntimos, ele daria uma outra explicação. Uberaba, então com dezessete centros kardecistas, estaria mais protegida espiritualmente.
Deitada em sua cama, paralítica, Nair Tarabau Pinto, colega de escola de Chico Xavier, deixaria nas páginas de um caderno puído uma declaração de amor ao ex companheiro:
- "Chico, você é o amigo de infância que não posso esquecer por mais que a vida dure. Às vezes, pergunto a mim mesma: quem é este homem? Um gênio, um predestinado? Ou um precursor?"
Chico já estava longe.

CONTINUA AMANHÃ

DIVALDO FRANCO - JOANA DE ANGELIS - PARTE 5

terça-feira, 31 de maio de 2011

PENSAMENTO DO DIA

Aprenda com os erros alheios. Você não conseguiria viver tempo suficiente para cometê-los todos sozinho. Aproveite bem o tempo. Já é bem mais tarde do que pensas

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA


A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios... Por isso, cante, ria, dance, chore e viva intensamente cada momento de sua vida, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos..

Autor: Charles Chaplin

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - - CHUVA DE PÉTALAS - PARTE 3

CONTINUAÇÃO

O jornal O Globo estampou em manchete, com direito a ponto de exclamação, na primeira página de sua edição de 16 de julho: "Desmascarado Chico Xavier pelo sobrinho e auxiliar ! "
O texto, curto, era taxativo:
Depois de se submeter ao papel de mistificador durante anos, o jovem Amauri Pena, sobrinho de Chico Xavier, resolveu, por uma questão de consciência, revelar toda a verdade! Chico Xavier era, desde muito cedo, um devorador de livros.
A velha polêmica parecia à beira da ressurreição. Para piorar a situação, o Jornal do Brasil se dedicava a estampar na primeira página milagres da Igreja Católica.
Amauri colocava o espiritismo em xeque e o JB transformava em manchete a notícia da cura de uma menina, Ana Luísa que, ao ouvir pelo rádio informações sobre a agonia de Pio XII, fechou os olhos e pediu:
- Papa, lembre-se de mim, antes de morrer.
Tuberculosa, de acordo com a última radiografia, ela ficou curada em instantes.
O jornal Diário da Tarde decidiu apurar melhor a confissão do sobrinho de Chico Xavier e mandou um repórter a Sabará para entrevistar Amauri. O rapaz estava em Belo Horizonte, O delegado Agostinho Couto recebeu o jornalista e deu a folha corrida do "confessor " Alcoólatra inveterado,  "um desordeiro  ", ele já tinha sido apanhado tentando roubar uma casa e fora expulso da cidade várias vezes pelo policial. O pai de Amauri, Jaci Pena, confirmou as acusações:
- Meu filho é um doente da alma. Todo mundo sabe disso. É dado a bebidas. Ontem mesmo eu o apanhei caído no jardim no maior pileque. Chico conhece Amauri. As declarações dele não alteram nada.
Só faltava entrevistar o outro envolvido na polêmica: Chico Xavier. No dia 29 de julho, o repórter do Diário de Minas, responsável pelo furo jornalístico, conversou com o tio de Amauri Pena. Chico, na época bastante magoado, disfarçou a tristeza e exibiu seu talento para medir palavras. O discurso seguiu à risca o regulamento cristão.
Para começar, Chico negou, com humildade, que Amauri Pena fosse seu auxiliar:
- Meu sobrinho, até agora, não freqüentou reuniões espíritas ao meu lado, mas posso acrescentar que ele tem estado num grupo de espíritas muito responsáveis em Belo Horizonte, junto dos quais sempre recebeu orientação com muito mais segurança que junto a mim.
Em seguida, perdoou o autor da denúncia:
- Meu sobrinho é muito moço e, pelo que observo, é portador de um idealismo ardente, em sua sinceridade para consigo mesmo. De minha parte, peço a Jesus, com muita sinceridade, para que ele seja muito feliz no caminho que escolher.
Para encerrar, deu exemplo de respeito às crenças ou descrenças alheias:
- Não recebi as palavras dele como acusação nem desafio. Tenho a felicidade de possuir muitos amigos que, em matéria religiosa, não pensam pela minha mesma convicção.
Na despedida, ainda escreveu um bilhete para ser publicado no jornal do dia seguinte:
- Se algo posso falar ou pedir, nesta hora, rogo a todos os corações caridosos uma oração a Nossa Mãe Santíssima em meu favor, a fim de que eu possa se for a vontade da Divina Providência continuar cumprindo honestamente o meu dever de médium espírita sem julgar ou ferir quem quer que seja.
A calma era aparente. Em uma carta a Wantuil de Freitas, no dia 10 de dezembro, ele fez referência a um "familiar deliberadamente vendido aos adversários implacáveis de nossa causa ". E, mais uma vez, destacou Waldo Vieira como alguém capaz de livra-lo dos perigos que rondam a tarefa.
A polêmica acabou ali. Amauri, sempre bêbado, acabou internado em um sanatório na cidade de Pinhal em São Paulo e morreu pouco tempo depois. Seu último desejo: divulgar um documento com um pedido de desculpas ao tio. Os diretores da Federação Espírita Brasileira decidiram adiar a retratação. Os adversários podiam insinuar que o jovem havia sido forçado a se arrepender.
Amauri morreu e deixou como herança um mistério para os espíritas. Por que ele tinha atacado o tio? A versão mais aceita no meio é a de que ele assumiu a autoria dos poemas e levantou suspeitas contra Chico para impressionar e agradar uma moça católica por quem estava apaixonado. Outra versão, mais apimentada, coloca dinheiro na roda: ele teria sido subornado por um padre para desmoralizar o espírita de Pedro Leopoldo. Amauri nunca mandou explicações do além.
Chico Xavier ficou deprimido. A culpa tomou conta dele.
Os "espíritos inferiores " atacavam seus amigos e parentes como forma de atingi-lo.
Seus adversários eram punidos com mortes trágicas. Todos sofriam por sua causa.
Conclusão: ele era má companhia tanto para aliados como para os rivais.
Estava tão só e inconsolável que decidiu pedir a Emmanuel não um conselho, mas uma orientação da própria Maria de Nazaré. Alguns dias se passaram e o guia voltou com uma frase atribuída à mãe de Jesus:
- Isso também passa.
Chico se sentiu anestesiado. Escreveu o recado num papel e o colocou na cabeceira da cama. Todas as noites e manhãs ele lia a frase e se consolava.
Emmanuel tratou de fazer uma ressalva: a frase valia tanto para os momentos tristes como para os alegres.
O efeito da anestesia passou logo. O pessimismo voltou. Em outubro de 1958, Chico tomou uma decisão surpreendente: iria experimentar o ácido lisérgico.
Perguntou a Emmanuel se ele poderia fazer a experiência com amigos de Belo Horizote. O guia se ofereceu para promover a "viagem ". À noite, Chico se sentiu fora do corpo, Emmanuel se aproximou dele, colocou uma bebida branca num copo e explicou: era um alcalóide capaz de produzir o mesmo efeito do LSD.
Chico engoliu a bebida, um tanto amarga, e começou a se sentir mal, como se estivesse entrando num pesadelo. Animais monstruosos se aproximavam e cenas assustadoras desfilavam diante de seus olhos. Ele acordou com mal estar. O sol parecia uma fogueira e o irritava, as pessoas o cercavam, desfiguradas. À noite, Emmanuel reapareceu com a lição psicodélica: o alcalóide refletia seu estado mental.
Chico quis saber como recuperar a tranqüilidade e escapar da ressaca. Receita: oração, silêncio e caridade, para colher vibrações positivas.
Chico seguiu as dicas à risca. Começou a visitar doentes pobres, a atrair bons fluidos e, durante cinco dias, trabalhou para se refazer. No sexto dia ele se sentiu melhor. À noite, Emmanuel voltou e propôs repetir a experiência com o mesmo alcalóide. Mesmo desconfiado, o discípulo concordou. O efeito foi surpreendente: alegria profunda. Teve sonhos maravilhosos, visitou uma Cidade de cristal, olhou para o céu como se ele fosse de vidro. Até a Fazenda Modelo ficou deslumbrante. Os livros pareciam encadernados por safiras e ametistas, luzes saíam do corpo dos companheiros, das plantas e dos animais. Chico sentiu vontade de abraçar todo mundo. Ficou assim, em êxtase, quatro dias seguidos, em estado de alegria descontrolada, insuportável. Emmanuel apareceu com as explicações:
- Você está vendo seu próprio mundo íntimo fora de você. Moral da história: Nós estamos aqui para cumprir obrigações, não para gozar um céu imaginário nem para fantasiar um inferno que devemos evitar.
Na manhã de 3 de novembro de 1958, Chico saiu do ar. Viajava num avião de Uberaba para Belo Horizonte, quando o aparelho começou a trepidar com violência. Parecia fora de controle. Os passageiros começaram a gritar, a pedir socorro. O comandante apareceu para pedir calma: não havia motivos para alarme, os movimentos desordenados eram provocados por um fenômeno atmosférico chamado "vento de cauda ". E encerrou o discurso com a garantia de que chegariam ao destino mais depressa.
Alguém, completou irritado.
- Mais depressa no outro mundo.
Chico tentava manter o equilíbrio. Mas era difícil. Não entendia nada de "vento de cauda ". O avião sacudia, virava de um lado, do outro, só faltava fazer piruetas.
Muita gente começou a vomitar, quatro crianças abriram o berreiro, os marmanjos apertaram o cinto, se agarravam às poltronas, rezaram aos gritos. O protegido de Emmanuel se uniu ao coro.
- Valei-me, meu Deus. Socorro, misericórdia. Socorro, pelo amor de Deus. Tende piedade de nós.
Um padre, a poucas poltronas de distância, reconheceu o desesperado e gritou:
- O Chico Xavier está ali. Ele é médium, espírita, e está rezando conosco.
Chico gritou do outro lado:
- Graças a Deus, padre, eu também estou rezando.
E continuou a berrar:
- Valei-me, meu Deus.
Quando já estava fora de controle há quase dez minutos, viu Emmanuel entrar no avião e se aproximar dele. Queria saber o motivo da gritaria. Chico tinha uma dúvida mais urgente:
- O senhor não acha que estamos em perigo? O guia foi seco:
- Estão, e daí? Não tem muita gente em perigo? Vocês não são privilegiados.
Chico nem pensou duas vezes:
- Está bem. Se estamos em perigo de vida, eu vou gritar. Valei-me, socorro, meu Deus.
Os passageiros berravam ainda mais.
Emmanuel ficou horrorizado com a cena. O espírita mais importante do país, defensor da vida depois da morte, estava em pânico diante da hipótese de morrer.
- Você não acha melhor se calar? Dá testemunho da tua fé, da tua confiança na imortalidade.
Chico teimou:
- Mas é a morte. E nós estamos apavorados diante da morte.
E insistiu:
- Nossa vida não está em perigo?
Emmanuel repetiu a resposta:
- Está.
E Chico defendeu seu direito de estar em pânico:

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DIVALDO FRANCO - JOANA DE ANGELIS - PARTE 4

segunda-feira, 30 de maio de 2011

PENSAMENTO DO DIA

Que seja eterna a vitória dos seus dias, mesmo quando eles lhe derem a impressão de fracasso. E nunca  esqueça que atrás das nuvens sempre existirá sol

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA

Mesmo quando estamos vazios de pensamento, não desistimos de nossa capacidade de pensar

Autor: Heidegger

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - - CHUVA DE PÉTALAS - PARTE 2

CONTINUAÇÃO

Na busca do tom político e evangelicamente correto, Chico aprovava as alterações. Algumas eram mínimas, quase imperceptíveis. Em "Homem da Terra ", também de Augusto dos Anjos, "células taradas  "deram lugar a   "células cansadas ".
Muitas vezes, em nome do espiritismo, Chico recorria a omissões e mentiras estratégicas. Ele mesmo admitia em conversa com os amigos:
- A verdade é um veneno. Nem Jesus Cristo quis defini-la.
Quando Pilatos lhe perguntou o que era a verdade, ele ficou em silêncio. Se formos falar a verdade na vida social, seremos considerados indesejáveis e loucos.
Chico preferia pegar a  "avenida do contorno ".     Diante de perguntas escorregadias, desviava com um "vamos estudar melhor a questão  ". Para escapar de críticas aos poderosos do país, apelava para a diplomacia:
- Eles estão tentando fazer o possível.
Como um embaixador do outro mundo no Brasil, Chico Xavier aprendeu a engolir em seco e a adiar a verdade. Era cauteloso, como bom mineiro.
Em 1955, saiu da defensiva e abriu a guarda para um rapaz de 23 anos, vindo de Monte Carmelo com a mãe. Seu nome: Waldo Vieira. Foi afinidade à primeira vista.
O rapaz mostrou a Chico um poema intitulado "Deus ", ditado a ele por um espírito anônimo. O autor do Parnaso de Além-Túmulo ficou abismado. Era um soneto alexandrino perfeito.
A surpresa cresceu após outra revelação. Waldo, com metade de sua idade, dizia receber mensagens de um espírito chamado André Luiz, homônimo do autor de Nosso Lar, mas com um currículo diferente. De repente, o próprio apareceu para os dois. Um olhou para o outro e perguntou:
Esse aí é o seu?
- É? Mas este aí é o meu.
André Luiz tinha apresentado históricos diferentes para os médiuns e foi desmascarado ali mesmo. Seu nome era, na verdade, um pseudônimo usado para encobrir sua verdadeira identidade: a do médico sanitarista Carlos Chagas (nunca admitida por Francisco Cândido Xavier). Um truque usado para evitar processos por direitos autorais como o movido pela família de Humberto de Campos.
Chico estava perplexo. E exultou com o currículo mediúnico do jovem de Monte Carmelo. Espírita desde os seis anos, quando seu pai fundou um centro, Waldo viu a primeira assombração de sua vida aos nove anos. Aos treze, começou a receber os primeiros textos do além. Com o tempo, tornou-se um dos líderes das Mocidades Espíritas. Era perfeito, bom demais para ser verdade. Chico previu a possibilidade de os dois trabalharem juntos. Só não adivinhou o que aconteceria após o dueto. Waldo se tornaria um dissidente, definiria o espiritismo como um  "estágio prématernal  ", faria pouco caso da mediunidade, "tão primária" ", e atacaria o ex companheiro com palavras duras.
Emmanuel, André Luiz, Bezerra de Menezes, ninguém o alertou na época. Chico, empolgado com a descoberta de uma nova promessa espírita, tratou de apresentar o jovem, em carta, ao presidente da Federação Espírita Brasileira, Wantuil de Freitas. Já em 1957, quando completava trinta anos de serviços prestados a servir de ponte entre este mundo e o outro, Chico defendeu o jovem:
- Apesar de moço ainda, revela-se um companheiro muito abnegado e senhor de um caráter honesto e limpo. Estudioso, amigo, trabalhador. Agora, meu caro Wantuil, que trinta anos consecutivos se passaram sobre minhas singelas atividades mediúnicas, tenho necessidade de sentir alguém comigo, a quem eu possa ir transmitindo recomendações de nossos Benfeitores Espirituais que eu não possa, de pronto, atender ou em cujas mãos possa deixar alguns deveres preciosos, na hipótese de qualquer necessidade.
Chico estava cansado. Um parceiro viria a calhar. Ainda faltavam três livros para ele honrar o compromisso assumido com Emmanuel e concluir a segunda série de trinta títulos. As sessões de Pedro Leopoldo eram exaustivas e, às vezes, terminavam muito mal. As mensagens de mortos a seus parentes, apesar de escassas e de dirigidas ao público espírita, causavam transtornos.
Companheiros de Chico, alguns deles interessados em fazer média com ricos e poderosos do Rio e de São Paulo, convidavam figurões para tentar a sorte em Pedro Leopoldo.
Quem sabe eles não receberiam recados do além de seus familiares? A maioria absoluta voltava para casa frustrada. Chico tentava explicar: não dependia dele, não era má vontade, ele não tinha poder para obrigar um morto a mandar recados para a Terra. E insistia:
- O telefone só toca de lá para cá.
Alguns dos inconformados sentiam vontade de bater aquele telefone imaginário na cara do pobretão ignorante. Resultado: Chico foi atacado quatro vezes com tapas no rosto por não conseguir atender aos pedidos.
A chegada de Waldo Vieira poderia aliviar tanto estresse.
Naquele ano, Chico viajou para Sacramento com o jovem e foi homenageado em uma festinha espírita. Entre os convidados estava um desconhecido de apenas dezesseis anos, bastante incomodado com as reverências prestadas por todos ao médium de Pedro Leopoldo. Ele não entendia tanta badalação. Qual a graça daquele senhor esquisito?
De repente, uma mulher pediu um autógrafo ao homenageado. Chico disse em voz alta:
Só se o Celso me emprestar uma caneta.
Celso de Almeida Afonso, o rapaz mal humorado, estava por perto e teve uma reação inusitada: agarrou aquele quarentão estranho, beijou seu rosto e, aos prantos, prometeu:
- Nesta encarnação vou me comparar a um dedo do pé do senhor.
Chico se encolheu e disse:
- Sou apenas cascalho que serve para machucar os pés de quem passa por mim. Você é luz.
Em seguida, avisou a Waldo Vieira:
- Celso é médium e vai trabalhar conosco em Uberaba.
Ele previa mudanças na própria vida. E já se preparava para elas.
Emmanuel também parecia estar bem informado sobre o futuro próximo. Em 1957, Chico ouviu o aviso: André Luiz ditaria um novo livro, o sexagésimo. Parecia tão ansioso quanto Chico para concluir logo a tarefa. Tão apressado que convidou Waldo Vieira a dividir o serviço com o autor do Parnaso de Além-Túmulo. Por quê? A resposta, segundo Emmanuel, viria no ano seguinte. Por enquanto, os dois deveriam apenas escrever.
A dobradinha espírita mais pródiga do espiritismo no Brasil começou com Evolução em Dois Mundos. O método de trabalho da dupla era insólito. Waldo Vieira, um jovem de 27 anos, recém formado em medicina e odontologia, enviava de Uberaba para Pedro Leopoldo, aos cuidados de Chico, 47 anos e curso primário incompleto, os capítulos ímpares do livro um resumo da história da alma humana repleto de termos médicos. Chico dava seqüência ao texto com os capítulos pares. A fusão dos artigos era surpreendente. Impossível afirmar quem escreveu qual parte. Em julho de 1958, o livro número sessenta já estava no prelo.
Chico comemorou. A maratona literária tinha terminado.
Mas a alegria durou pouco até Emmanuel comunicar:
- Os mentores da Vida Maior, perante os quais devo também estar disciplinado, me advertiram que nos cabe chegar ao limite de cem livros.
Assim já era demais. Chico estava exausto e chegou a desabafar com um amigo:
- Na próxima encarnação não quero saber de livros nem de imprensa. Quero nascer num lugar onde só haja analfabetos.
Pouco tempo depois, sonharia:
- Nas encarnações do futuro, quero ter uns trinta filhos...
O pior é que Chico escrevia e ainda levava desaforo pra casa. Evolução em Dois Mundos chegou às livrarias em meio a críticas. Médicos escreveram a Chico para protestar contra a complexidade do texto "pseudocientífico ". Por que eles não eram capazes de entender? Qual o sentido de páginas tão inacessíveis?
O livro, denso, quase inalcançável, contrariava a linha popular defendida poucos anos depois por Chico: as mensagens deveriam ser entendidas pelos "espíritas mais humildes ". Chico temia o elitismo e repetiria aos intelectuais da doutrina:
- O espiritismo veio para o povo e para com o povo dialogar.
O "povo ", desta vez, ficaria de fora. "Hausto corpuscular de Deus ",  "corpúsculo base ",  "fluido elementa " as expressões eram complicadas demais.
Mas o livro chegou na hora exata. Em julho de 1958, palavras escandalosas atingiam Chico Xavier em cheio. Seu sobrinho, Amauri Pena Xavier, de 25 anos, que morava em Sabará, apareceu na redação do jornal Diário de Minas "para desabafar ".
Precisava se livrar de um peso na consciência: há muitos anos escrevia poemas, atribuía a obra ao espírito de Castro Alves e dizia ter sido escolhido pela espiritualidade para divulgar na Terra um novo Lusíadas. Pois bem: era tudo mentira.
Aquilo que tenho escrito foi Criado pela minha própria imaginação, sem interferência do outro mundo ou de qualquer outro fenômeno miraculoso. Assim como tio Chico, tenho enorme facilidade para fazer versos, imitando qualquer estilo de grandes autores. Como ele, descobri isso muito cedo. Tio Chico é inteligente, lê muito e, com ou sem auxílio do outro mundo, vai continuar escrevendo seus versos e seus livros.
Os espíritas próximos a Amauri levaram um susto. O rapaz prometia. Escrevia num caderno, desde criança, poemas impressionantes. Seu trabalho foi acompanhado de perto, durante muito tempo, pelo professor Rubens Costa Romanelli, um dos fundadores da União da Juventude Espiritual de Minas Gerais, secretário do jornal O Espírita Mineiro.
Espíritas experientes ficavam surpresos com o poema épico intitulado Os Cruzílidas.
Os versos, escritos por Amauri e assinados por Camões, contavam a história espiritual do descobrimento do Brasil, a epopéia no outro mundo durante o descobrimento do país. Cabral teria sido acompanhado de perto pelos espíritos.
Amauri exibiu as oitavas lusitanas aos jornalistas, renegou os espíritos, atribuiu a autoria dos versos a si mesmo e levantou novas suspeitas contra o tio. A imprensa ignorou a qualidade de seus textos e explorou ao máximo a chance de transformar Chico Xavier em escândalo.

CONTINUA AMANHÃ

DIVALDO FRANCO - JOANA DE ANGELIS - PARTE 3

domingo, 29 de maio de 2011

PENSAMENTO DO DIA

Não sei se a vida é curta ou longa demais, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocamos o coração das pessoas.

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA

Você é tão jovem quanto a sua autoconfiança, tão idoso quanto seu medo, tão moço quanto suas esperanças e tão velho quanto seu desespero.

Autor: Desconhecido

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - HUMBERTO DE CAMPOS - CHUVA DE PÉTALAS - PARTE 1

CHUVA DE PÉTALAS

Em 1954, um fenômeno tirou o fôlego até mesmo dos amigos já habituados com os poderes de Chico. Sua irmã, Neusa, estava de cama, magra, pálida, triste.
Arnaldo Rocha, Lucília, seu marido Pacheco e Chico fizeram um círculo em torno da cama onde ela estava, em casa, e iniciaram os passes. Com a luz apagada, Chico rezou.
Arnaldo sentiu algo úmido, leve, cair em sua cabeça, nos seus braços. Os outros tiveram a mesma sensação. O protegido de Emmanuel pediu que todos mantivessem as mãos à altura do peito. Quando a luz se acendeu, eles desvendaram o mistério: o chão, a cama, o quarto, estavam repletos de pétalas de rosas. Na manhã seguinte, Neusa morreu.
Os casos sobre o mito Chico Xavier se sucediam. Em 1955, o filho de um motorista de táxi de Pedro Leopoldo, Geraldo Leão, estava de cama, vítima de uma paralisia facial provocada por choque térmico. Era tratado com chá de canela e compressas de água fria, em meio a uma febre crônica. Seus lábios pareciam prestes a alcançar as orelhas. Chico foi até o quarto e ouviu as queixas do rapaz. Ele tinha a sensação de que uma faca lhe rasgava o rosto. O espírita tirou o chapéu, colocou a mão na testa do doente e disse três vezes:
- Você vai ficar bom, você vai ficar bom...
A boca foi voltando ao normal, a dor desapareceu e Chico também, logo após pedir segredo.
Eram escassas, e discretas, as curas promovidas por ele. E eram ainda mais raras as previsões feitas por Chico Xavier. Ele evitava profecias, temia ser enganado por espíritos mal intencionados. Uma vez quebrou o protocolo e garantiu ao amigo Ranieri: se ele segurasse uma lâmpada com força, ela acenderia. A energia do delegado seria suficiente para gerar luz. Ranieri quase ficou com os dedos roxos. Tudo em vão. Não tinha vocação para bocal.
Muita gente duvidava dos superpoderes de Chico Xavier. O coro dos desconfiados seria engrossado até pelo oftalmologista do vidente, o Dr. Nadir Sáfadi, de São Paulo.
Numa das consultas, enquanto examinava a catarata e a miopia do paciente, ele não resistiu e perguntou:
- Você vê mesmo os espíritos?
Chico deu a resposta de sempre e recebeu de volta outra dúvida:
- Mas como você enxerga os espíritos com olhos tão debilitados?
O doente recorreu a um discurso kardecista:
- A mediunidade vidente independe dos olhos do corpo físico. O assunto exige muito estudo.
- Você está vendo algum espírito aqui no consultório?
Chico Xavier respondeu com um "sim " desconcertante e lacônico. O silêncio foi quebrado pela ansiedade do médico:
- Quem está aqui? Como ele se chama?
O paciente engoliu em seco. Sentiu medo de dizer nome tão inusitado e ridículo.
Podia estar sendo vítima de alguma chacota espiritual.
Diante da insistência do médico, ele tomou coragem e revelou:
- Ele está me dizendo chamar-se Senobelino Serra. Diz ter sido natural de São José do Rio Preto.
O Dr. Sáfadi ficou pasmo.
- Dr. Senobelino foi meu professor, foi muito amigo meu.
Chico Xavier respirou aliviado e foi adiante:
- O Dr. Senobelino está me dizendo ter sido designado pela Espiritualidade Maior para ajudar o senhor na profissão de médico oftalmologista, juntamente com outros amigos, porque o senhor ajuda muita gente aqui no consultório.
Histórias mirabolantes como esta se espalhavam, e o protegido de Emmanuel recebia a visita de céticos dispostos a desmascará-lo de uma vez por todas. A cada semana, cerca de duzentos novos curiosos chegavam à cidade. Chico calculava em um terço desse número a quantidade de desconfiados.
Em 1955, desembarcou em Pedro Leopoldo frei Boaventura Chasseriaux. Durante três dias, em abril, ele seguiu os passos do ex católico, conversou com ele e tentou convencê-lo a se submeter a uma hipnose e a dizer a verdade em confissão. A conversa ficaria em segredo. Chico agradeceu. Não precisava desabafar. O padre registrou suas impressões em O Diário, autoproclamado  "o maior jornal católico da América Latina "
Para começar, decretou: "O espiritismo não passa de um erro que irá acabando com a pregação da verdadeira doutrina do Cristo ".
Em seguida, criticou:  "Só mesmo com muita indulgência podemos achar os livros e discursos de Chico Xavier de grande valor e seria desaforo atribuí-los aos espíritos de luz ".
Mais adiante, absolveu Chico de seus pecados:  "Ele é solteiro, de vida simples e pura. Não podemos acusá-lo de ter se aproveitado pessoalmente do movimento em torno dele ".
Para arrematar, levantou suspeitas contra seus parentes:
"Sua família (irmãos, cunhado) tem lucrado bastante. De pobres que eram passaram para uma situação bastante invejável ".
Frei Boaventura registrou boatos que já ventilavam em Pedro Leopoldo. Alguns parentes de Chico estariam mesmo tirando vantagens da movimentação em torno dele. Os vizinhos cochichavam pelas esquinas. Lucília sentia os olhares desconfiados dentro de sua casa. Algumas visitas chegavam, sentavam-se e, se houvesse algum eletrodoméstico novo na casa, disparavam a pergunta incômoda:
- Quem te deu?
Os rumores envolviam com freqüência o nome de André Xavier. As acusações eram graves. O irmão caçula de Chico, um dos receitistas assistentes do centro, teria feito um acordo com um fabricante do depurativo Fumarento. Em troca de comissão, incluiria nas receitas do Dr. Bezerra o nome do remédio, por sinal bastante assíduo nas sessões. André também usaria o nome de Chico Xavier para contrair empréstimos. Um colega de trabalho, Guilherme Augusto Filho, guarda lembranças amargas da convivência com André. Ele emprestou dinheiro ao irmão do amigo, que prometeu o pagamento de juros mensais de 5% até o saldo da dívida. Nos dois primeiros meses, o trato foi cumprido. Nunca mais.
Tempos depois, após fugir o quanto pôde dos credores, André arrumou as malas e foi para São Paulo. Só reapareceu em Pedro Leopoldo como assunto da revista Fatos e Fotos, em 1980. Tinha montado um consultório espiritual na capital paulista e prometia cura por correspondência. "Os pedidos por escrito são enviados a mim .
Cerca de quinze a vinte dias após a formulação do pedido, a consulta é concluída com uma resposta contendo a orientação espiritual. Os casos que merecem um cuidado especial são encaminhados pessoalmente a Chico  ".
Diante dos boatos e das críticas, Chico recorria a uma idéia fixa:   "Deixa a água do silêncio trabalhar nesses incêndios ", Em carta a amigos, ele aconselhava: "Nunca revidemos  ".
Emmanuel fiscalizava não só as palavras ditas por Chico como também, e principal-mente, as escritas. Vetava, sem piedade, "idéias imprópria ". Até Humberto de Campos sofreu censura espiritual. Tudo porque assinou, através de Chico, artigo sobre um dilema já em alta naquela época: o homem deve ou não comer carne?
Para responder à questão, Humberto contou a história de um anjo encarregado por Deus de fazer um relatório sobre a Terra. Chegou aqui e encontrou um animal arando o campo, açoitado por uma espécie de demônio.
Depois, viu outro animal no curral, com outro demônio espremendo suas tetas e tirando leite, em prejuízo do filho dele, que berrava à distância. Mais tarde, viu um enorme animal sendo morto, suas carnes sendo comidas pelos pequenos demônios e seu couro sendo usado em calçados. Era o bastante. Ele anotou no seu bloco:
- O homem é um ser muito elevado, bom e paciente, merecedor do amor de Deus.
E decidiu conversar com o demônio:
- Por que fazes isto com o homem? Por que o maltratas e o matas se ele te dá tudo?
O demônio desfez o mal entendido:
- Eu sou o homem. Ele é o boi.
O anjo ficou perplexo e enviou o mais rápido possível seu relatório a Deus.
Emmanuel apareceu, leu a parábola e mandou Chico rasgar o texto em pedacinhos. Os espíritas poderiam ser influenciados por aquela história. Muitos deles, inclusive Rômulo Joviano e Chico Xavier, funcionários da Fazenda Modelo, trabalhavam com a carne e ganhavam a vida assim. O artigo poderia provocar problemas sociais mais graves do que os gerados pela alimentação carnívora.
Chico acatou. E seguiu também ordens atribuídas a Emmanuel ao preparar a sexta edição do Parnaso de Além-Túmulo, em setembro de 1955, ano da morte de Manoel Quintão.
A nova versão da coletânea de poemas chegou às livrarias com um adendo na capa: "Revista e ampliada pelos autores espirituais ". Emmanuel fez o papel de censor. E foi implacável. Ele queria versos espiritualmente corretos, fiéis à cartilha evangélica, de acordo com os ensinamentos de Jesus e de Kardec. A poesia perdeu espaço para a doutrina.
O poema  "A Guerra", de Augusto dos Anjos, por exemplo, desapareceu. Quem abre hoje o Parnaso já não encontrará estes versos, formulados em meio às bombas da Segunda Guerra Mundial: "
A torva geração do ódio e da Guerra
embora a paz suavíssima a conclame
Faz dos homens do mundo amargo e infame
Assanhados carnívoros da Terra.
O texto era pessimista demais.
Guerra Junqueiro também sofreu cortes. Seu poema "Contra a Besta Apocalíptica  ", sumiu. Pecou por excesso de anticlericalismo, considerado uma virtude nos tempos do indignado Manoel Quintão, responsável pela primeira edição da coletânea. Os versos não passaram pelo crivo  "emmanuelino  ":
Não contente com o dogma inquisitorial
que o seu concílio impôs a todas as criaturas
A Igreja ainda requer benesses, sinecuras
Amealhando assim o ouro universal.
Para arrematar, Junqueiro chamava o padre  de  "mercador do altar ". Era demais.

CONTINUA AMANHÃ

DIVALDO FRANCO - JOANA DE ANGELIS - PARTE 2

sábado, 28 de maio de 2011

PENSAMENTO DO DIA

Não pede nada nas tuas preces, para ti. porque não sabes o que te é útil e só Deus conhece as tuas necessidades

Autor: Pitágoras

MENSAGEM DIÁRIA

Todos nós merecemos, mas temos que fazer por merecer

Autor: Desconhecido

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - HUMBERTO DE CAMPOS - O ESCÂNDALO - PARTE 8


CONTINUAÇÃO

Um dia, um amigo, Jofre Leles, contou um caso estranho para o vidente de Pedro Leopoldo. Ele tinha encontrado, por acaso, às margens do rio Mucuri, em Teófilo Otoni, restos de uma espada. Desde então, vivia sonhando com lutas sangrentas. Chico pegou o objeto e se limitou a acariciá-lo bem devagar.
Capitão Jofre, esta espada lhe pertence há muito tempo. Por volta de 1840, você, nas vestes de um capitão da milícia mineira, guerreou bravamente na cidade de Filadélfia, hoje Teófilo Otoni, durante sua revolução, a chamada Revolução Liberal. Foi ferido e a espada lá ficou.
Jofre olhou desconfiado. Diante da dúvida e da surpresa do amigo, Chico garantiu:
- No pedaço de lâmina oxidado, estava gravada sua insígnia de capitão de cem anos atrás, a mesma que ele usava agora, na Polícia Militar.
Ao chegar a Belo Horizonte, Jofre fez de tudo para limpar o metal e, com muito custo, encontrou embaixo do encardido, sobre o aço brilhante, duas palavras latinas: honor e fides (honra e fidelidade).
As surpresas eram diárias. Arnaldo Rocha e Ennio ficavam cismados nas vezes em que ajudavam Chico a organizar sua correspondência, uma batelada de cartas todos os dias. Elas vinham de diversos estados do Brasil, principalmente de Minas, Rio de Janeiro e São Paulo. Arnaldo e Ennio abriam os envelopes e classificavam as consultas por assunto. Chico apenas tocava os pacotes e os separava em montes diferentes: pedidos de receitas, requisição de mensagens de mortos queridos, pedidos de conselhos.
Alguns, ele colocava no bolso do paletó. Sem ler.
Quarenta anos depois, uma de suas amigas mais fiéis, Neusa Arantes, ficaria perplexa diante da leitura dinâmica do médium. Ele pegava um livro, folheava três ou quatro páginas e dizia:
- Já li.
Diante da descrença da companheira, Chico contava a história do começo ao fim.
O poder mediúnico do tato seria estudado pelo espírita Ernesto Bozzano e até renderia um livro com título científico: Enigmas da Psicometria.
Os casos sobre Chico Xavier espalhavam-se como lendas.
Em Belo Horizonte, ele quase fez uma de suas admiradoras perder a voz. Após uma palestra na Semana do Livro Espírita, ele se levantou da mesa, aproximou-se dela, uma desconhecida, e a cumprimentou:
- Muito prazer, dona Daise.
A moça, sem graça, corrigiu a pronúncia:
- Dayse (Deise).
Chico desculpou-se:
- É que estou lendo seu nome como ele está escrito.
Detalhe: Dayse não usava crachá de identificação.
Outro dos amigos de Chico, Clóvis Tavares, também levou um susto quando Chico lhe pediu, tímido, em meio a uma caminhada:
- Nosso querido Emmanuel está me dizendo que você tem lido Charles Wagner. Ele lhe pede que me empreste algum livro desse autor. Diz que eu preciso conhecê-lo.
Como ele conhecia aquele detalhe? Os livros estavam em Campos...
As próprias irmãs de Chico, Dália e Lucília, começavam a acreditar nos poderes fantásticos dele. Numa tarde, as duas reclamavam da vida enquanto lavavam roupa e colocavam água no feijão. O irmão mais velho, responsável pela fiscalização da casa na ausência quase permanente de João Cândido, estava na Fazenda Modelo. E elas aproveitaram para desabafar. Estavam cansadas de tanta trabalheira lavar e passar roupa, fazer comida, varrer chão.
- Precisamos de uma empregada.
Chico chegou no fim da tarde irritado e desfiou um discurso machista:
- Em primeiro lugar, não é "empregada " que se diz, O certo é falar  "moça para ajudar em casa " Em segundo lugar, vocês devem se acostumar com o trabalho doméstico. Senão, quando se casarem, vão ser chamadas de preguiçosas pelos maridos.
Outra volta do trabalho de Chico foi bem mais dramática. Quando entrou em casa, encontrou seu cachorro de estimação, Lorde, agonizando na cozinha. Ele se contorcia, revirava os olhos e, com o rabo entre as pernas, gania. Lucília e Dália acompanhavam o sofrimento à distância. Chico se ajoelhou e, sacudido por soluços, descreveu uma cena invisível: um outro cão, vindo do além, lambia o companheiro para atenuar seu sofrimento nos últimos momentos.
Um ano depois, o rapaz comentou em conversa com amigos, diante das irmãs:
- Eu tinha um cão maravilhoso. Mas, como ele fazia xixi pela casa inteira, Dália e Lucília acharam melhor envenená-lo.
As duas coraram. Chico fingiu ter se conformado. Na verdade, ficou chocado com o assassinato do cachorro. Era fascinado por animais. Encarava os bichos como irmãos caçulas do homem e cuidava deles com obstinação. Até mesmo quando assumia o papel de pescador. Numa tarde, vencido pela insistência dos amigos, aceitou um convite para pescar. Pôs o chapéu na cabeça e, ao lado dos companheiros, tomou o rumo do ribeirão. Sorridente, acomodou-se em um barranco e lançou a linha na água.
Seus vizinhos fisgavam um peixe depois do outro. Nenhum lambari se aproximava de Chico. Um dos amigos estranhou tanta falta de sorte. Chico acabou confessando: não tinha colocado isca no anzol para  "não incomodar os bichinhos "

CONTINUA AMANHÃ

DIVALDO FRANCO - JOANA DE ANGELIS - PARTE

sexta-feira, 27 de maio de 2011

PENSAMENTO DO DIA

Sexta feira, 27 de maio de 2011.

Um homem verdadeiramente nobre é aquele que sabe ser justo

Autor: Desconhecido

MENSAGEM DIÁRIA

Sexta feira, 27 de maio de 2011.

O importante em mim não é o que parcialmente se vê, mas sim a dignidade que reveste a personalidade que espelha a alma

Autor: Desconhecido

AS VIDAS DE CHICO XAVIER - HUMBERTO DE CAMPOS - O ESCÂNDALO - PARTE 7

CONTINUAÇÃO

Chico obedeceu mais uma vez. Sua missão era o livro, era materializar idéias. Precisava cumprir seu cronograma e entregar logo os novos trinta títulos. Ainda faltavam dez.
A maioria dos amigos entendeu. O autor de best sellers espíritas saía das sessões em estado de exaustão. Pálido, abatido, banhado em suor. Alguns admiradores ficaram decepcionados. Quem sabe Chico não poderia provar, com esses fenômenos, a existência dos espíritos? A esperança era inútil. A maioria absoluta dos céticos duvidaria de cada foto ou de cada aparição luminosa.
Em 1954, Chico Xavier estava esgotado. Arnaldo Rocha e o amigo Ennio Santos o convenceram a passar alguns dias em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Aquela seria uma viagem também no sentido psicodélico da palavra.
As surpresas começaram ainda no meio do caminho, quando Chico sugeriu um pernoite em Resende. O hotel escolhido pelo moço de Pedro Leopoldo era incomum. Logo no salão de entrada, encravado no mármore da lareira, reluzia o símbolo do comunismo a foice e o martelo. Deus, ali, não deveria ter o menor ibope. Mas tinha.
As portas de todos os apartamentos eram marcadas por citações evangélicas pintadas a óleo. Na entrada do quarto deles, equipado com três camas estreitas, a frase de boas vindas tinha a assinatura de Lucas: "E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, perante Deus e os homens. Do lado de dentro, a madeira era marcada por outra saudação, esta menos empolgante. O apóstolo Marcos desejava  "boa-noite "
"Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai " Chico Xavier se deitou e aconselhou:
- Tomem cuidado com as palavras.
Conseguiram dormir. Ennio e Arnaldo estavam embalados no sono quando foram surpreendidos por Chico, novo em folha, de pé, pronto para uma boa caminhada.
Arnaldo conferiu no relógio: 5h30 da manhã, O frio intenso recomendava um cobertor felpudo. Os dois tomaram coragem, café, fôlego e, em pouco tempo, estavam diante de uma cachoeira ao lado de Chico. Para começar, ouviram dele um aviso em tom coloquial:
- Há vários espíritos aqui, homens, mulheres e crianças, num ritual.
Arnaldo quis saber se eles também eram vistos pelo grupo.
Chico respondeu com uma explicação dada por seu companheiro invisível.
Emmanuel esclarece que são espíritos simples, ingênuos. Pelo nosso calendário, poderíamos dizer que se encontram ainda no século XV, no mundo que lhes é próprio.
Nós não existimos. Eles não nos vêem e encontram-se em fase evolutiva bem acanhada. São índios.
Após breve pausa, completou:
- Estão, sim, meu amigo, completamente nus, pelados.
Lançou um olhar irônico a Arnaldo:
- Não é esta a sua pergunta mental?
A viagem estava só começando.
O trio chegou em Angra à noite e, na manhã seguinte, visitou as ruínas do Convento São Francisco. Eles caminhavam, quando Chico avisou a Ennio:
- Creio que terá algumas surpresas hoje.
Minutos depois, já no Cemitério do convento, Ennio encontrou em velhas lápides gastas pelo tempo os nomes de seus avós paternos e maternos. Após o tour religioso, os três decidiram encarar um programa mais ousado: alugaram uma lancha e tomaram o rumo de uma ilha deserta, velha conhecida de Arnaldo. O sol estava tinindo.
Desembarcaram, despediram-se do condutor e ouviram dele a promessa de voltar três horas mais tarde. Arnaldo resolveu nadar, Chico e Ennio ficaram à beira mar, com as calças suspensas até os joelhos, rindo e conversando entre as marolas. De repente, por volta das 16h, o tempo virou. Ondas gigantescas saltaram do mar, um temporal desabou. Do barco prometido, só se ouvia o barulho abafado ao longe. Ele tentava se aproximar, desistia, insistia, voltava. Com muito custo, o barqueiro chegou até a praia. Estava apavorado. A embarcação inclinava-se para todos os lados. As rezas pareciam inúteis. O motor parou de repente.
Chico ficou mudo, encharcado. Arnaldo segurou sua mão e ele, baixinho, lhe disse:
- Limite-se a orar. Depois eu lhe conto.
A viagem, que demorou quarenta minutos na ida, prolongou-se por mais de quatro horas na volta. De vez em quando, Chico se encolhia num canto, franzia a testa e mordia o lábio inferior. Tinha bons motivos para tanta agitação: duas assombrações agarravam desesperadas as bordas do barco. Pareciam pedir socorro. Só ele via.
E só ele ouviu a explicação nada tranqüilizadora de Emmanuel:
- São suicidas extremamente voltados para o mal. Estão tentando virar a embarcação. Já tomamos as providências devidas.
A dupla mal intencionada estava cercada de outros suicidas, uma horda de seres monstruosos.
Entre mortos e vivos, salvaram-se todos. Mas Chico ficou impressionado. Em seus 43 anos de convivência com o insólito, nunca tinha visto gente tão desesperada.
A noite também seria tempestuosa.
Os três jantaram e foram para o quarto. Conversaram sobre os sustos e as surpresas do dia, riram, conseguiram relaxar.
Estavam prontos para um sono mais ou menos tranqüilo, quando Chico aconselhou uma reza. Emmanuel iria se manifestar. Dito e feito. A voz de Chico mudou:
- Meus diletos e caríssimos amigos, que o Senhor se compadeça de nossas necessidades. Devemos estar preparados para tarefas de assistência e enfermagem espiritual.
Em seguida, Emmanuel se calou e abriu passagem para um desfile de assombrações. Todas usaram e abusaram do corpo de Chico.
O primeiro visitante tomou conta do ex matuto de Pedro Leopoldo e o deixou transtornado. De pé, andando de um lado para o outro, ele dava ordens, esbaforido:
- Atirem! Carreguem os canhões. Coragem! Ah, Napoleão! Eu que tanto o admirava... Não passas de um conquistador cruel...
Arnaldo e Ennio rezaram e puxaram conversa com o recém chegado, bastante à vontade na pele de Chico Xavier. Aos prantos, ele se apresentou como capitão de um navio posto a pique em combate, em Angra, por corsários franceses, em 1810. Ele chorava por seus comandados, pela mulher, pelos filhos.
- Que a Virgem Santa os tenha em sua guarda. Como é possível, caros senhores? Amava tanto o bravo general Napoleão. Como pode se transformar nessa ave de rapina? Ele, que lutou pelos ideais de igualdade, fraternidade e liberdade...
Após desabafar e ouvir uma série de conselhos, o comandante saiu de cena. Era um privilegiado se comparado com as outras visita da noite. A voz de Chico transformava-se em grunhidos, uivos, silvos, engrossava e afinava. Ele rastejava, saltava, se contorcia, tinha o rosto atravessado por rugas profundas e repentinas. Sozinho, dava vida a personagens inacreditáveis. Pela sua boca, um juiz negociava sentenças injustas em troca de nobreza e prestígio político. Franciscanos lembravam-se dos bons tempos em que promoviam orgias e matavam seus hóspedes no convento para roubá-los. Um desfile de criaturas sórdidas tomou conta do quarto. Quem colasse o ouvido na porta do lado de fora ficaria atônito, teria vontade de chamar o exército ou o hospício. Uma multidão aglomerava-se ali dentro.
As histórias pavorosas sucediam-se: recém-nascidos eram seqüestrados nas senzalas, seviciados e sacrificados em rituais satânicos. Escravas eram violentadas por seus senhores. Chico encarnava todas as criaturas num monólogo ensandecido.
Ennio e Arnaldo usavam todos os argumentos para acalmar os visitantes. Um dos mais desesperados apareceu como escravo, morto a chicotadas no tronco de castigos.
Seu crime: ter suplicado ao prior dos franciscanos que não tomasse sua filha Aninha para suas orgias. Chico se ajoelhava no chão e com os olhos marejados implorava:
- Oh, meu sinhô. Vosmicê é tão bom. Num faze essa coisa cum minha cuburquinha Aninha, não. Sinhô, vosmicê é um santo. Aninha é luz dos meus óio tão cansado de pinta as figurinha nos livro de vosmicê...
Ennio e Arnaldo choravam, rezavam, conversavam. Mas só conseguiram acalmar o coitado com a ajuda da falecida mulher de Arnaldo, Meimei, considerada pelos espíritas um espírito de luz. Ela apareceu e foi apresentada como nova proprietária do escravo. Chico, ainda ajoelhado, foi beijado pela aparição e reagiu com subserviência.
- Uai, sinhá. Vosmicê tá beijando negro sujo? Aninha mora cum vosmicê? Num faze isso, não. Negro Pedro é que beija sua mão e as dos outros moço.
Chico distribuía beijos e continuava:
- Vosmicê são gente de Deus. O véio Pedro inda sabe faze sabão de bola cum alecrim pra ficá cheroso... Vô fazê, viu? É um chero tão bão...
Durante três noites, o quarto se transformou em palco de tragédias de outro mundo. Ali, em Angra dos Reis, Chico deu uma amostra do que costumava fazer nas sessões de desobsessão semanais e privativas no Centro Luiz Gonzaga.
Aquelas foram as suas férias.
Nas  "horas úteis " o médium exibia poderes cada vez mais ecléticos e inacreditáveis. Ondas de perfume se desprendiam de seu corpo de repente. A água - colocada em copos e garrafas sobre a mesa em sessões kardecistas para concentrar energias positivas enviadas pelos espíritos muitas vezes ficava leitosa e perfumada quando Chico se aproximava.
Os mais desconfiados tentavam descobrir onde ele escondia as fragrâncias.
Ninguém encontrava o frasco. Muitos saíam do centro com lenços encharcados por aquele liquido vindo do nada.
O perfume, segundo os espíritas, não era mero exibicionismo. Chico, ou melhor, Emmanuel, sempre destacou os poderes terapêuticos das rosas, ricas em vitaminas C e D. O aroma viria de flores "astrau  'usadas pelos benfeitores espirituais para energizar os visitantes mais abatidos. Chico levava tão a sério o poder das rosas que sempre plantou roseiras em seu quintal com a segunda intenção de criar um cinturão  "balsâmico" em torno de si. De vez em quando, especialmente em sessões de desobsessão, ele exalava também um cheiro de éter quase sufocante. Era o sinal de que Sheilla, a enfermeira, estaria por perto.
Os amigos divulgavam os poderes extravagantes de Chico.
Um deles era o de adivinhar a história de objetos apenas com o toque.

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ESPIRITISMO DIVALDO FRANCO - PROVAS CIENTÍFICAS DA EXISTENCIA DO ESPIRITISMO DE DEUS PARTE 4